Fim do “News of The World”: a diferença entre um jornal e a tela da Internet

Pedro do Coutto

Rupert Murdoch, magnata internacional da comunicação (no Brasil é o proprietário principal da Rede Sky, que adquiriu da Globo), surpreendido ou exposto pelos métodos ilegais de atuação dos editores e repórteres de seu jornal “News of The World”, decidiu fechá-lo embora sua vendagem atingisse 2,7 milhões de exemplares.

Sua despedida das bancas de Londres ocorreu ontem, domingo. Um escândalo, mais que um escândalo, crimes em série contra a privacidade das pessoas. O jornal era sensacionalista. Comum na Inglaterra. O tablóide “The Sun”, também de propriedade de Murdoch, o homem parece estar em todas, segue a mesma linha há várias décadas. Sua tiragem diária? Dois milhões e oitocentos mil exemplares.

Entretanto, o exemplo do “News of The World” nada tem de exemplar. Realizava escutas ilegais nas residências, escritórios e principalmente celulares. Assim como, segundo revelou Élio Gaspari na sua obra sobre a ditadura brasileira, o general Golbery do Couto e Silva gravava as conversas do presidente Ernesto Geisel. E Golbery era o chefe da Casa Civil. Vejam só. Golbery fazia o papel de Cássio, principal traidor de Julio Cesar na peça de Shakespeare. Um detalhe para conter as dúvidas: Brutus foi o primeiro a apunhalar Cesar. Mas a trama foi articulada por Cássio. Estas porém são divagações de uma visão impressionista. Voltemos à decisão do imperador Murdoch.

Teria mesmo sido traído por seus redatores ou tornou-se, pela mão do destino, um traidor traído? Importa pouco no caso. A questão é que se os grampos ilegais tivessem sido utilizados apenas na internet o episódio duraria dois dias. E a rede de intrigas apenas daria uma parada. A trama não marcaria como a torpe atuação daquele jornal londrino marcou. Aí está a diferença principal entre o jornal de papel e a tela mágica de navegação informativa em tempo real. A repercussão do jornal impresso é muito maior. Sobretudo quando sua vendagem é de dois milhões e setecentos mil exemplares. O que significa mais de 8 milhões de leitores.

Sim. Porque um jornal dificilmente é lido por apenas uma pessoa. Para se chegar à escala efetiva de leitura deve-se sempre multiplicar a vendagem nas bancas ou por assinatura por três. Nem todos os analistas observam tal método, aliás parâmetro das agências para veicular publicidade. O anunciante não se baseia apenas na tiragem, porque é necessário descontar o encalhe natural, mas sim na vendagem efetiva, multiplicando cada unidade por três vezes.

A Folha de São Paulo, edição de 28 de julho do ano passado, guardei o recorte, publicou excelente matéria sobre a circulação no país dos 94 principais jornais (há mais de mil), concluindo que no primeiro semestre de 2010 a média diária de venda foi de 4,2 milhões de exemplares. E que as vendas avulsas cresceram 2% enquanto – digo eu – a população aumentou 1,2%, segundo o IBGE. O hábito de leitura portanto aumentou.

Rupert Murdoch conhece isso. Muito bem, é claro. Ele é um grande empresário de jornais e televisões. Há cerca de dois anos comprou o “Wall Street Journal”, que cobre a área econômica, especialmente as oscilações de Bolsas de Nova Iorque. Por isso sabe que uma empresa de comunicação exige credibilidade. O jornal (de papel) proporciona um compartilhamento que a internet não oferece.

A internet, absolutamente insuperável em matéria de pesquisa, fornece a sensação de que nos encontramos a bordo de uma nave espacial. Inclusive a expressão navegar não foi inventada à toa. Tem toda lógica diante da tela mágica digital. Mas o compartilhamento amplia a onda da repercussão.

Murdoch necessita de imagem favorável de suas empresas. Pois é exatamente esta imagem que tem assegurado seu êxito. Ele e os grandes empresários podem fazer  tudo. Mas não se podem deixar apanhar em flagrante. A direção do “News of The World” não observou tal limite. Afundou.

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