Foi O Globo (e não o PMDB) que derrubou Sergio Cortes

Pedro do Coutto

Apesar das desculpas públicas apresentadas pelo governador Sergio Cabral à presidente eleita, no surpreendente episódio Sergio Cortes, na realidade não foi o PMDB que causou o recuo de Dilma Rousseff, mas sim O Globo que impediu a nomeação de Cortes para o Ministério da Saúde. Basta lembrar que na edição de primeiro de Dezembro, em matéria de página inteira assinada por seis repórteres, o jornal focalizou as acusações do Ministério Público existentes contra ele, tanto por sua gestão na Secretaria Estadual, quanto pela sua passagem na direção do Hospital Anchieta. Isso de um lado. De outro investigações por parte da Polícia Federal em face de procuração que outorgou ao ex-secretário Cesar Romero Viana, demitido do posto em meio a denúncias em série que levaram a tal desfecho.

Assinam a reportagem de O Globo Gerson  Camaroti, Maria Lima, Daniel Brunet, Maiá Menezes, Eliane Oliveira e Jailton de Carvalho. As lentes assim foram colocadas em vários ângulos em torno do tema para iluminá-lo com intensidade. Intensidade política. Exatamente isso. E revela a força da imprensa escrita, sem que tal constatação represente qualquer tentativa de reduzir a importância da comunicação pela internet. Da informação pelo computador que preenche o tempo real, o que os jornais não podem fazer, e aproxima cada vez o futuro do presente com maior velocidade. Porém os computadores não possuem a mesma força política e administrativa.
Este aspecto é próprio do que se chama mídia escrita, insubstituível no campo da opinião. E do reflexo dela nas decisões.

Para comprovar é suficiente apenas repassar os acontecimentos que marcaram a vida nacional de 84 até aqui, começando pela emocionante campanha Tancredo Neves à sucessão indireta de 85. Seu adversário, Paulo Maluf, não podia sair às ruas, era atingido por fortes e seguidas manifestações de opinião pública. Apoio total da imprensa. Sete anos depois, novamente os jornais, nesta ocasião ao lado da Revista Veja, denunciando a atuação do presidente Collor, movimento que o levou ao impeachment e à queda.
Numa terceira escala, a imprensa abriu fogo contra o escândalo do mensalão. O que ocorreu? A demissão, pelo presidente Lula, do ministro José Dirceu que, no episódio, perdeu a presidência conquistada por Dilma.

Depois do mensalão, o caso dos aloprados. Demitidos todos, sua alucinação aumentou a derrota de Mercadante para Serra nas eleições de 2006 para o governo de São Paulo. Mais recentemente, sob fogo da Veja e dos jornais, Erenice Guerra foi demitida (novamente por Lula) da chefia da Casa Civil. Perdeu o cargo e a continuação nele ao longo da administração que se instala a primeiro de Janeiro. São todos esses exemplos concretos da força da imprensa escrita. Não que ela seja – graças a Deus não é – dona da vontade nacional. Mas é fator fundamental para defesa da cidadania e da própria sociedade contra rupturas éticas e morais que abalam o país. O país e o governo, aliás como aconteceu. A imprensa não inventa nada. Retrata e reflete.

A diferença essencial que existe entre a página e a tela é sobretudo psicológica. Empunhando um jornal, as pessoas sentem que algo está sendo compartilhado. Que cada leitor é uma testemunha do que foi publicado. Diante do computador a fria atmosfera é a de que cada um é um espectador solitário. Não compartilha e assim o calor de sua emoção não se irradia. E com isso não há o indispensável retorno. Tema para uma reflexão mais ampla. Hoje ficamos por aqui.

O Globo e Cortes também.

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