Folha 90 anos: nos jornais a História não espera o amanhecer

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo, um dos maiores e mais importantes jornais brasileiros, editou sábado caderno especial sobre a passagem de seus 90 anos de circulação. Começou em 1921, governo Epitácio Pessoa, véspera – pode-se dizer assim – dos movimentos tenentistas que contestavam a estrutura do poder político e que criaram um processo de cultura cujo desfecho foi a revolução de 30 que levou Vargas à presidência da República.

Da mesma forma que O Globo, O Estado de São Paulo, o Correio da Manhã, que morreu em junho de 74, a Tribuna da Imprensa, em cujo site escrevemos, o Jornal do Brasil que saiu de cena no ano passado, e o Jornal do Comércio, a FSP traduziu a História do Brasil para milhões de leitores de ontem e de hoje. E continuará exercendo a bela missão de informar e opinar para os eternos leitores de amanhã, aqueles, como disse Brecht, que vierem depois de nós.

Este, acima de tudo, é o destino dos jornais e das revistas. Refletir o conteúdo dos fatos no espelho da existência. Como digo sempre, a imprensa não cria ou produz fatos. Divulga-os, através, é claro, de um critério seletivo diário. Se no Cairo, por exemplo, morrerem cem pessoas e forem feridos 400 nos protestos contra Mubarak, a imprensa não é responsável pelos acontecimentos. Ela os testemunhou e, democraticamente, os colocou ao alcance de todos. Por um prelo acessível à grande maioria.

Não conheço processo informativo mais simples e direto do que a leitura dos jornais para a sociedade se inteirar em profundidade de tudo o que ocorre no país e no mundo. Num espaço de tempo de 24 horas. Pois como definiu o historiador Hélio Silva, ao acentuar o sentido de urgência os acontecimentos, a história não espera o amanhecer.

Ela está toda escrita nas coleções dos jornais que citei há pouco e para que alguém tome conhecimento, hoje, basta acessar a Internet. Está tudo lá. Ou então visitar os salões da Biblioteca Nacional na Avenida Rio Branco. Em matéria de episódios, todos nós, leitores diários, poderíamos citar centenas de exemplos impactantes. A Coluna Prestes-Miguel Costa. A Revolução de 30. O Estado Novo de 37 quando Getúlio Vargas implantou a ditadura que durou até outubro de 45. A redemocratização deste ano. A vitória de Eurico Dutra nas urnas. O retorno de Vargas pelo voto em 50. A eleição de Juscelino em 55 que exigiu dois movimentos militares, 11 e 21 de novembro, para que assumisse em 56. A renúncia de Jânio Quadros. A  posse de João Goulart. A queda de Jango, a ditadura militar que durou de 64 a 85, a volta das eleições diretas, em 89, etapa que sucedeu a vitória indireta da chapa Tancredo Neves-José Sarney, em 85.

Estou, como se vê, me restringindo à História do Brasil. Está tudo lá nas páginas nervosas e sempre urgentes da imprensa. A criação da CLT. O atentado a Lacerda. O suicídio de Vargas. Ao alcance de qualquer um. O ataque integralista, braço do nazismo de Hitler em nosso país em maio de 38, no qual Vargas quase perde a vida.

São, todos estes, capítulos bastante expostos. Porém, existe um pouco exposto, desvendado em 76 ou 77 pelo grande jornalista Marcos Sá Correa, então do Jornal do Brasil. Falava-se na influência de Washington, em 64, na queda de João Goulart. Os adeptos do regime militar, claro, negavam. Para estes, o general Vernon Walters, da CIA, não existia.

Marcos Sá Correa foi ao Texas. Obteve facilmente os documentos oficiais na Biblioteca Lindon Baynes Johnson e os publicou. Eles narram a trama e toda a participação americana no golpe de Estado. Uma engrenagem sinuosa do poder internacional foi desvendada. A matéria foi fantástica. Sá Correa iluminou uma face oculta da história do Brasil. É isso. A  memória nacional está nos jornais. Parabéns à Folha pelos noventa anos.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *