Força-tarefa de Janot diz ter novo indício contra Eduardo Cunha

Cunha diz desconhecer o novo indício contra ele

Ranier Bragon e Aguirre Talento
Folha

Criada pelo procurador-geral Rodrigo Janot, a força-tarefa do Ministério Público Federal vai usar como prova contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a informação de que a sua senha digital particular e a da ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) estavam ativas no momento em que foram criados dois requerimentos suspeitos de terem sido usados para achacar uma fornecedora da Petrobras.

Os requerimentos foram redigidos em 2011, ano em que os dois eram colegas na bancada do PMDB do Rio de Janeiro, e são apontados pela Procuradoria-Geral da República como um dos principais indícios de participação de Cunha esquema de corrupção descoberto na estatal.

Solange Almeida apresentou oficialmente os dois requerimentos à Câmara em julho de 2011. Eles pediam às autoridades informações sobre auditorias em contratos da Petrobras com a Mitsui.

O doleiro Alberto Youssef, um dos delatores da Lava Jato, afirmou que os requerimentos foram apresentados a mando de Cunha com o objetivo de constranger um representante da empresa e fazê-lo pagar propina ao PMDB. Mas este, Julio Camargo, nega a versão de Youssef. Solange Almeida também nega esta versão, embora declare não se lembrar do motivo pelo qual redigiu e apresentou os requerimentos.

“AUTOR” DOS ARQUIVOS

Quando a acusação veio à tona, Cunha disse ter relação “zero” com os papéis. Em abril, a Folha revelou que a expressão “dep. Eduardo Cunha” aparece no campo usado para identificar o autor dos arquivos em que foram redigidos os dois requerimentos.

O deputado passou a dizer então que Solange pode ter usado seu gabinete ou algum assessor redigi-los, porque era uma suplente inexperiente recém-empossada.

A Procuradoria conseguiu autorização do Supremo Tribunal Federal para realizar buscas no setor de informática da Câmara em maio. Investigadores disseram à Folha que os peritos conseguiram um histórico detalhado de todas as vezes que a senha pessoal e intransferível de Cunha apareceu naquele período como “logada” no sistema digital da Câmara.

Eles constataram que a senha do deputado e a de Solange estavam ativas no momento em que os requerimentos suspeitos foram criados.

REFORÇAM AS SUSPEITAS

Na avaliação de integrantes da força-tarefa da Lava Jato, os indícios reforçam a suspeita de que os dois deputados agiram juntos. Ao mesmo tempo, a constatação de que a senha de Solange estava ativa em outro computador, no mesmo momento, enfraquece a hipótese de que teria recorrido a auxiliares de Cunha.

Dias depois da incursão dos procuradores à Câmara, Cunha baixou norma interna que autoriza todos os deputados a delegar a assessores suas senhas, até então “intransferíveis”. Cunha argumenta que, pelo excesso de atribuições, os deputados sempre fizeram isso de forma generalizada, sem qualquer tipo de controle ou regra.

A assessoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que sempre negou relação com os requerimentos suspeitos e com esquema de corrupção na Petrobras, afirmou que o sistema digital da Câmara permite que a senha de acesso do deputado possa estar ativa em diversos computadores, ao mesmo tempo.

2 thoughts on “Força-tarefa de Janot diz ter novo indício contra Eduardo Cunha

  1. A norma interna baixada pelo Eduardo Cunha, autorizando os deputados a abrirem suas senhas “pessoais e intransferíveis” aos seus assessores, significa o fim de qualquer controle sobre o que se faça nos computadores da Câmara. Mostra bem o pouco caso da liderança com a governança da Câmara, e sua aquiescência com a impunidade que abre as portas para o desgoverno e a corrupção dos nossos “legisladores”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *