Formação do Ministério transforma-se em um mistério

Pedro do Coutto

Ao pretender consultar o Ministério Público Federal sobre as condições pessoais que podem se tornar impeditivas para a escolha desse ou daquele indicado, a presidente Dilma Rousseff – reportagem de Catarina Alencastro, O Globo, edição de terça-feira – transformou o processo de seleção prévia da equipe ministerial em praticamente um mistério a ser elucidado pelo MP Federal, chefiado pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. Assim agindo, a presidente da República tentou dividir com ele uma responsabilidade que é totalmente sua. Isso porque, tacitamente, reconheceu de público não possuir acesso a todos os nomes que figuram como acusados pela Operação Lava-Jato. Até aí tudo bem, limite imposto pelo sistema das delações premiadas. Mas a questão não é apenas essa.

Estendeu ao plano da desconfiança sua capacidade de indicação dos partidos que compõem a base aliada, instituída para assegurar ao governo maiorias parlamentares no Congresso Nacional, incidindo em torno dos melhores nomes que integram os seus quadros. Ao mesmo tempo, Dilma Rousseff afastou-se dos órgãos de informação que integram o governo. Afinal de contas eles existem para solucionar dúvidas quanto a procedência de informações, incluindo, portanto, as confirmações, se forem estes os casos.

A iniciativa de Dilma Rousseff não tem precedentes no sistema partidário brasileiro. Pois se de modo geral alimenta a existência de dúvidas, no caso da Petrobrás manifestou antecipadamente sua certeza, anunciando a permanência de Graça Foster no cargo de presidente, abrangendo até a atual diretoria. Somente se propôs a mudar o Conselho de Administração. E olha que, de todos os órgãos da administração pública, a Petrobrás é exatamente aquele que apresenta, disparado, o maior volume de problemas. Uma dimensão gigantesca, acrescente-se.

ESPAÇOS ABERTOS

E se examinarmos com atenção a entrevista de Graça Foster às repórteres Letícia Fernandes e Ramona Ordonez, publicada também no Globo de terça-feira, vamos encontrar uma série de espaços abertos na comunicação que ocorreu entre ela e Venina Velosa da Fonseca. A respeito da existência de cartel e superfaturamento, respondeu: “Se cartel era discutido, era fora daqui. Irregularidades e conluios também. Não consigo imaginar como a Venina poderia saber. O que ela tem dito é que tem informações que vem organizando há anos e que entendo será positivo para a Petrobrás. Esse é o entendimento da Comissão Interna de Apuração. Quando ela mostrar tudo isso – acrescentou repetindo – estará fazendo um bem enorme à Petrobrás.

Sobre as denúncias formalizadas por Venina em relação à área de Comunicação, Graça Foster afirmou: “Eu disse que era um assunto do Abastecimento, com Paulo Roberto. Ela deixou comigo uns papéis, olhei, folheei, entreguei na mão de Paulo Roberto. Eu disse que ela estava muito triste indo para Cingapura. O Paulo pegou o pacote e o que havia ali dentro eram informações sobre a área de Comunicação. Venina foi enviada duas vezes para Cingapura. A primeira vez, foi por iniciativa do Paulo”.

O ex-diretor Paulo Roberto Costa foi o primeiro réu confesso a ter sua proposta de delação premiada pelo ministro Teori Zavaschi, relator do processo no Supremo Tribunal Federal.

 

4 thoughts on “Formação do Ministério transforma-se em um mistério

  1. Dona Dilma, como devota assídua de São Francisco, esta nomeando seu ministério seguindo a oração de seu santo pela paz “é dando que se recebe” para justificar a permuta de favores e de apoios onde rola muito dinheiro.

    Isto é uma manipulação torpe do espírito generoso e desinteressado de São Francisco.

  2. Incrível a explicação de Graça Foster sobre as denúncias de Venina :

    -”Eu disse que era um assunto com o abastecimento, com Paulo Roberto.Ela deixou comigo uns papéis (não seriam documentos ?) olhei, folheei,entreguei na mão de Paulo Roberto. Eu disse que ela estava muito triste indo para Cingapura. O Paulo pegou o pacote e o que havia ali dentro eram
    informações sobre a área de Comunicação. Venina foi enviada duas vezes
    para Cingapura. A primeira vez foi por iniciativa do Paulo.”
    Meu Deus ! Que primor !
    Repito a pergunta: ”papéis” ou DOCUMENTOS ?

  3. Seria importante que dona Dilma aguardasse a investigação no BNDE e
    nas outras estatais para não nomear quem esteve envolvido em escândalos,
    mas depois de nomear esse bispo para o Ministério da Pesca, que é no mínimo
    um contra-senso, tudo é admissível.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *