Fraude de 2 bilhões de dólares vulnera até o sistema financeiro suíço

Pedro do Coutto

Reportagem de Vaguinaldo Marinheiro, representante da Folha de São Paulo na Inglaterra, revelou na edição de sexta-feira que o operador do UBS em Londres, Kveku Adoboli, nascido em Gana, realizou transações fraudulentas que causaram prejuízo de 2 bilhões de dólares àquele estabelecimento, o maior Banco da Suiça. Adoboli, cuja prisão foi pedida à Scotland Yard pela própria direção do UBS, falsificou volume enorme de papeis e, com isso, rompeu a solidez de um dos sistemas financeiros mais seguros do mundo. Talvez até o mais seguro de todos. Durante a Segunda Guerra recebeu depósitos enormes de foragidos nazistas e manteve sigilo sobre eles.

Entre os depositantes estava Adolf Eichman, sequestradoem Buenos Aires em 60, enforcado em Israel dois anos depois. Quando Hitler estava encurralado no covil dos abutres, em Berlim, Eichman atravessava os Alpes num carro cujo teto escondia barras de ouro. Mas esta é outra história.

Nos tempos modernos, para citar Charles Chaplin, o caráter invulnerável de outrora parece não mais existir com a solidez antiga. Tanto assim que em 2008, lembra Vaguinaldo, o UBS, que possui representação no Brasil, sofreu prejuízo avaliado em 50 bilhões de dólares causado principalmente pelos vôos escriturais de Bernard Madof. O trapezista financeiro construía pirâmides de argila e girava em torno delas pagando – em dólar, que já é um valor corrigido, juros de 3% ao mês. Madof encontra-se numa prisão de Nova Iorque condenado, se não me engano, a uma pena de 50 anos.

Em nosso país, final da década de 60 e o início da de 70, uma corretora chamada Marcelo Leite Barbosa explodiu. Era tempo de milagre brasileiro, como o classificou o ministro Delfim Neto. E de forte valorização das ações de empresas na Bolsa de Valores.

A valorização era alucinante: 10% ao mês. Muitos venderam seus apartamentos, casa de campo e praia, para aplicar. Os que investiram através da MLB possuíam contas escriturais. Mas nem todos os papeis existiam de fato. Quando a Bolsa, então a do Rio de Janeiro, começou a despencar, os compradores frustrados, assumiram a posição de vendedores. Mas onde se encontravam os títulos? Só estavam consignados no balanço.

Não no bolso, tampouco na Bolsa. São, todos esses, casos marcados pela eterna cobiça humana. A humanidade, como disse a psicóloga Sandra Batista, é movida pelo desejo. Seja no plano econômico, seja no sexual, seja na esfera do poder político. No setor financeiro, digo eu, o desejo torna-se alucinógeno.

Tanto assim que, seguindo os passos de Madof, Kvenu Adoboli, conseguiu em pouco tempo causar um rombo enorme, em reais, equivalente a cerca de 3,4 bilhões. Digo em pouco tempo porque Adoboli tem apenas 31 anos de idade e está há vinte na Inglaterra. Iludiu a muita gente. Inclusive o chefe do escritório do UBS em Londres, John Hughes, que não teve outro caminho senão o de pedir demissão. Terá sido iludido ou envolvido pela teia sedutora de Adoboli?

Golpistas como Madof e Adoboli são personalidades singulares. Atores do universo financeiro, mágicos da ilusão, trazendo na pasta perspectivas de felicidade sem fim aos investidores que, no final, conduz para o abismo. Ele próprio, em sua viagem, como Marinheiro destaca, também tropeça nos caminhos sinuosos da fraude e vai igualmente para o desfiladeiro.

Mas no seu rastro deixa uma lição, um aviso. Com a Internet, com a informatização, nenhum sistema está absolutamente seguro. Se estivesse, Madof e Adoboli não teriam decolado para o desastre. O UBS assegura que vai cobrir todos os prejuízos. Pode ser. Trata-se da Suiça.

 

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