Funaro revela que o ministro Eliseu Padilha manipulava seu primeiro advogado

Funaro disse que iria “arrebentar” o chefe  Padilha 

André de Souza
O Globo

O delator Lúcio Bolonha Funaro, apontado como operador de políticos do PMDB em esquemas de corrupção, disse ter sentido receio do primeiro escalão do governo do presidente Michel Temer. O depoimento foi prestado na Justiça Federal, no processo em que o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) é acusado de tentar impedir a delação de Funaro. Apesar do receio, ele disse que, após uma audiência no ano passado, mandou avisar, por meio de um advogado, que arrebentaria o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, caso continuasse a “encher o saco”. Funaro já disse em outras ocasiões que Padilha tentou monitorar sua delação.

Ele citou o episódio em que o José Yunes, amigo e ex-assessor do ex-presidente Michel Temer, contou ter recebido, a pedido de Padilha, um documento, possivelmente com dinheiro, de Funaro. Em sua colaboração, o delator já tinha dado uma versão diferente: ele que teria ido buscar dinheiro com Yunes, e não o contrário. Os ataques de Yunes a Padilha mostraram que o governo era como “um carro sem direção”, o que assustou o delator.

TINHA RECEIO? – Nesta terça-feira, Funaro falou do episódio ao ser questionado se tinha receio de Geddel. “Receio dele pessoalmente, não tinha nenhum, Mas como era membro do primeiro escalão do governo, eu tinha receio do que o resto do primeiro escalão pudesse fazer. Por exemplo, foi imputada a mim a entrega de R$ 4 milhões ao senhor José Yunes. E eu nunca entreguei R$ 4 milhões. Na verdade eu recebi dele R$ 1 milhão para entregar ao senhor Geddel” — afirmou Funaro, acrescentando:

“Eu fiquei assustado, porque vi que dentro do próprio governo não havia uma assim uma linha para resolver os assuntos que estavam pendentes. O melhor amigo do presidente atacando outro que era muito amigo do presidente. Aí fiquei muito preocupado, porque o fato não era comigo. O fato me envolvia, mas não envolvia da maneira que estava sendo narrada. Aí fiquei preocupado. Como se fosse um carro sem direção. Não tem comando isso aí”, assinalou.

TROCA DE ADVOGADO – Funaro falou também da troca de advogado que promoveu antes de negociar um acordo de delação. Seu antigo defensor seria ligado a Padilha e havia a suspeita de que agia em interesse do ministro. Após uma audiência de custódia, que poderia levar à soltura de Funaro, o advogado anterior foi falar com ele numa sala onde estava reunido com a família no prédio da Justiça Federal.

“O antigo advogado se dirigiu dentro da sala com dois policiais federais que estão aí hoje. Eles podem testemunhar o que aconteceu. Se dirigiu dentro da sala e disse: eu sabia que isso ia acontecer, meu chefe tinha avisado. Você sai de uma audiência de custódia com esperança de ser libertado, não é libertado, vem o advogado com quem você teve desentendimento e dispensou, ele vem com essa frase. Aí eu falei para avisar o chefe dele e o amigo do chefe, que era o Eliseu Padilha: dá um recado para o teu chefe que eu vou arrebentar com eles dois, se encherem o meu saco. Isso até criou uma repercussão dentro da Vara de que eu seria uma pessoa agressiva” — contou Funaro.

DIANTE DE GEDDEL – Na audiência desta terça, Funaro ficou cara a cara com Geddel. Ele voltou a dizer que o ex-ministro fazia ligações constantes para sua mulher, Raquel Pitta. Ao ser questionado, porém, se ela chegou a lhe reportar se Geddel havia feito alguma ameaça, ele disse que não. Também negou ter recebido promessa de dinheiro do ex-ministro.

Antes de Funaro, a própria Raquel prestou depoimento nesta terça-feira. Ela também voltou a citar o suposto interesse de Padilha no caso e a troca de advogado promovida por Funaro. “Ele (Funaro) achou ótimo (o antigo advogado) ter saído do caso. Achava que podia passar (informações) para Padilha” —- contou Raquel Pitta.

A mulher de Funaro voltou a dizer ainda que, após a prisão do marido em julho de 2016, recebia ligações constantes de Geddel. Ela até quis parar de atender os telefonemas, mas Lúcio alertou que isso poderia levantar suspeitas e fazer com que Geddel desconfiasse de que ele estaria tentando fazer uma delação. Por outro lado, Raquel afirmou que o ex-ministro sempre foi gentil e não cravou que as ligações representassem um tipo de ameaça ou intimidação.

MENSAGEM — “Muita gente me ligou. Se não foi no dia (da prisão), foi no dia seguinte (que Geddel ligou). Não vou lembrar, porque estava nervosa. Foi próximo disso. Não teve coação. Perguntava como estava, prestava solidariedade” — disse Raquel.

A irmã do delator, Roberta Funaro Yoshimoto, também foi ouvida. Ela afirmou que Raquel lhe mostrou uma mensagem mandada por um contato salvo como “Carainho” na agenda de seu celular. Tratava-se de um apelido dado por Funaro a Geddel.

“Eu não me recordo exatamente as palavras (da mensagem). Mas era algo equivalente a questionar o que tinha dado na cabeça do Lúcio para mudar de advogado” — contou Roberta, que disse ainda: “O nome que aparecia eu até achei estranho. Mas acho que era Carainho”. Roberta contou que Raquel nunca foi explícita a respeito, mas ficava claro que ela se sentia incomodada com as mensagens e ligações de Geddel. “Ela se sentiu incomodada de receber essas ligações e mensagens. Isso era claro” — disse Roberta.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A matéria do excelente repórter André de Souza assinala ainda que, segundo o MPF, o fato de não ter ocorrido ameaça não descaracteriza o crime de obstrução de justiça. Apenas o fato de ficar monitorando a mulher de Funaro já caracteriza o crime. (C.N.)

One thought on “Funaro revela que o ministro Eliseu Padilha manipulava seu primeiro advogado

  1. A 3ª denúncia contra Temer no caso da MP do porto de Santos acabaria com essa brincadeira e todos iriam pra prisão.

    Mas Temer colocou Segovia e Raquel Dodge em seus postos para evitar que isso aconteça !

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