Futebol guerreiro

Tostão (O Tempo)

Na derrota para a Inglaterra, muitos disseram que Felipão não foi Felipão, porque contrariou seu estilo, ao escalar dois volantes que avançam. Ocorreu o contrário, ao colocar Ramires e Paulinho muito atrás, estáticos, sem marcar por pressão, o que os dois fizeram muito bem com Mano Menezes.

Um dos assuntos mais comentados na semana passada, que tem a ver com a maneira de jogar do futebol brasileiro, foi o vídeo mostrado pelo Botafogo, em que o zagueiro Bolívar, conhecido por suas cacetadas, gritava: “Vamos deixar cicatrizes nesses caras”. O sereno Oswaldo de Oliveira, irado, completava: “Vai, peita, mete a mão na cara, como eles têm feito”.

Uma das justificativas para o clube mostrar esse vídeo seria mudar as imagens de que Oswaldo é um técnico sem vibração, pacato, e que o Botafogo não é um time chororô, de coitadinhos, bonzinhos, azarados.

A maioria das pessoas achou que deram muita importância a um fato corriqueiro, pois o vídeo foi feito para motivar os jogadores, e que todos os treinadores fazem o mesmo. Os que criticaram foram chamados de politicamente corretos e de puritanos.

Esse tipo de palestra, usado por todos os técnicos brasileiros, não tem intenção de incentivar a violência, mas incentiva, no contexto atual. Ela tem a ver com o estilo truculento, tumultuado, de se jogar hoje no Brasil, com excesso de faltas, pontapés, ofensas e discussões.

A violência nos gramados é a continuação da violência na sociedade, no trajeto para o estádio, nas arquibancadas, e segue após a partida. Os jogadores entram em campo como se fossem para uma guerra, tensos, pressionados para vencer de qualquer jeito e incentivados por palestras, algumas ridículas. Esse ambiente bélico dificulta o jogo coletivo, a formação de talentos, e facilita o jogo violento, tumultuado.

Treinadores, jogadores e parte da imprensa adoram dizer que futebol é esporte de contato. É óbvio que é, mas não de violência. Além disso, quem sabe jogar foge do contato. Jogador guerreiro é o que se prepara muito bem para a competição, que tem talento individual e coletivo (sabe as necessidades do companheiro) e que cresce na adversidade. Não é o que dá trombada.

Contra a Inglaterra, o Brasil não teve identidade. Não jogou no estilo técnico, coletivo, com muita troca de passes, no padrão das melhores equipes do mundo, nem fez o jogo pegado, “guerreiro”, estilo vapt-vupt, em que a bola vai e volta rapidamente, como é comum no futebol brasileiro.

Na Copa, em casa, pressionado e apoiado pelo torcedor, com a obrigação de vencer, como disseram Felipão e Parreira, o que implica, tacitamente, que vale tudo; deverá predominar o estilo guerreiro. Se vencer, será uma grande festa, um culto ao utilitarismo. Cada um escolhe sua opção.

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