Futuro nebuloso

Carlos Chagas

Aprende-se no primeiro ano da Faculdade de Direito que a finalidade da pena é dupla: reparar o passado e prevenir o futuro. Na atual campanha pela presidência da República, onde não há réus, a lição poderia ser assimilada  na medida em que deveriam,  os candidatos,  criticar ou elogiar o passado tanto quanto definir o futuro. Não é o que anda acontecendo. Ainda no debate da noite de quinta-feira dedicaram muito mais tempo demolindo ou sedimentando o governo Lula, sem maiores cuidados para com os supostos  próprios mandatos, que todos almejam.

Cada campanha dispõe de características próprias, não dá para nivelá-las num único denominador comum. Em especial depois da adoção do discutível princípio da reeleição, vigarice imposta ao Congresso para garantir  mais um  mandato aos governantes em exercício.

Em 1998 e em 2006, quando se reelegeram, nem Fernando Henrique nem Lula  preocuparam-se em prometer inovações para o segundo tempo. Limitaram-se a alardear o sucesso do primeiro e a necessidade de sua continuidade por mais um período. Quando conquistaram o poder, em 1994 e em 2002, estavam voltados para o passado: o sociólogo bendizendo o Plano Real e, mesmo pouco à vontade, elogiando o antecessor, Itamar Franco; o companheiro, ao contrário, descendo tacape e borduna em Fernando Henrique, apesar de depois haver preservado em gênero, número e grau sua política econômica.

Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva  pouco tempo de campanha tem dedicado ao futuro, ao que pretendem realizar. Além de genéricas  considerações sobre investimentos em educação, saúde,  segurança pública e meio ambiente, não particularizam  nem detalham nada.

Conta a crônica que na República Velha era diferente. Exceção de Rui Barbosa e Getúlio Vargas,  aliás, ambos derrotados, que  percorreram o país prometendo mudanças profundas, os  demais candidatos mantinham-se imóveis,  limitando-se a um único pronunciamento, depois de indicados. Mas dedicavam-se ao futuro. Costumava ser num jantar de casacas,  no Automóvel Clube, no Rio, onde apresentavam suas “plataformas”. Justiça se faça, eram peças detalhadas que no dia seguinte ocupavam duas ou três páginas de jornal, em tipo pequeno. A exceção foi Epitácio Pessoa, indicado e eleito enquanto se encontrava no exterior.   Apesar da freqüente  fraude no processo eleitoral, pelo menos sabia-se a quantas pretendia ir o candidato.

Em suma, e apesar da farsa dos programas que Dilma, Serra e Marina entregaram ao Tribunal Superior Eleitoral, quando do pedido de registro, o eleitorado continua ignorando como será, na prática, o governo de cada um deles.

Enquanto isso, prevalece o caos

O Tribunal Regional Eleitoral de Brasília recusou registro para Joaquim Roriz voltar pela quinta vez ao governo local. Pelas pesquisas, seria eleito, e ainda poderá ser, caso o Tribunal Superior Eleitoral reveja a decisão da instância inferior.

Enquanto a questão prossegue, o caos toma conta da capital do país. Nem se fala dos hospitais sem médicos e das escolas sem professores, sequer do aumento vertiginoso da violência urbana. As filas estendem-se por vários quarteirões, quando se trata de renovar os cartões de transporte gratuito para estudantes. Nas cidades satélites, é perigoso sair à rua depois que o sol se põe.

O assunto, hoje, seria cômico se não fosse trágico, referente ao trânsito. Estaciona-se em fila  tripla, nas ruas do centro, sem que apareça um único guarda para botar ordem. No entanto, o Detran local registra a média de cem multas diárias aplicadas nos motoristas que,  enquanto dirigem,   falam no telefone celular. Ou nas senhoras e senhoritas que, paradas  nos semáforos,  retocam o batom. Não é invenção, basta consultar os relatórios. A pergunta que se faz é onde se escondem os agentes públicos responsáveis pelas multas,  já que para ordenar o trânsito, inexistem. Como os tais pardaizinhos ainda não se sofisticaram a ponto de detectar celulares em uso ou batons fora das bolsas, fica o mistério.

Congresso: o retorno

No Senado, esta semana, houve quorum para inúmeras votações, bem como as comissões técnicas funcionaram sem que seus presidentes precisassem ficar acionando as campainhas para convocar os retardatários. É verdade que um terço dos senadores não fazem campanha, dispondo de mais quatro anos de mandato, mas os dois terços em disputa de votos vieram a Brasília, em maioria. Ou já se haviam licenciado, ensejando aos suplentes alguns dias de glória. A lição a tirar, caso a situação se repita na primeira semana de setembro,  é de que nem tudo está perdido.

Na Câmara, com freqüência menor, também se registraram votações e debates importantes. Depois de tanta gazeta na atual Legislatura, no encerrar dos trabalhos parece que todo mundo caiu em si. Por quê? Porque, dirão os céticos,  os parlamentares   estão disputando a reeleição. Aparecer nas telinhas da TV-Câmara e da TV-Senado dá votos, às vésperas do pleito.

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