Gabeira, união impossível com Serra e Marina

Pedro do Coutto

Leio no Globo, edição de 31 de maio, que Fernando Gabeira ao comparecer a uma exposição no Riocentro de automóveis elétricos Dock Dock, um dos menores carros do mundo, afirmou esperar as presenças simultâneas de José Serra e Marina Silva na convenção conjunta PV-PSDB-DEM-PPS, marcada para 19 de junho. Será em Niterói ou então na Baixada Fluminense, onde tanto ele quanto Serra e Marina têm menor penetração do que na zona sul do Rio.

A dificuldade de Fernando Gabeira realizar uma campanha presidencial dupla no Estado é enorme. Não apenas porque não pode, na prática, desempenhar o papel de Arlequim de Dois Patrões, peça do italiano Goldoni, montada no antigo teatro Dulcina, há algumas décadas, tradução de Millôr Fernandes. Mas sobretudo pelo fato de a Lei Eleitoral, 9504/77, no seu artigo sexto não permitir que uma coligação possa apresentar dois candidatos à presidência da República ou a qualquer cargo majoritário.

A Lei Eleitoral, no capítulo em que trata das coligações, estabelece que a elas será atribuído o mesmo tratamento dado aos partidos políticos. Logo uma coligação entre PV, PSDB, DEM e PPS é simplesmente ilegal e portanto impossível. Marina Silva é candidata do PV. José Serra da coligação PSDB- DEM- PPS e, segundo Roberto Jéferson, será também do PTB. Assim, não há como realizar-se no RJ uma convenção de partidos coligados com dois candidatos. Fernando Gabeira se equivocou ou então foi mal interpretado pelo repórter ou pela repórter que o entrevistou. Mas este é outro aspecto da questão.

O fato essencial é que o candidato verde não terá condições de dar sustentação eleitoral dupla simultaneamente a Serra e Marina. Mantendo- se nesta posição, das duas uma: ou ele está enganado, superestimando sua importância eleitoral, ou está tentando iludir os eleitores de um e de outra. A dualidade é impraticável. Só pode contribuir para fazer uma confusão na cabeça do eleitorado, principalmente quando a campanha esquentar na reta de chegada.

Não se trata apenas de manifestações ou concentrações de rua. Trata-se especialmente do preenchimento dos espaços das legendas na propaganda eleitoral na televisão. A lei em vigor não permite que Gabeira possa aparecer no horário do PSDB-DEM-PPS-PTB e, ao mesmo tempo, no mesmo dia e hora, na faixa fixada para o PV, Fernando Gabeira tenta obter os votos adeptos de Serra e dos adeptos de Marina. Mas somente poderá alcançar este objetivo na hipótese de ir ao segundo turno contra Sérgio Cabral.

É uma hipótese que , porém, depende da decisão do TSE em relação à candidatura Anthony Garotinho. O Datafolha apontou 19 para ele, 18 para o ex-governador. Somam 37 pontos. Cabral, na frente, tem 41. A diferença é pequena. O eleitorado vai decidir qual será o adversário do atual governador no desfecho final.

Thomaz Bastos “não abarca a realidade”

Um outro assunto. Em entrevista de página inteira ao repórter Flávio Ferreira, Folha de São Paulo, de segunda-feira, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, ao defender a presença de Lula na campanha de Dilma Roussef na televisão, afirmou que a lei eleitoral não abarca a realidade. Francamente, sua afirmação poderia ser bem melhor. Pois se a lei não abarca a realidade, deve ser mudada. Mas enquanto não for, deduz-se, está valendo. Logo o raciocínio do ex-titular da Justiça é que não envolve a realidade. Poderia ter feito uma defesa muito melhor. Bastaria dizer que, se na reeleição o presidente pode fazer campanha para si próprio, por quê não para sua candidata? Deveria ter usado a tese da visão infralegal legada por Santiago Dantas. Perdeu a chance.

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