Gabriel e Breno, dois bebês, duas vidas e dois destinos

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Haydee, uma médica que desonra a profissão

Jorge Béja

Em janeiro deste ano a “Tribuna da Internet” publicou o drama do bebê Gabriel, de apenas dois meses. Refratário à claridade e com os dois olhos acinzentados, de grande tamanho e doloridos, a mãe saiu de Bangu (subúrbio do Rio) onde mora numa comunidade e levou a criança até o Hospital Souza Aguiar (HSA). A médica oftalmologista do HSA diagnosticou “conjuntivite” e prescreveu colírio. Nada adiantou.  Foi uma outra médica do posto médico de Bangu que deu o diagnóstico correto: “glaucoma congênito nos dois olhos”. E Gabriel precisava ser operado imediatamente. No máximo em sete dias. Caso contrário, ficaria cego para o resto da vida. O hospital da Piedade, pertencente à prefeitura do Rio, recusou operar Gabriel.

Comovido com a notícia que leu na “Tribuna da Internet”, um membro da alta cúpula do Ministério Público do Rio ligou para meu escritório e disse: “Dr. Béja, essa briga eu compro”. E comprou. Ancelmo Gois, na sua coluna do O Globo também “comprou a briga”. E Gabriel foi logo atendido, logo operado. Até o prefeito Marcelo Crivella decidiu e fez questão de assistir a operação. E assistiu. Hoje, Gabriel está completamente curado. E a cada dia mais lindo.

O CASO DO BRENO – Agora, vem a público e ganha repercussão (e repulsa) o drama de Breno, de pouco mais de um aninho de idade. Portador da Síndrome de Othahara (epilepsia severa), seus pais acionaram a Unimed e pediram atendimento de emergência em casa. Uma firma terceirizada pela Unimed (“Cuidar Emergências Médicas”), mandou uma ambulância até o edifício no Recreio dos Bandeirantes, onde estavam o pequeno Breno, seus pais e uma técnica de enfermagem.

Na ambulância estava a médica Haydee Marques Silva, de 66 anos de idade, conforme publicou O Globo de 12.6.17, página 10. Ou de 59, como consta de outras publicações posteriores. Não era médica recém-formada, nem inexperiente. A ambulância chegou a entrar no condomínio. Mas a doutora Haydee nem desceu da ambulância.

“Quando me passaram o atendimento, na porta do condomínio, eu vi o nome, o plano, a idade e o que o paciente tinha. Eu disse que não ia atender por ser uma criança muito pequena e que já tinha um profissional de saúde (a técnica de enfermagem do serviço de home care) na casa. Sem falar que não era um caso grave. Não atendo criança – alegou a médica, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1978” (O Globo, 12.6.2017, página 10). Breno morreu uma hora e meia depois, à espera de outra equipe médica. “Eu não sou pediatra nem neurologista. Agora, por causa disso, minha vida está destruída”, disse a doutora ao O Globo.

COMO JÁ SOFRI – Conheço bem esses dramas. Foi por causa deles que minha colega, advogada Célia Destri, e eu criamos e fundamos a Associação das Vítimas dos Erros Médicos e do Mau Atendimento Hospitalar, Público e Privado (Avermes), hoje espalhada por todo o país. Quantas vítimas defendi nos tribunais? Não me recordo. Perdi a conta. Mas tudo tenho registrado no escritório. E também na memória. E cada caso que advoguei foi uma lágrima derramada. Como já sofri pelo próximo. São casos absurdos e dramáticos.

Aquela menina Adrielly, atingida na cabeça por bala dita perdida e que não foi operada no Hospital Municipal Salgado Filho porque o neurocirurgião doutor Adão faltou ao plantão, ela morreu onze dias depois no Hospital Souza Aguiar, o mesmo hospital em que a paciente Dilma Ferreira, com paralisia cerebral e engessada da cintura aos pés, servia de comida para os ratos que infestavam sua enfermaria. Dilma definhava, suas coxas e pernas foram ficando fininhas, o gesso alargou e deu passagem para os ratos entrarem e comerem as carnes da paciente!. Bom, não vou contar outros casos mais. São muitos. Tudo foi doloroso. Tudo é doloroso.

A OUTRA VISÃO – Vamos aqui deixar de lado as legislações, isto é, o Código Penal, o Código de Ética Médica, a Deontologia Médica… Deixemos de lado também as decisões judiciais (jurisprudência) a respeito de casos análogos ao do pequeno Breno. Vamos ainda desconsiderar o que ensina a doutrina sobre Responsabilidade Civil Médica e Hospitalar, matéria cujas aulas me foram ministradas pelos melhores professores e especialistas do mundo, quando cursei a Universidade de Paris, a Sorbonne. Aprendi muito lá. E tudo coloquei em prática aqui no Brasil.

E porque fui intransigente e sempre presente para acudir as vítimas, a edição de novembro de 1993 da Veja-Rio colocou minha foto na capa inteira com o título “O Dr. Útil e Fútil”. Não me importei. O importante era ser útil. Fútil, foi dedução dos editores, que dedicaram sete páginas da revista, e 8 fotos, para contar minha atuação profissional. Se defender e sofrer pelo próximo é futilidade, a revista acertou em cheio ao dar este título à matéria.

O QUE FALTOU – Ninguém consegue viver sem a existência do próximo, da outra pessoa. A dor e o desespero de um é para ser a de todos nós. Os infortúnios, os percalços e as vicissitudes da vida a todos alcançam, sem exceção. Infeliz aquele que não estendeu a mão ao próximo para amenizar essas dores e, se possível, acabar com elas e restabelecer a paz, a saúde e a felicidade. Diante deste indecifrável mistério do nascimento, vida e morte da pessoa humana, todos devemos acudir e atender a quem de nós precisa. E sem esperar recompensa. Devemos sempre olhar nos olhos do outro. Olhá-lo para baixo só se for para levantá-lo, se estiver caído.

Era dever humano da doutora Haydee ir até o apartamento dos pais da criança e tudo fazer e prover para preservar a vida do pequeno Breno. E permanecer lá o tempo que fosse necessário. A presença de um médico diante do enfermo sempre traz alívio e conforto. Faltou-lhe solidariedade. Faltou-lhe respeito ao próximo. Faltou amor e sobrou brutalidade, porque sua omissão foi brutal. É verdade que ela destruiu sua própria vida e reputação, como a própria doutora Haydee declarou. Mas ao cruzar os braços, ao se negar a descer da ambulância e subir até o apartamento para ficar pertinho de Breno e de seus desesperados pais, ela também destruiu muitas outras vidas.

SEM ARREPENDIMENTO – Ela cuspiu em todos nós, que dela somos irmãos e somos iguais, na forma e na essência. E a doutora não se mostra arrependida. Nem sentida. Pelo contrário. No seu gestual, no seu tom de voz e nas suas declarações aos jornalistas, a doutora se acha certa no que fez e no que deixou de fazer. Deixa a impressão de que faria tudo de novo. Pobre doutora Haydee.

Agora, na Eternidade, aos Espíritos de Aracelly, de Adrielly, de Bernardo Uglioni Boldrini, de João Vitor, junta-se o Espírito do pequeno Breno. Todos a interceder a Deus por nós, principalmente por seus algozes. A vida é eterna. E a eternidade está no Espírito, e não na carne, que tem início, meio e fim. Eis o mistério.

11 thoughts on “Gabriel e Breno, dois bebês, duas vidas e dois destinos

  1. Ela fez um juramento, salvar vidas, independente se era criança ou não, além de tudo, na via que havia com ela, deveria ter a idade e nome da criança, ou seja,não há desculpa plausível, ela simplesmente negou a vida a uma criança, como médica ela deveria usar todos os recursos de seu aprendizado para salvar a criança.

  2. A tal “mulherzinha problemática” jamais poderia estar na ativa! Ela não era pediatra, então não atende bebê. Se fosse idoso, não atenderia também pois não é geriatra. Se fosse problema de estômago, não atenderia, pois não é gastro. Se fosse nos olhos, não atenderia, pois não é oftalmo!! Se fosse osso quebrado, não atenderia pois não é ortopedista…Bolas, então em que situação essa coisa atenderia os pacientes???? Ela foi socorrer como EMERGÊNCIA, e não como consulta comum!!! Tinha o dever e a obrigação, como médica, de ao menos visitar o paciente e, no mínimo, levá-lo de ambulância (com recursos) ao hospital e, aí sim, deixá-lo aos cuidados de algum plantonista, especialista ou não, caso não tivesse condições de atendê-lo!! Punição máxima para essa coisa problemática!!! Tenho pena dos demais pacientes desta coisa!

    • Acho que todo médico tem o direito de errar no diagnóstico, utilizando-se da obrigação de meio. Mas o caso da “coisa problemática”, não é isso! É omissão pura e simples!

  3. Daqui dos cafundós do juda, á primeira vista pela TV, a imagem dessa Dra é de uma pessoa desequilibrada. Parabéns Dr Béja pela bela matéria. Sou sua fã, ainda mais agora.

    • Vera, Vera, quando isso acontece, todo o meu passado profissional vem à memória. E o meu sofrimento volta com peso e força dobrados.

      Obrigado por ter lido e comentado.

      Um pedido ao nosso prezado e muito querido editor, Jornalista Carlos Newton Leitão de Azevedo.

      O nome desse anjinho é Breno. Por duas ou três vezes, no texto, escrevi Bruno. Por favor conserte. O nome dele — e de todas as pessoas — é um bem sagrado e não se pode errar.

      Grato.

  4. Caro Dr. Beja,
    Infelizmente, a humanidade ainda não percebeu que todos nós somos irmãos e somos iguais, na forma e na essência e, sobretudo todos filhos de DEUS PAI CELESTIAL.
    De fato, era dever humano da médica Haydee ir até o apartamento dos pais da criança e envidar todos os esforços para para a manutença da vida do pequeno Bruno.
    Não resta a menor dúvida de que lhe faltou solidariedade humana, faltou-lhe respeito ao seu semelhante, faltou-lhe amor e, sobretudo sobrou a sua brutalidade como ser humano, porque sua omissão foi fatal, porque o pequeno Bruno partiu uma hora e meia depois do seu fatídico comportamento (o dra. Haydee), de modo que, induvidosamente, essa profissional da medicina destruiu sua própria vida e a sua reputação profissional, como a própria doutora Haydee reconheceu.
    Dr. Beja estamos vivendo tempos sombrios aqui no planeta azul.
    Os homens e as mulheres não têm DEUS em seus corações.
    Infelizmente, não há SOLIDARIEDADE HUMANA entre os filhos do PAI CELESTIAL, razão pela qual estamos vivendo em tempos difíceis aqui na TERRA.
    Vamos orar por esse anjinho chamado Bruno que partiu prematuramente e, sobretudo para os seus pais que aqui padecem com o sofrimento da perda prematura.

  5. Como sempre perfeito! Sem conhecê-lo pessoalmente admiro-o. Parabéns. Vida proveitosa cumprindo seu papel de advogar com carater. Que Deus o abençoe e te dê vida longa. A vida te agradece

  6. Caro Dr. Béja
    Parabens,
    Excelente ponderação e bela lição de humanidade.
    É dificil realmente dar um minimo de alento a quem necessita, mas o senhor ensina com muita humildade isto.
    Percebe-se que essa médica é vazia e oca de sentimentos ou humanidade.
    Obrigado.

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