Gabrielli “blindou” ex-gerente da Petrobras demitido por justa causa em 2009

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Gabrielli evitou a demisso do gerente que sabia demais

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo
Estado

Um ex-gerente da rea de Comunicao da Petrobrs afirmou Operao Lava Jato que foi blindado pelo ex-presidente da estatal Jos Sergio Gabrielli apadrinhado poltico do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva -, depois de ter sido flagrado em sindicncia interna, que identificou desvios e pagamentos sem contratos na rea. Demitido em 2009 por justa causa, ele foi mantido no cargo at 2013, supostamente para se evitar um escndalo no setor de comunicao, que seria controlado pelo PT.

Acredita que foi mantido na empresa por tanto tempo (2009/2013) a fim de justificar irregularidades na Petrobrs, inclusive de Gabrielli e Tripodi (Armando, chefe de gabinete), declarou Geovane de Morais, ex-gerente de Comunicao da Diretoria de Abastecimento da Petrobrs.

Morais foi ouvido no dia 1 de julho, na Superintendncia da Polcia Federal em Salvador, na Bahia, a pedido da fora-tarefa da Lava Jato, em Curitiba. O ex-gerente figura central da apurao da Lava Jato que investiga suposto pagamento de mais de R$ 7 milhes para a Muranno Brasil Marketing, sem contrato formal. Parte desse valor foi repassado via doleiro Alberto Youssef.

ORDEM DE GABRIELLI – Os pagamentos, segundo apura a Lava Jato, teriam sido feitos por ordem direta de Gabrielli e Tripodi, com suposta participao do ex-presidente Lula.

Na verso do doleiro Youssef, que pea central na Lava Jato, houve uma suposta chantagem do dono da Muranno, Ricardo Villani, que queria receber valores no oficiais atrasados, em 2010 ltimo ano do governo Lula e uma ameaa ainda no confirmada de que seriam reveladas irregularidades na Petrobrs. Morais era o gerente da rea que contratou a agncia, supostamente por servios de marketing em eventos sem contratao formal.

Em seu depoimento, Morais contou que foi demitido em 6 de abril de 2009 pela ex-gerente da Petrobrs Venina Velosa subordinada a Paulo Roberto Costa -, mas permaneceu no cargo at 2013 por um afastamento por problemas de sade.

VAZAMENTO – Apesar de na poca no ter conhecimento das denncias que acabaram reveladas pela Lava Jato, o declarante acredita que evitando sua demisso, Gabrielli e outros evitariam que vazasse para imprensa informaes prejudiciais imagens de tais pessoas, como por exemplo, desmandos na Gerncia de Comunicao, registrou a PF, no termo de depoimento de Morais. A rea, segundo ele, era comando de sindicalistas ligados ao PT e ocultava ainda patrocnios escusos.

Na delao de Youssef, ele afirmou que Lula soube da ameaa, na poca, e teria determinado a Gabrielli que usasse o dinheiro das empreiteiras para resolver a pendncia. O ex-presidente da Petrobrs teria procurado por Costa, que mandou o doleiro espcie de contador e financeiro das propinas na Diretoria de Abastecimento fazer o pagamento.

INVESTIGADA – Um deles seriam os pagamentos para a Muranno. O dono da agncia de propaganda apontou em depoimento Polcia Federal, em 2015, que foi Morais que pagou por servios que chegaram a R$ 7 milhes, sem contratao, para a divulgao da estatal em provas de Frmula Indy, entre 2006 e 2009, nos Estados Unidos. Os pagamentos teria envolvido ainda o lobista e delator Julio Gerin Camargo, ligado ao ex-ministro Jos Dirceu (Casa Civil, governo Lula).

A Muranno passou a ser investigada pela Lava Jato em 2014 porque ela aparecia como recebedora de R$ 1,7 milho, em 2010, do esquema de desvios operado por Alberto Youssef. Segundo o doleiro, foi ele quem pagou R$ 1,7 milho Muranno entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, a pedido de Costa. O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrs confirmou a verso.

DESCONTADO DAS PROPINAS – Youssef afirmou que a ordem foi para que o valor fosse descontado do dinheiro das empreiteiras denunciadas na Justia Federal por causa das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco para resolver a pendncia.

Em depoimento prestado em janeiro de 2015, o ex-gerente jurdico da Diretoria de Abastecimento Fernando de Castro S, afirmou que soube de seu superior o ento gerente executivo do Jurdico Nilton Maia que em 2009, Gabrielli e o ex-diretor de Servios Renato Duque, ligado ao PT, os dois ligaram muito irritados por causa desse parecer (que demitia Geovane de Moraes).

Ficou estabelecido que a rea do (jurdico) compartilhado ia questionar a demisso e o jurdico ia dar um parecer revisando os pareceres anteriores. Dois pareceres citados por ele foram emitidos pelo prprio jurdico da estatal comunicando que Geovane de Moraes, supostamente flagrado cometendo desvios, poderia ser demitido, mesmo durante perodo de licena mdica.

AUXLIO-DOENA – Aps a ligao de Duque e Gabrielli, o setor de compartilhado questionou esse parecer. Geovane fica no auxlio doena durante quatro anos, tempo que a Petros (fundo de penso dos trabalhadores da Petrobrs) complementa o salrio. A demitido. Foi demitido quatro anos depois da sindicncia comandada pela Venina. Exatamente o prazo que a Petros cobre, relatou Castro S.

A efetiva demisso do Geovane foi concretizada apenas quatro anos depois por Francisco Paes, substituto de Venina na gerncia executiva de Abastecimento. Quando (Paes) tentou demitir o Geovane, foi informado pelo compartilhado da existncia desse parecer.

APARECE UM INCIO – Anotaes analisadas da agenda de Paulo Roberto Costa vinculam o nome de Ricardo Villani a Incio. Investigadores da Lava Jato apuram qual assunto seria tratado pelo ex-diretor com o dono da Muranno, em 2012.

Lula no alvo desse inqurito, mas as apuraes podem chegar ao suposto envolvimento dele nesse episdio. O caso Muranno no o primeiro envolvendo suposto pagamento de propinas para evitar divulgao de escndalos de corrupo no governo.

S que Venina foi ameaada por causa das denncias. Venina sofreu ameaa nesse perodo. Ameaa com arma. Havia uma presso muito forte interna de ligaes. Na primeira conversa dela com o Paulo (Paulo Roberto Costa, ento diretor de Abastecimento da estatal), ele disse que ela teria de colocar isso debaixo do tapete. Ela disse que no faria isso.

VALOR ASTRONMICO – Segundo ele, o levantamento feito por Venina revelou um problema de descumprimento oramentrio da rea de Comunicao num valor astronmico. Constatou-se que havia uma discrepncia muito grande entre o oramento para Comunicao e os gastos efetivados. Havia solicitao de pagamento, mas no tinha contrato.

Depois dessa reunio com Venina, em 2007, ficou decidido que ela iria levar esses fatos ao conhecimento do diretor Paulo Roberto Costa para ver qual procedimento deveria ser adotado. Castro S disse que a ex-gerente executiva foi orientada a levar a questo a Gabrielli. A lgica, segundo o ex-gerente jurdico, era que fosse criada uma sindicncia na Diretoria de Abastecimento, onde trabalhava Geovane de Moraes. No entanto, foi formada uma comisso de sindicncia na presidncia.

SINDICALISTA BAIANO – Questionado pelos procuradores quem seria o presidente dessa comisso, Castro S apontou o nome de Rosemberg Pinto. Ele seria um sindicalista da Bahia, que trabalhava como assessor do Gabrielli.

A comisso de apurao da presidncia concluiu que deveria ser instalada uma outra sindicncia na Diretoria de Abastecimento. Castro S afirma que Venina constituiu a sindicncia e que, com base em dois documentos internos, determinou a demisso de Moraes.

Os documentos confirmavam que o ex-gerente de Comunicao poderia ser demitido por justa causa mesmo afastado por doena: Um dia ela descobre que o Geovane no foi demitido.

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