Gabrielli extrapola: diz que Dilma e ele têm posições divergentes

Pedro do Coutto

Francamente, sob o ângulo político e administrativo, não poderia ter sido pior a entrevista  de página inteira do presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, a Eleonora de Lucena e Valdo Cruz, também manchete principal da Folha de São Paulo de segunda-feira. Não podia ser pior porque, no final, o dirigente da maior estatal do país, e que figura entre as maiores empresas do mundo, perguntado a respeito de seu relacionamento com a presidente da República, afirmou: “Uma relação de duas pessoas muito firmes e fortes, que se gostam e respeitam muito, mas – acentuou – temos posições diferenciadas.”

Eleonora de Lucena e Valdo Cruz, sentindo o clima, colocaram outra indagação: Os interesses de Petrobras nem sempre coincidem com os do governo? Gabrielli, que desejava mesmo a pergunta, disse: Não é necessariamente isso. Temos divergências sobre tudo, temos divergências em várias coisas.

Curioso é que Sérgio Gabrielli sequer se referiu ao ministro Edison Lobão, a quem se encontra diretamente vinculado administrativamente e deveria encontrar-se subordinado. É o titular das Minas e Energia. Não deu bola para isso. O que até se compreende no contexto, já que ele se igualou a presidente Dilma Roussef no patamar das decisões da economia do petróleo. Afinal não possui o menor cabimento um destacado administrador, porém segundo escalão, justapor-se à presidente da República. Deixou a perspectiva de estar preparando sua saída do cargo, de forma espetacular, seguindo o exemplo de Carlos Lessa quando deixou o BNDES no primeiro governo Lula. Lessa organizou um verdadeiro comício na Avenida Chile, por coincidência também cenário, no lado oposto, da sede da Petrobras. Só que, claro, o comício não teve desdobramento. Quem, sobretudo no início de um governo, iria aparecer desafiando o presidente? Só um ingênuo ou romântico arrebatado acreditaria em tal hipótese. Carlos Lessa ficou só. Submergiu. E, até hoje, não conseguiu emergir novamente. É claro.

Ingênuo está sendo também Sérgio Gabrielli, embora assuma um tom ameaçador. Vejam só os leitores. Numa terceira pergunta, com base na minha longa experiência, senão pedida, pelo menos desejada por ele próprio, Eleonora e Valdo encaixaram: Pretende disputar eleição? Eis a resposta: “Na eleição de 2012 não serei candidato, estando ou não na Petrobras. Podem publicar de forma peremptória. Quanto a 2014, está muito longe para decidir”.

Ora, pegou o expresso do futuro, como na canção de Gilberto Gil, pois colunas já publicaram que pretende disputar o governo da Bahia. Acontece que, se sair da Petrobras neste ano de 2012, o sonho se evapora como uma nuvem de inverno. Para 2014 ele depende da convenção do PT. E longe da Petrobras, desce do planalto à planície.

Ao afirmar, de outro lado, que as ações da Petrobras não darão retorno a curto prazo, claro, se adquiridas agora na Bovespa, o presidente da estatal parece ter atrasado a bola contra sua meta, coloca o goleiro fora do lance. Como é possível o presidente da Petrobras ter agido para jogar para baixo o valor das ações da empresa? Esta, confesso que não entendi. Quanto ao ciclo do petróleo, a longo prazo, ele tem razão. Os índices comprovam. No mundo, revelou, a soma das energias eólica, solar, geotermal, juntas, são 0,9% da matriz do universo. E para chegarem a 9% precisam de vinte anos.

De fato, descoberto em 1859 na Pensilvânia pelo americano Edwin Drake, aproveitado cerca de 30 anos depois por Rudolf Diesel, inventor do motor a explosão, o ciclo do petróleo está longe de se esgotar. As previsões antigas não contavam com as prospecções marítimas em águas profundas, nem imaginaram as sondas de turboperfuração. É sempre assim.

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