Garotinho, polindo um diamante, leva Dilma a se livrar de Palocci

Pedro do Coutto

O deputado Anthony Garotinho, como se estivesse polindo um diamante, colocou diante da opinião pública do país um lance de chantagem política contra a presidente Dilma Rousseff, na medida em que condiciona a aprovação do projeto de emenda constitucional 300, apresentada à Câmara em 2008 pelo deputado Arnaldo Faria de Sá, à omissão de seu bloco parlamentar para livrar o ministro Antonio Palocci de uma convocação ou de uma CPI.

“Temos nas mãos – disse o ex-governador – um diamante que vale 20 milhões de reais”. Exatamente a quantia recebida pelo chefe da Casa Civil em 2010, por assessorias prestadas a empresas que ele não deseja revelar.

Sobre o episódio que o deputado do PR tornou duplamente incrível, excelentes reportagens de Maria Clata Cabral, na Folha de S. Paulo, e de Isabel Braga, em O Globo, edições de 1º de junho. Também na quarta-feira, primoroso comentário de Merval Pereira, em sua coluna também no Globo.

O projeto de emenda constitucional 300 eleva substancialmente a remuneração dos integrantes das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros de todo o país. Tornou-se uma reivindicação intensa das corporações. Não é para menos. Um soldado ganha hoje, no RJ, por exemplo, aproximadamente mil reais por mês. A emenda 300 eleva esse piso para 3 mil reais. O apoio que recebe, portanto, é maciço.

Porém este é o aspecto administrativo e, em consequência, eleitoral. Há, entretanto, outra questão. Merval Pereira focalizou o tem sob o prisma ético e moral. Perfeito. Mas alem dessa colocação, tem que ser visto igualmente sob o prisma político. Os reflexos são muitos. Um deles, o desgaste à imagem da presidente da República, em particular, e ao governo, de modo geral. Até setores do próprio PT pedem explicações lógicas ao ministro sobre seus ganhos de porte, produzidos com assessoramente de curto prazo. Por coincidência, no período que separou a véspera da vitoria de Dilma nas urnas à sua posse no Palácio do Planalto. E na política, quando correligionários cobram jatos de luz por sombras é porque algo não vai bem no reino da Dinamarca.

Garotinho, com sua investida eleitoral, talvez para prefeito do Rio em 2012, caso até outubro transfira seu domicílio eleitoral, tornou explicita a contradição que marca o fato de uma presidente da República tornar-se, pelo rumo dos fatos, refém de um ministro da sua até hoje absoluta confiança pessoal. Isso não pode acontecer, tão absurda essa perspectiva. Antonio Palocci, no dia da vitória nas urnas, estava ao lado de Dilma quando ela se dirigiu para a primeira entrevista coletiva como presidente eleita. Mas a política é mutável e mutante.    

Essa conotação constitui um de seus maiores encantos: o imprevisto. A imprevisibilidade muda tudo de repente. Quem poderia imaginar que Dominique Strauss-Khan, forte candidato à presidência da França, fizesse submergir sua candidatura num ataque sexual a uma camareira de hotel? Acontece.

É melhor um adversário cordial do que um correligionário que, na realidade, pese contra como se fosse um falso amigo. É exatamente o caso de Palocci em face dos rumos conduzidos pelos ventos de Brasília. Dilma Rousseff não deverá diretamente demiti-lo. O ato não seria bom para ela, a deixaria em posição constrangedora. Ao mesmo tempo, Palocci não pode continuar. A solução está no fato dele próprio demitir-se. O diamante que Anthony Garotinho encontrou no garimpo da ideia sai de cena. O chefe da Casa Civil, também. O governo recomeça.

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