Gerador de frustrações

Carlos Chagas

A memória do povo  é curta. Do sociólogo, em especial.  Escanteado na campanha de José Serra, para permanecer na mídia  Fernando Henrique Cardoso especializa-se em bater no Lula, um dia sim, outro também. Acaba de declarar que o atual presidente da República abusa do poder, integrando-se na campanha de Dilma Rousseff e permitindo que o PT utilize os fundos de pensão como um fechado bloco de poder.

Por quem sois, Excelência? Esqueceu qual a principal figura no festival das privatizações que promoveu em seu governo? Precisamente os fundos de pensão, manipulados até o limite da irresponsabilidade, conforme um de seus ministros.  Naquelas operações de doação do patrimônio público o que menos pesou foram os recursos privados. É claro que o PT não tem direito algum sobre a caverna do Ali Babá em que se transformaram os fundos de pensão, mas o sociólogo também não tinha,  quando diversas vezes  pronunciou  a palavra mágica do “Abre-te Sésamo”.  E como abriu…

Disse o ex-presidente não ter feito o que o Lula faz, ou seja, pedir votos para a candidata e misturar as funções de chefe do governo com as de cabo eleitoral. É bem possível haver razão no diagnóstico, não fosse um detalhe: FHC tinha horror da candidatura  de José Serra. Não o  queria  no palácio do Planalto. Aliás, não queria ninguém, exceto ele mesmo. Por isso saltou de banda durante a campanha vencida pelo Lula.

Bissextos leitores indagam porque essa marcação cerrada contra Fernando Henrique, neste espaço. A explicação resume-se numa  palavra: frustração. Porque ele frustrou  a imensa maioria do povo que o elegeu. Naqueles idos, tendo Itamar Franco surpreendido todo mundo ao fazer um excelente governo, o Brasil parecia estar tomando jeito. O candidato escolhido pelo então presidente da República   apresentava bagagem invulgar. Um dos líderes da resistência contra a ditadura, exilado, senador e executor do Plano Real,  que acabou com a inflação. Intelectual, cercado de diplomas, poliglota e, acima de tudo, um representante da esquerda consciente. Reformista, jamais revolucionário, servia de anteparo às aventuras populistas e à pregação do caos. Mas acenava com largos passos adiante no aprimoramento social e institucional. Seu último projeto,  apresentado no Senado pouco antes da campanha eleitoral,  estabelecia parâmetros para a cobrança do imposto sobre grandes fortunas. Em suma, seria através dele que o país avançaria como opção  destinada a reduzir desigualdades  flagrantes entre ricos e pobres, nações e indivíduos.

Pois é. No poder, pediu que esquecessem tudo o que havia escrito. Entregou-se de corpo e alma ao Primeiro Mundo e aos potentados empresariais. Começou promovendo ampla reforma na Constituição, suprimindo  direitos sociais e princípios garantidores da soberania nacional. Extinguiu monopólios fundamentais.  Promoveu a mais abominável desnacionalização de que se tem  notícia na República. Leiloou parte considerável da própria Petrobrás, que quando jovem defendeu nas ruas. Entregou as telecomunicações ao estrangeiro, da mesma forma como o subsolo.  Fez mais: arrancou do Congresso, sabe-se lá a que preço, a execrável emenda da reeleição,  dispondo que ele mesmo poderia disputar um segundo mandato no exercício do primeiro.

Haveria muito mais a alinhar, se houvesse espaço e indignação, sentimento que hoje se transmuda em frustração…

Melhor que se vá

Impossível conter a perplexidade verificada no próprio Supremo Tribunal Federal diante da singular condição do ministro Joaquim Barbosa.  Doente, ele multiplica os pedidos de licença médica enquanto se avolumam  os processos que deveria apreciar. São perto de 13 mil.  Solidarizam-se  os  colegas com seu estado de saúde, impossibilitado de permanecer sentado por mais de alguns minutos, mas a situação de fato exige uma solução. Ou encontra meios  de reassumir ou, com todo o respeito e lamentação geral,  melhor que se vá. Em especial porque em suas mãos repousa um dos mais agudos e prolongados processos da História da República: o mensalão. Estica-se o  julgamento dos quarenta réus de crimes de corrupção explícita, envolvendo altas figuras do poder. Do jeito que as coisas vão,  logo  haverá a  prescrição para todos.  A voz rouca das ruas começa a ser ouvida na mais alta corte nacional de justiça.

Rigor posto à prova

É conhecida a história do cidadão  parado defronte a um dos portões   da estação rodoviária, contando os ônibus que saíam. Depois de horas nessa atividade, aproximou-se um malandro, fardado de policial, que o  interpelou gritando ser proibido contar ônibus. A lei estabelecia multa para cada unidade.  Quantos ônibus ele tinha contado? O plácido indivíduo escondeu a cadernetinha onde anotava  os veículos que saíam e, humilde, revelou terem  sido vinte. Sem reagir, pagou dez reais de multa por cada um. Quando um amigo se aproximou, censurando-o por ter sido ingênuo, até bobo, ele fez cara de inteligente e respondeu que havia contado mais de quinhentos  ônibus e, assim, conseguira burlar a receita federal…

Mais ou menos nessa situação encontra-se o eleitor quando informado das negativas de pedido de registro de candidatos com ficha suja pelos tribunais regionais eleitorais. Como os ônibus da piada,  deveriam ser mais de quinhentos, mas a justiça parece contentar-se com vinte.

Camuflagem

Repetiu-se ontem a arte de tapar a luz do sol com a peneira, por parte do gabinete pessoal do presidente Lula. Divulgaram, de véspera, a agenda do chefe, detalhando audiências, pela manhã, e uma viagem a Divinópolis, Minas, na parte da tarde.  Daquela cidade o Lula voaria para Belo Horizonte, com chegada prevista para as 18 horas.  Segue-se  misteriosa informação, de que a partida para Brasília seria às 22 horas, lendo-se para o intervalo: “Compromisso Privado”.

Ora, Minas e o país inteiro já sabiam que Dilma Rousseff estaria na capital mineira para mais um comício, entre outras atividades.  Imaginem quem estava no palanque…    

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