Gestão temerária aumenta o risco de ocorrer até mesmo racionamento de energia elétrica

Resultado de imagem para apagão - chargesCarlos Newton

Se o celular fosse indispensável para seu trabalho, você ficaria confortável em começar o dia com a bateria entre 20 e 50% de carga? Muito provavelmente você faria de tudo para começar carregado pelo menos acima dos 50%, e, sempre que puder, ia dar uma “carguinha”.

A nível nacional, quem faz a gestão das baterias do país é o Ministério de Minas e Energia, e nossas baterias, entre as maiores do mundo, são os reservatórios das hidroelétricas, entre elas a gigante Itaipu.

CRISE GRAVE – Houve uma crise grave quando o país só contava com hidroelétricas e não tinha as térmicas (nosso “carregador de bateria”), entre 2000 e 2002. Naquela época, foi tudo resolvido da maneira tradicional: muita correria, reportagem, gritaria, emergências, corrupção, contratos abusivos, uso da Petrobras para viabilizar a instalação de termoelétricas e fornecimento do gás, em condições nem sempre favoráveis à estatal,

“Um negócio horrível, que consegui transformar em um negócio ruim”, como disse posteriormente o professor Ildo Sauer, diretor da Petrobras.

Águas passadas, foi o suficiente para tocar o barco até 2012, com a nossa bateria meio-cheia: os reservatórios foram mantidos operando no saudável nível entre 50% e 100%, sempre sendo recarregados com o acionamento das térmicas.

NOVA CRISE – O ano de 2013 marcou o início de uma tendência arriscada: mesmo com térmicas ligadas, a demanda energética era tão grande, que nossa bateria estava sendo “depletada”, não mais recarregando nos tempos de chuva. E o nível dos reservatórios foi caindo devagar até 2015.

O motivo é um tanto óbvio: a economia cresce com o tempo (se tudo correr bem), e, sem aumento da infraestrutura de geração de energia na velocidade adequada, as fontes vão ficando escassas.

Depois de 2015 até os dias de hoje, um novo fenômeno acontece: com a crise, a demanda cai. Curiosamente, o governo toma uma decisão bizarra: não aciona as térmicas, e continua operando as hidroelétricas no perigoso nível entre 20% e 50%. Não ligou o carregador todo tempo que podia, e decidiu trabalhar com meia carga. Genial! Ou bestial”, como dizem nossos irmãos portugueses, contando “piada de brasileiro”.

MAIS UMA BOBEADA – Embora os níveis dos reservatórios não estivessem altos, o CMO (Custo Marginal de Operação, que remunera as térmicas) teve uma volatilidade enorme, dificultando o gerenciamento dessas usinas e remunerando mal o gerador a gás (ao menos na visão dos donos das térmicas).

Por um motivo ou por outro (incluindo a possibilidade de lobby dessas empresas geradoras por uma maior remuneração), as termoelétricas foram sendo desligadas e não foram carregados os reservatórios das hidroelétricas.

A geração termoelétrica, que chegou a 139 GWh no ano de 2015, foi caindo até 92 GWh em 2020 (reduziu-se em um terço). Ou seja, não ligaram os carregadores e os níveis dos reservatórios se mantiveram perigosamente baixos, bastando pouca chuva para eclodir uma nova crise.

SEGURAR AS TARIFAS – Não ligar as térmicas entre 2015 e 2020 foi uma medida popular (populista), pois essa foi uma forma encontrada para segurar o preço da energia elétrica nas casas. Mas foi tudo uma imensa pedalada, pois estávamos pegando emprestada a água futura (dívida moderna, em água), que serviria de bateria de segurança em condições normais.

Agora, com reservatórios vazios, estiagem e economia voltando a crescer com a vacinação, existe o risco de as térmicas serem insuficientes para recarregar os reservatórios ou mesmo suprir a demanda urgente. É como um “De volta para o futuro”, em que voltamos para 2000-2002. Será resolvido da maneira tradicional? Não sei. E ainda dizem agora que a solução é privatizar a Eletrobras, nesse clima nada ameno, vejam até onde vai a irresponsabilidade desses administradores, comandados por um ministro-almirante, que não sabe navegar nem mesmo nas águas das represas..

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P.S. –
Demonstrando seu imenso interesse no assunto, o sonolento Ministério de Minas e Energia excluiu em janeiro de 2021 a sessão de Energia Armazenada de seu Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, encerrando um histórico de acompanhamento que vinha desde 2008. Qual o motivo? Dificultar o acompanhamento, é claro. (C.N.)

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