Getúlio e Dilma em 24 de agosto

Sebastião Nery

Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO

E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA

Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam :

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer :

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA

Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

 DILMA

Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado : – “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”. Ficou pouco.

Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.

12 thoughts on “Getúlio e Dilma em 24 de agosto

  1. Entre 1950 e 1964, no chamado “Período Democrático”, o Brasil sofreria inúmeras
    crises institucionais que colocariam em questão a Constituição de 1946. Para fins desse artigo,
    nós iremos nos concentrar nos anos de 1950 a 1955. Neste período, o jornalista e político
    Carlos Lacerda assumiria nacionalmente o papel de um dos principais opositores (se não o
    maior) a Getúlio Vargas e seus herdeiros políticos. Tal oposição não pouparia nenhum ataque
    pessoal contra seus opositores, críticas e denúncias, e até campanhas abertas de Golpes
    Militares em seu jornal para erradicar qualquer traço de “populismo” no Brasil.

    Julgamos ser nesse período que Carlos Lacerda se tornaria famoso nacionalmente, assumindo assim posição de liderança dentro da UDN, e fundaria através de seu jornal movimento lacerdista que chegaria aos anos 60 como o mais influente dentro da UDN, e que seria um dos principais
    apoiadores do Golpe de 1964. Buscamos perceber o discurso lacerdista no jornal para influir na
    opinião pública, e a construção de um discurso golpista para grupos de pressão. O jornal
    Tribuna da Imprensa foi, portando, transformado “num púlpito de um jornalista-político”.

    • Na época a Tribuna tinha uma tiragem média de 4.500 exemplares, contra mais de 90.000 da Última Hora, do Wainer com pesado financiamento getulista .
      Na realidade o grande púlpito do Lacerda foi a Rádio Globo, onde ele começou com um programa de 10 minutos, que com o tempo passou para 1 hora.
      Quanto aos suicídio, Hoje é diferente, o PT é que suicida os outros…

    • E Lacerda foi o maior traíra do Brasil, Sempre esteve por trás das coisas ruins pensando somente nele mesmo. Mas, quem tanto traiu, acabou traído no regime militar e não chegou lá. Seria outro Lulla.

      • Não fala assim Paulo_2…….
        Teve um (digamos) ingênuo aqui que falou que o Cunha era o novo Carlos Lacerda….Ele vai ficar chateado com você….

      • Concordo com você Paulo_2, Carlos Lacerda fez tanto mal ao Brasil quanto fez Lula. Cada um a seu modo, mas ambos custaram caro ao povo brasileiro e estamos pagando o mal que ambos fizeram ao Brasil até hoje. Lula pelos motivos apontados aqui nesta Tribuna, e Lacerda por ter atormentado Getúlio Vargas porque era contra uma empresa de petróleo brasileiro (Petrobras) e queria as empresas todas nas mãos de norte-americanos. Lacerda, no fundo, foi quem provocou o suicídio de Getúlio. Diga-se de passagem, que o suicídio foi o gesto mais genial de Getúlio Vargas, porque com seu suicídio o povo se levantou contra Lacerda e a UDN, que tiveram de esconder-se, e, ainda, com o gesto de suicídio Getúlio acabou adiando por dez anos o golpe militar que a UDN de Carlos Lacerda estava pronta para dar. Em 1964 foi com a participação ativa e o apoio de Carlos Lacerda que os setores da UDN conseguiram, com ajuda dos Estados Unidos da América, dar o golpe militar de primeiro de abril.

  2. Golpe de mestre ! Deixou a oposição perplexa e a liquidou também. Jamais imaginaram que um brasileiro teria vergonha e faria aquilo.

  3. COMPLEXIDADES POLÍTICAS – A impunidade não se enfrenta caindo nas ondas da mídia ou em ações negativas visando a instabilidade Constitucional, que se ocorrer agrava ainda mais as dificuldades vividas pelo país. Qualquer pessoa de bom senso e desprendida de pautas menores, pois do contrário até a capacidade de percepção se perde, entende que desmandos corriam consentidos em outras gestões (‘FHLula’). Os altos comissionados que se tornaram delatores no caso da Petrobras, quase que todos, foram demitidos pela presidente Dilma Rousseff entre 2011 e 2012. Antes, ministros eram blindados e o Congresso não os convocava a prestar esclarecimentos sobre tais fatos, que corriam soltos.

    Não entro nas implicações de Lula e de outros, seja na ‘Lava Jato’ ou em qualquer outra investigação necessária ao país, porque compete a eles se defender e aos tribunais o veredicto. O questionamento é político e aí afirmo que o lulismo se apresenta pior que encomenda, ao contrário de elevar o debate há rebaixamento de nível e algumas vezes o próprio chefe é flagrado aprontando nos bastidores, não propriamente para ajudar a presidente. Há uma cumplicidade corrente nessas cúpulas de fácil compreensão, basta dizer que antes também havia falcatruas o governo Lula não cumpriu seu dever na apuração sobre o antecessor. E por falar em Petrobras, estamos em 24 de agosto, passados 61 anos da morte do maior estadista de todos os tempos.. http://www.youtube.com/watch?v=2_emEu7hq1Q

  4. “…basta dizer que antes também havia falcatruas o governo Lula não cumpriu seu dever na apuração sobre o antecessor.”
    Esse foi o maior erro do governo Lula. Agora paga um preço muito caro pela omissão. A carta ao povo brasileiro foi um tiro de ganhão em toda a perspectiva de mudança. Traiu os milhões que acreditaram piamente nas boas intenções até então demontradas. Jogaram a militância na lata de lixo, agora querem resgatá-los, eu simplesmente rio para não chorar. E o pior, não há luz no fim do tunel, apena sombras.

  5. Se em 2002 Lula não tivesse assinado a carta ao povo brasileiro e escolhido um grande empresário para Vice, ele teria mais uma derrota eleitoral. O povo brasileiro não queria estatizar a padaria e a barbearia da esquina.

  6. Nery já deu diversas versões para o dia do suicício de Getúlio Vargas. Na primeira diz que um policial deu-lhe um soco no nariz. Na segunda foi com a coronha do fuzil. Na terceira foi um oficial que deu-lhe com a coronha da metralhadora. Nery fala que Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas um de cada jornal para nos apresentar a Getúlio. Isso não aconteceu.

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