Getúlio Vargas e Leonel Brizola estavam certos: choremos pela Gurgel, não pela Ford!

Gurgel: o sonho de um fabricante brasileiro de automóveis se tornou  realidade há 50 anos | Carros | autoesporte

Governo desprezou o extraordinário projeto de Amaral Gurgel

Isaías de Moraes

A eliminação do modelo do Nacional Desenvolvimentismo (que teve na Era Vargas seu auge e em Leonel Brizola seu último grande herdeiro), a abertura do mercado, do sistema produtivo nacional e a valorização do privado em detrimento do público –durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso– estariam inseridos, na visão do ex-presidente e de sua equipe, na necessidade de modernizar politicamente e economicamente a sociedade brasileira como condição para inserir-se competitivamente no processo de globalização.

No entanto, o que se notou não foi uma modernização, mas uma regressão da estrutura produtiva brasileira. A crença em um Desenvolvimento associado e dependente em detrimento do Nacional Desenvolvimentismo acelerou o nível de dependência econômica no Brasil.

INCENTIVO ÀS MULTINACIONAIS – No Brasil, os investimentos estrangeiros sob a liderança das empresas transnacionais e multinacionais não eram questionados, de forma que se garantiam incentivos a qualquer atividade industrial passível de substituir importação. O Desenvolvimento associado e dependente, aparentemente de forma inocente, acreditou que qualquer que fosse a indústria que se instalasse no Brasil, ela traria consigo igual prosperidade econômica ao país e aumento do bem-estar social.

Em outros países, o capital externo e as empresas multinacionais e transnacionais foram regulamentados e disciplinados, por exemplo Coreia do Sul e China. A título de ilustração, a China encarou o processo de globalização de maneira pragmática e realista, inserindo-se ativamente na economia mundial. Enquanto o Brasil e as demais economias latino-americanas optaram por uma inserção passiva, associada e dependentista, a China exerceu um forte controle sobre os fluxos de investimento estrangeiro direto e indireto, dependendo muito pouco dos empréstimos externos.

EXEMPLO DA CHINA – O capital externo, ao entrar na China, foi obrigado a aceitar uma regulação estatal implacável por meio de formação de empresas joint ventures com o Estado. A China, que tinha uma economia mais subdesenvolvida do que a do Brasil até 1990, conseguiu fugir desse modelo neoliberal periférico imposto pelas economias centrais, caminhando em direção ao seu catching-up e de seu desenvolvimento econômico.

Nos países periféricos, como o Brasil, que não conta com uma burguesia industrial-nacional cimentada, o Estado tem de, indubitavelmente, continuar sendo o centro de decisão econômica. Tal condição é fator primordial, pois há armadilhas na associação livre com o capital externo.

As principais armadilhas são que o capital externo pode reforçar setores de vantagens comparativas, no caso do Brasil os setores primários; ou criar um sistema de maquiladoras – quando a burguesia internacional produz bens manufaturados, mas não realizam transferência de tecnologia – bloqueando a integração, a ampliação, a sofisticação produtiva e as potencialidades da indústria local ainda infante.

LEMBREM DA GURGEL – Ambas as armadilhas, ou seja, reprimarização da estrutura produtiva e bloqueio aos capitalistas produtivistas nacionais tornaram-se realidade no Brasil. Nesse último ponto, um caso emblemático que voltou em mente recentemente por conta do fechamento da produção da Ford no país é o da Gurgel Motores S/A, que foi uma fabricante brasileira de automóveis e utilitários entre 1969 até sua falência em 1994.

A queda da Gurgel não ganhou tanta cobertura midiática na época, não choramos o fim do sonho de carro 100% nacional. Contudo, a construção de uma nova fábrica da Ford em Camaçari na Bahia, no ano de 2000, foi amplamente divulgada e comemorada pelos meios de comunicação.

A construção da nova fábrica da Ford, naquela época, foi vista como consequência de sucesso do modelo de Desenvolvimento associado e dependente. Vinte anos depois, a Ford fecha sua produção no Brasil.

ESTRATÉGIA EQUIVOCADA – O Desenvolvimento associado e dependente é falho. O economista Celso Furtado já denunciava suas limitações na década de 1980. O modelo é raso, inocente, imaturo e foi um fracasso. Ele desnacionalizou e regrediu a estrutura produtiva brasileira.

Insistir neste caminho é passionalidade argumentativa e negação do racionalismo-pragmático científico ou é entreguismo ao capital material, ao capital cultural e ao capital social das economias centrais. Em ambos os casos, é sentenciar o Brasil ao subdesenvolvimentismo permanente.

A sociedade brasileira precisa fazer uma autocrítica pelo caminho escolhido, isto é, o Desenvolvimento associado e dependente, que, na verdade, sempre orbitou dentro do paradigma liberal. Ele não trouxe prosperidade.

RELAÇÃO DISFUNCIONAL – Segundo Fiori (2001, p.55), o Desenvolvimento associado e dependente é um “cosmopolitismo de cócoras”, uma vez que é caracterizado por uma relação disfuncional. Uma das partes dessa relação não tem capacidade de administrar seu próprio desenvolvimento. O modelo de crescimento pautado na poupança externa e nos preceitos econômicos vindo do exterior faz com que o Brasil perca sua capacidade de traçar seu próprio projeto de sociedade, interferindo, inclusive, em sua própria identidade cultural.

Nessa autocrítica precisamos passar por um processo de catarse psicológica coletiva, precisamos chorar a perda de nossa rota desenvolvimentista, precisamos chorar a queda da Gurgel, não da Ford.

Após essa catarse, a sociedade brasileira precisa retomar a racionalidade pautada nos interesses coletivos e com elevado grau de homogeneidade social como mecanismo de conciliar uma taxa de crescimento econômico com absorção do desemprego e com distribuição de renda. A cultura e a criatividade brasileira têm de ser realçadas para o Brasil retomar um projeto de desenvolvimento nacional-popular.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Este primoroso artigo de Isaías de Moraes, do site A Revolução Industrial Brasileira, nos foi enviado pelo sempre atento comentarista Armando Gama, de São Paulo. Em resumo, mostra que Vargas e Brizola estavam no rumo certo. Mas quem se interessa? (C.N.)

25 thoughts on “Getúlio Vargas e Leonel Brizola estavam certos: choremos pela Gurgel, não pela Ford!

  1. TRAGÉDIA ANUNCIADA
    Publicado em 15 de janeiro de 2021
    Políbio Braga

    Adverti repetidas vezes para o trágico erro que foi a decisão do STF de retirar das mãos do governo federal a gestão da crise da pandemia, entregando aos governadores a administração do enfrentamento do vírus chinês.

    O STF foi acionado pelos regimes partidários esquerdopatas, que imediatamente receberam o apoio entusiástico do Congresso, de todos os governadores e de todos os prefeitos, estimulados pela sanguinária mídia tradicional, que tem a Rede Globo como expoente.

    Ao governo federal, foi destinada a única tarefa de alcançar recursos materiais e humanos solicitados, o que foi feito. A má gestão, a roubalheira e as arbitrariedades executadas em Estados (Rio, Amazonas e SC, por exemplo) e municípios, cobram agora seu preço. Os bandidos de plantão, além disto, continuam suas atividades criminosas, que são as de fustigar insistentemente as recomendações de tratamento precoce, que salvam milhares e milhares de vidas em todo o Brasil.

    Isto que acontece em Manaus é uma tragédia anunciada e os únicos culpados são o STF, o Congresso, os governadores, os Prefeitos, os líderes de Partidos e a mídia corporativa que estimulou o crime. É o Eixo do Mal.

    Para onde irão pacientes que não conseguirem vagas hospitalares e morrerão nos leitos de UTIs, caso o caos instalado em Manaus ocorra em outras grandes cidades?

    Perguntem ao Eixo do Mal.

    • Essa é boa… Todo mundo é culpado, menos Bolsonaro, aquele que chega a alardear que o isolamento mata mais do que a covid. Sinceramente, citar Políbio Braga a essa altura do campeonato é o fim da picada…

      CN

    • Políbio Braga é mal informado ou mau caráter?

      Em todas as situações, pela constituição, o que impera são as restrições das leis federais. Os estados podem ser mais restritivos, os municípios idem. O contrário não.

      Vamos pegar como exemplo, a lei do uso de cinto de segurança. Num município aqui do RS o cinto, por lei municipal, não era obrigatório, mas essa lei foi considerada inconstitucional, por ser menos restritiva que a lei federal.

      Portanto, para enganar os trouxas e os cegos mentais, essa mentira de responsabilizar somente os governadores e prefeitos é repetida exaustivamente. Se fossem consideradas somente as restrições (ou melhor liberações) advindas do governo federal, estaríamos muito piores, pois sabemos quais os pensamentos a respeito do vírus do executivo mor.

    • Não é verdade que o STF retirou “,,, das mãos do governo federal a gestão da crise da pandemia, entregando aos governadores a administração do enfrentamento do vírus chinês”.

      Quem interpreta assim só pode ser mal intencionado.
      O STF decidiu que os controles sobre liberar ou não o comércio, etc. ou definir regras locais caberiam aos estados e municípios.
      Não houve transferência de poder.
      Isso é fugir da raia.

      Como sempre, ESCOLHE-SE UM CULPADO.
      Aliás, tá todo mundo se vacinando lá fora.
      Aqui, todo dia acontece um fato novo que empurra o início da campanha.
      Cruz-credo !!!

    • Todo o mundo fala e pouca gente leu; vejam como foi a decisão do STF, que não tirou a autoridade do presidente, apenas impediu que ele tomasse a autoridade dos estados e municípios de serem mais restritivos do que ele: http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=441447&ori=1
      Bolsonaro falseou completamente essa decisão e desde então a usou, mentirosamente, como desculpa para se eximir da responsabilidade e encobrir sua incompetência. E seus seguidores acreditaram.

  2. Mas,o que interessa esse texto primoroso do Isaías Moraes, que o senhor Armando repassou..

    Só revela que somos entrepostos das multinacionais..

    O projeto Nacional desenvolvimentista semi estatal, idealizado por Vargas e seguido por Brizola.
    Essa alma Nacionalista cada dia que passa está incorporada em CIRO GOMES.

    Precisamos resgatar nossa soberania….

  3. E lembrar que a despeito disso e de muito mais o Brasil, influenciado pela Globo e Chico Buarque, escolheu Lula ao invés de Brizola… deu no que deu..
    Mais de 30 anos depois dessa eleição segue a Globo e o chico buarque deformando gerações…

    • O STF só se pronunciou, provocado pelos partidos de esquerda, porque viu, e eles viram, que Bolsonaro não faria nada; caso isto não tivesse acontecido, a tragédia seria maior, com muito mais mortes. Tanto que ele continua até hoje criticando as medidas de isolamento, uso de máscara, receitando cloroquina. Um médico de Amazonas disse que os doentes de covid usaram cloroquina, e outros remédios do receituário do Dr Bolsonaro, a adoeceram. Ora, Ora, Ora, Polibinho.

  4. A ditadura militar foi crucial para estabelecer o modelo de “desenvolvimento” brasileiro.
    Todos os países do mundo que alcançaram um relativo desenvolvimento, o fizeram sobre os trilhos do transporte ferroviário.
    No Brasil, por motivos ignorados, ou quase, o transporte ferroviário nunca foi levado a sério, sendo que o último prego, pregado no caixão da modalidade, foi “martelado” pelo FHC.
    Desde que o JK desfilou em Brasília a bordo de um fusca conversível, nunca mais se pensou em outro tipo de transporte. Venceu o rodoviário.
    Será que foi por conta da arrecadação de impostos que o modelo foi implantado? Afinal qualquer veículo vendido, carrega no seu preço, quase 50% de impostos. Teria sido este o motivo da preferência pelos carros? Ou seria por que o brasileiro é inculto e bobo, a ponto de priorizar o transporte individual, em detrimento do coletivo?
    A ditadura tratou de construir estradas por todos os cantos, montadoras que a princípio haviam se instaladas na Argentina, correram depois para o Brasil, Como a FIAT e todas as francesas. O indicativo eram que aqui, teriam mais facilidades.
    Uma das pioneiras esta indo embora, a FORD, outras estão em estado de fusão, mas o que parece mesmo, é que o mercado para elas, saturou.
    A qualidade dos carros subiu muito, e os preços também, e quando os governos começaram a deixar de dar “uma mâozinha”, a coisa degringolou, e parece que a Ford será só a primeira.
    Já passa e muito da hora de se rever os conceitos sobre o transporte de pessoas, o modelo rodoviarísta, esta esgotado, é hora de se começar a pensar em algo diferente.

  5. O artigo realmente é muito bom.

    Esse assunto já foi debatido aqui na TI várias vezes. Erramos lá atrás ao fazermos opções por caminhos deferentes de outras nações, como as citadas.

    Até já citei o livro “23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo” que explica muito bem a trajetória dos países que se desenvolveram.

    Será que dá tempo de revertermos? De termos tecnologias e nos reindustrializarmos? Em parte, pode ser que consigamos, mas acho que algumas coisas são irreversíveis.

    Quando leio que Ruanda está fabricando smartphones com tecnologia própria e muitos componentes com origem local, faço comparações como nosso país, pensando na nossa eterna dependência tecnológica. A mesma coisa penso quando vejo as coisas fabricadas na Índia.

  6. Data Vênia,a Ford se instalou no Brasil, na era Vargas,qd° implantou a siderúrgica..
    Já com o pólo implantado por Vargas.
    JK,deu segmento e a primeira montadora foi a wolkswagem que quebrou com as exportações americanas que não queriam se instalar no Brasil,para preservar o mercado americano de trabalho etc..
    Como se vê EUA,sempre foram protencionista.

    JK, criou FNM,assim como a Gurgel,foram sufocadas pelo doping das multinacionais e pelos nossos gestores mal caráter que ficam dilapidando o patrimônio Nacional..

  7. Foi o maior golpe na iniciativa privada nacional.
    Em 1989, cheguei a aventar a compra de ações da Gurgel quando houve o lançamento do empreendimento de expansão da Gurgel no mercado.
    O governo estimulado pelas montadoras multinacionais sufocou a possibilidade de Gurgel fazer os carros genuinamente nacionais, com visão econômica e ecológica. Ex: CENA, Carro Econômico NAcional nome cassado pelo pessoal do Ayrton Senna, ter sonoridade do nome dele(valha-ma Deus), só no Brasil acontece….
    No ecológico, tinha o Itaipu E, 100%eletrico ( não era híbrido). Hoje fala-se no Tesla.
    Como se vê temos diante de nós o país do atrazo. Isto aconteceu à mais de 35 anos. Temos os elétricos e os mini de consumo baixo (1000 cc) infestando o mundo e nós aqui dizendo, ah é é?
    Deus tenha misericórdia deste povo.

  8. A nosso ver, devemos chorar pela GURGEL SA que faliu em 1994, pela FNM, pela VEMAG SA (DKV) nascida em Canoas-RS comprada pela VW, pela Agrale SA de Caxias do Sul, pelo Jeep TROLL comprada pela Ford, pelo Jeep STARK de Joinville-SC etc, e até pela Ford SA paralisando suas operações no Brasil.

    E não é só da Indústria Manufatureira que devemos chorar porque está encolhendo e é a que paga os melhores salários, mas até da AGRO que é POP, onde quase 70% da Renda do Negócio fica com Empresas com Matriz no Exterior. Sementes, toda maquinaria empregada nesse Ramo, Defensivos Agrícolas, Agrotóxicos,
    Transporte Marítimo, Seguros, Financiamento de Vendas, e comercialização feita por grandes Traders, etc, etc.

    Realmente o Modelo de Desenvolvimento Associado DEPENDENTE do Capital Internacional gera muito pouca CAPITALIZAÇÃO NACIONAL.

    Devemos voltar o quanto antes para o Modelo NACIONAL DESENVOLVIMNTISTA SEMI-ESTATAL INDUSTRIALISTA tal como proposto por VARGAS, expurgado dos excessos do passado que o levaram a estagnação. ( Gov. GEISEL ).

    Temos que aprender chorando que: SÓ O CAPITAL BRASILEIRO é que é CAPITAL BOM PARA O BRASIL.

    CAPITAL se faz em Casa ( BARBOSA LIMA SOBRINHO).

  9. Humildemente declaro que o Brasil já foi o segundo construtor naval do mundo, só perdendo para o Japão.
    Hoje o Japão continua fabricando navios, embora não seja sua prioridade; e o Brasil….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *