Governar é tomar ou adiar decisões?

Carlos Chagas

Do imenso folclore de Getúlio Vargas, pinça-se um,  como exemplo de competência e malícia: quando um auxiliar entrava em seu gabinete levando relatório sobre algum problema insolúvel, o presidente abria a gaveta mais escondida de sua escrivaninha, arquivava o papel e comentava o famoso “deixa como está para ver como é que fica”. Ensinava que determinadas questões resolviam-se sozinhas,  sem obrigá-lo a optar por esta ou aquela desgastante decisão.

Está o presidente Lula no mesmo caminho, só que  premido pela cobrança da opinião pública ou, se quiserem,  da opinião publicada.  Getúlio Vargas governou parte de seus longos períodos impondo a censura à imprensa.

Por conta disso, o primeiro-companheiro recomeça a trabalhar na segunda-feira sob a expectativa  geral de certas  decisões cruciais, a respeito das quais tem mantido silêncio getuliano:

Mandará  Césare Batistti para a Itália ou optará por reafirmar o tal “refúgio” concedido pelo ministro da Justiça?

Anunciará a compra definitiva dos 36  caças “Rafale”, franceses, contra o parecer da Aeronáutica,  favorável aos caças suecos?

Vai alterar o decreto dos Direitos Humanos, que assinou sem ler, como disse, evitando a revogação da Lei da Anistia, ou permitirá que antigos responsáveis por práticas de tortura venham a ser  identificados e  processados?

Manterá o veto à indicação única de Michel Temer como candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff, através da exigência de uma lista tríplice do PMDB, ou abraçará o presidente da Câmara como a solução ideal?

Nomeará os secretários-executivos dos ministérios para substituírem os 19 ministros candidatos às eleições de outubro ou buscará, na sociedade civil, os melhores nomes para completarem a derradeira fase de seu mandato?

Preservará a candidatura de Dilma Rousseff, mesmo contra todas as pesquisas e os ressentimentos do PT e aliados,   ou cederá à tendência  dominante em suas bases, de que deveria pelo menos admitir   continuar   no poder?

Outras questões tão delicadas quanto  variadas estão à espera da decisão presidencial, mas, por enquanto,  permanecem  na gaveta.  Uma prova de competência política ou a evidência da incapacidade de solucionar o insolúvel?

Contradições

Pode ser mera especulação de jornalistas sem assunto, pode estar em curso uma armação inusitada. Fala-se da possibilidade de o ex-presidente Itamar Franco compor a chapa de José Serra como candidato à vice-presidência. Seria uma contradição dos diabos, apesar de o solitário de Juiz de Fora pertencer ao PPS, partido da base de apoio ao governador paulista.

Porque,  até prova em contrário,  Serra exprime tudo o que Itamar  rejeita, ou seja, o modelo tucano de governar, expresso pelos oito anos de Fernando Henrique. A ironia está no fato de que o sociólogo só se tornou presidente da República porque Itamar o lançou e sustentou. Desiludiu-se, porém, logo nas primeiras semanas do governo do PSDB, por conta das privatizações desmedidas,  do desmonte da Constituição de 88, do neoliberalismo, da implosão da soberania nacional e de  outros crimes de lesa-pátria praticados por FHC.

Se  a estratégia de José Serra for a mesma,  nada feito. Uma única hipótese existiria para viabilizar a chapa: que o governador de São Paulo rompesse os grilhões de subordinação ao modelo e deixasse clara sua discordância com  quase tudo o que Fernando Henrique fez. Melhor ainda, se tornasse pública sua admiração pelas diretrizes adotadas por Itamar Franco nos dois anos e meio em que presidiu o país, desgraçadamente postas em frangalhos pelo sucessor.

O longo caminho de volta

Por falar em ex-presidentes da República, quem vive um período de dúvidas é o senador Fernando Collor. Seu mandato vai até 2014 e, haverá que reconhecer, tem-se destacado na presidência da Comissão de Infra-estrutura e no plenário do Senado. Poderia continuar onde está pela próxima Legislatura,  mas a tentação parece grande,  de candidatar-se a governador de Alagoas, em outubro.  Estaria fazendo o caminho de volta? Dificilmente.  As cicatrizes do que aconteceu no início dos anos noventa continuam na lembrança de todos, mas a hipótese de ser  candidato e de vencer a eleição  deve estar tirando o sono do ex-presidente.

No fundo, todos querem

Apesar das  negativas, está  havendo disputa entre os companheiros paulistas. O mais novo  indicado para disputar o palácio dos Bandeirantes pelo PT é o senador Aloísio Mercadante. A ninguém será dado duvidar, porém, de que  Marta Suplicy  alimenta pretensões. Muito menos Antônio Palocci, para não falar em Eduardo Suplicy e até em  prefeitos do interior. Para o público, todos sustentam não pleitear a indicação, mas, na verdade, não há quem não  aguarde  a possibilidade de enfrentar  o favorito do PSDB, Geraldo Alckmin. Ou Aloísio Nunes Ferreira, preferido do governador José Serra.

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