Governo admite que os 10% mais pobres não conseguem trabalho

Deu no Valor Econômico

Nos últimos dez anos, o Brasil integrou grande parte da população à economia do país, mas os 10% mais pobres continuam “desconectados”, sem conseguir a inclusão produtiva, segundo Ricardo Paes de Barros, secretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do governo federal. Um dos principais especialistas em políticas sociais do país, Paes de Barros mostra preocupação especial com o fato de que cresce nesse grupo a fatia de adultos jovens, entre 25 e a 40 anos, com baixa escolaridade.

“Há uns 5% de jovens adultos que o mercado de trabalho está simplesmente rejeitando. Isso é um problema grave porque, se eles forem rejeitados pelo mercado de trabalho agora, serão rejeitados sempre”, afirmou Paes de Barros, ao participar neste sábado de um painel sobre desigualdade numa conferência sobre a América Latina, realizado no Chile. “Isso vai ser uma pobreza dura, difícil de reduzir mais tarde.”

Paes de Barros afirmou que, na última década, o Brasil conectou à locomotiva da economia grande parte da população. Antes, nesse trem, havia apenas um vagão ligado a essa locomotiva. Nos últimos dez anos, muitos outros vagões foram conectados. “Quando se colocam os pobres no ‘mainstream’ da economia, há ganhos como o de se tornar formal, de obter benefícios sociais.”

BOLSA FAMÍLIA

Os 11% a 20% mais pobres, que também recebem o Bolsa Família, tem conseguido a inclusão produtiva. Estão no mercado de trabalho e têm entrado no setor formal. O problema é com os 10% mais pobres. Parte desse grupo deve incluir pessoas que não serão incorporados ao que Paes de Barros chama de ‘mainstream’ da economia, como idosos, com doença crônica, por exemplo. Para esses, a única opção tende a ser transferências de renda, como o Bolsa Família.

O grande foco de atenção, segundo ele, devem ser os jovens adultos que têm sido rejeitados pelo mercado de trabalho. É fundamental evitar que se gere uma pobreza estrutural no caso de quem ainda pode ser incluído produtivamente. “Acho que essa é a prioridade do Brasil Sem Miséria para os próximos anos.”

Para Paes de Barros, um dos grandes desafios é fazer a “locomotiva se mover” – sem isso, os vagões com os mais pobres não se moverão. A política indicada para isso, segundo ele, é incentivar o crescimento da produtividade. “Quando a locomotiva se mover, nós temos instituições para garantir que os vagões se movam junto.” Outro desafio é justamente conectar o último vagão, composto pelos mais pobres, que ainda não conseguiram a inclusão produtiva.

PRODUTIVIDADE

Ao tratar da produtividade, o economista disse que ela varia muito dependendo do segmento da economia. O Brasil consegue vender aviões no exterior, como no caso da Embraer, mas ao mesmo tempo tem uma eficiência “ridiculamente baixa” no setor de serviços, segundo ele.

Um dos problemas para o Brasil crescer a taxas mais altas é justamente a baixa produtividade, que seguiu parada mesmo com a forte redução da informalidade registrada nos últimos anos, como notou Paes de Barros. Diminuir a informalidade é obviamente algo importante, mas não implicou numa melhora da eficiência da economia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Esta importante reportagem nos foi enviada pelo comentarista Wagner Pires. Mostra apenas a ponta do iceberg, porque Paes de Barros é da cúpula da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Dilma e se vê obrigado a dourar a pílula, como se dizia antigamente. Dizer que a faixa dos 11% a 20% está conseguindo entrar no mercado de trabalho formal (com carteira assinada) é um disparate total. Mas quem se interessa pela verdade no governo que inventou a “contabilidade criativa” e destruiu a Lei de Responsabilidade Fiscal? (C.N.)

4 thoughts on “Governo admite que os 10% mais pobres não conseguem trabalho

  1. E a Bolsa caiu 3,31% puxada pela Petrobras, que atingiu o menor valor dos últimos 9 anos. A situação tende a piorar pois o petróleo Brent está em U$ 69, valor limite para inviabilizar o pré sal. Até quando vamos pagar impostos para engordar a quadrilha?

  2. É bom lembrar a reportagem da Folha em Janeiro:

    Retrato do governo do PT: 61,3 milhões de brasileiros não trabalham e nem querem trabalhar.

    Um contingente de 61,3 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais não trabalha nem procura ocupação – e, portanto, não entra nas estatísticas do desemprego.

    Trata-se de 38,5% da população considerada em idade de trabalhar pelo IBGE, ou o equivalente à soma do total de habitantes dos Estados de São Paulo e do Rio.

    Nos EUA, ainda se recuperando da crise, a taxa é similar, 37,4% – as metodologias, porém, não são as mesmas.

    Referente ao segundo trimestre de 2013, o dado brasileiro ajuda a ilustrar como, apesar das taxas historicamente baixas de desemprego, o mercado de trabalho mostra sinais de precariedade.

    Mesmo tirando da conta os menores de 18 e os maiores de 60 anos, são 29,8 milhões de pessoas fora da força de trabalho, seja porque desistiram de procurar emprego, seja porque nem tentaram, seja porque são amparados por benefícios sociais.

    Esse número supera o quádruplo dos 7,3 milhões de brasileiros oficialmente tidos como desempregados nas tabelas do IBGE – o que dá uma ideia de quanto o desemprego poderia crescer se mais pessoas decidissem ingressar no mercado e disputar vagas.

    Os dados sugerem que grande parte dos que estão fora da força de trabalho é dona de casa: 40,9 milhões são mulheres. Entre os desempregados, a proporção de mulheres é bem menor, de pouco mais da metade.

    O grau de instrução da maioria dos que não trabalham nem procuram emprego, previsivelmente, é baixo: 55,4% não chegaram a concluir o ensino fundamental.

    Mas uma parcela considerável, de quase um quarto do total, inclui os que contam com ensino médio completo ou mais escolaridade.

    Considerando toda a população em idade de trabalhar, de 159,1 milhões, as proporções dos grupos menos e mais escolarizados são semelhantes, na casa dos 40%.

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