Governo Dilma não será reedição do governo Lula

Pedro do Coutto

Não existem no mundo duas pessoas iguais entre os 6 bilhões e 700 milhões de seres humanos que tanto habitam quanto subhabitam o planeta Terra. Para relembrar uma citação de Antonio Houaiss, a espécie humana é essencialmente estocástica. Assim, se não existem duas pessoas iguais, não podem existir dois governos iguais, ainda que seja, pelo menos no início, continuidade de outro. Lendo O Estado de São Paulo de ontem, reportagem dos correspondentes nos Estados Unidos Luciana Xavier e Lucas de Abreu Maia, vejo citada entrevista de Dilma Roussef ao Washington Post, publicada domingo. Nela, a presidente eleita afirma textualmente ter sido um erro o apoio do Brasil ao Irã na recente votação da ONU condenando a violação de direitos humanos naquele país. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, não mantido no cargo por Dilma, manifestou-se pela abstenção.

A presidente eleita, que deixou evidente não suportar o estilo Amorim, manifestou-se em termos fortes contra a omissão, de fato absurda e descabida. Focalizando o caso Sakineh Astiani, Roussef declarou não admitir de forma alguma e vigência de práticas medievais em lugar algum do mundo. Acrescentou que, tão logo assuma, buscará estreitar os laços políticos com o presidente Barack Obama. Como se constata facilmente, o posicionamento da candidata vitoriosa nas urnas será extremamente oposto ao da atual diplomacia colocada em prática pelo Itamarati. Tal política foi de pelo menos distanciamento da Casa Branca e de aproximação com os governos Hugo Chaves, Evo Morales e Rafael Correa. Ora, Venezuela, Bolívia e Equador não podem projetar-se ao lado dos EUA no primeiro plano do complicado tabuleiro de xadrez internacional. Dilma Roussef está certa. Sobretudo no caso do Irã, cujo governo já se afirmou favorável até a destruição do Estado de Israel. Não se pode defender a destruição de qualquer país. Não pode ser este o enfoque. O enfoque tem que estar voltado para a construção, não para a anulação.

A entrevista de Dilma Roussef, por coincidência ou não, foi publicada um dia depois dela anunciar a nomeação do embaixador Antonio Patriota para o Ministério das Relações Exteriores, Casa de Rio Branco, como se dizia há tempos como forma de destacar a importância histórica da chancelaria. Com suas declarações, não se tornou nada sólida a manutenção no Itamarati do assessor especial Marco Aurélio Garcia, alguém próximo a Chaves e a Raul Castro, ou seja de Caracas e Havana. O oposto da sintonia com os EUA que Roussef destacou àquele jornal.

Não há duas pessoas iguais, reitero. Portanto continuidade, em matéria de governo, não pode ser analisada como um processo integral de repetição. A primeira pessoa a tocar no assunto aliás colocando o tema, foi minha mulher. A primeira fissura apareceu ontem. Outras vão surgir. Uma delas, aliás, já surgiu, embora possa consolidar-se durante breve tempo. O desentendimento em torno da permanência ou não de Fernando Haddad no Ministério da Educação. Pois se Lula, como ele próprio disse, está se empenhando para que Dilma o mantenha no MEC, é sinal de que, por sua vontade, ela não o faria. Francamente, Haddad deveria liberá-la. Seria mais lógico, mais ético. Sobretudo mais político.

Continuidade absoluta é impossível. Há vários exemplos ao longo do tempo. Mas escolho apenas um: o general Geisel indicou Golbery do Couto e Silva para a chefia da Casa Civil do presidente João Figueiredo. Certo de que ele comandaria a administração. Ledo Ivo engano, como costuma dizer Carlos Heitor Cony. Golberi durou somente quinze meses no cargo. O poder não se transfere, dizia sempre JK. Estava totalmente certo.

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