Governo paga mais de juros da dívida do que o déficit da Previdência

Charge sem assinatura (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Os ministros Henrique Meirelles e Dyogo de Oliveira – reportagem de Martha Beck e Bárbara Nascimento, O Globo edição de sábado – anunciaram que a meta fiscal para 2018, ao invés de um déficit de 79 bilhões, projeta um déficit de 129 bilhões de reais. Disseram que só em 2020 as contas públicas vão apresentar resultado positivo. Como os ministros da Fazenda e do Planejamento referiam-se ao que classificam como resultado primário, fica no ar a dúvida se este resultado inclui ou não os juros pagos pelo governo Michel Temer pelo giro da dívida interna do país.

Isso porque a dívida interna brasileira eleva-se a mais de 3 trilhões de reais, metade do Produto Interno Bruto. Como os juros estão condicionados à Taxa Selic, hoje na escala anual de 12,25% pode-se projetar a despesa decorrente em torno de 360 bilhões de reais, o dobro do déficit atribuído à Previdência Social.

RESULTADO PRIMÁRIO – Os governos até aqui consideravam resultado primário o saldo excluindo-se as despesas com pagamentos de juros. O saldo do cálculo primário, projetando-se para a etapa secundária, portanto, pode ser negativo ou positivo. No caso brasileiro negativo no montante citado.

Deve se esperar da área econômica do governo uma tradução mais clara da realidade. Para eliminar a dúvida, deve se esperar uma afirmação se os juros estão ou não contidos na previsão do déficit de 129 bilhões no orçamento de 2018. De qualquer forma, o desembolso com juros alcança algo em torno de 360 bilhões anuais. O governo não podendo dispor de tal desembolso, capitaliza os juros, passando a emitir volume maior de letras e títulos do Tesouro como forma de pagamento aos bancos.

CULPA DA PREVIDÊNCIA – Curioso é que o governo concentra sua ofensiva para reduzir as despesas públicas no plano da Previdência Social, não tocando na questão dos juros necessários a rolar o endividamento interno junto aos bancos, que são os principais credores na realidade. É certo que cada pessoa física pode adquirir papeis que sustentam a rolagem da dívida. Mas o que as pessoas físicas possam deter, claro, não chega a 5% do total colocado no mercado.

Como se verifica na reportagem de Martha Beck e Bárbara Nascimento, somente em 2020 as contas públicas (confronto entre receitas e despesas) sairão do vermelho, o que revela que o problema continuará em 2018 e até em 2019. A dívida representa assim o problema mais grave com que se defronta o governo, com reflexo sobre toda a sociedade brasileira.

AQUECER O MERCADO – O déficit da Previdência Social representa um grave problema na economia brasileira, pois a questão previdenciária depende da expansão do mercado de emprego, uma vez que sua arrecadação é descontada com base nas folhas de salário. Tanto assim que o próprio governo modificou sensivelmente as desonerações fiscais concedidas na administração Dilma Rousseff. Ao invés de 4,5% sobre o faturamento volta a contribuição de 20% sobre as folhas de salário.

Portanto, por ação tácita o governo revela ser este o ponto fundamental voltado para a arrecadação para o INSS. Em síntese, se o mercado de emprego crescer, cresce também a receita previdenciária. Esta questão é clara. Mas quanto à dívida interna, nesta altura dos acontecimentos seu resgate pleno parece impossível para este século. Assim pode-se supor que, enquanto o superavit governamental está previsto para o ano de 2020, zerar a dívida interna parece ser algo relativo ao século XXII.

7 thoughts on “Governo paga mais de juros da dívida do que o déficit da Previdência

  1. Sr. Pedro Couto,

    Por tudo que tenho lido até o momento, o déficit primário é o que o governo gasta além do que arrecada, excluindo o pagamento de juros da dívida pública. Isso é explicitado em diversas reportagem da web. Quando tinha superávit primário, essa era a economia que o governo fazia para pagar os juros da dívida, mas sempre no final ficara em déficit porque essa economia não cobria o pagamento total. Tenha certeza, repito, que o déficit primário não inclui o pagamento de juros. O que faz com que cada vez mais dependamos do sistema financeiro e a dívida crescerá todos os anos ocupando um espaço cada vez maior na participação do PIB já que este está negativo ou cresce de forma medíocre. Repasso-lhe um link da maior especialista em no estudo da dívida pública brasileira com o título “A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado” https://www.cartacapital.com.br/economia/201ca-divida-publica-e-um-mega-esquema-de-corrupcao-institucionalizado201d-9552.html – e há muito mais sobre isso na internet. Tenha um bom domingo!

  2. Só para concluir, esse é um assunto que merece especial atenção dos articulistas desse site, e tenho dito isto em vários comentários, pois já li vários artigos que colocam a dívida pública federal e seus encargos como o principal problema do Brasil, só que é assunto proibido na grande mídia. A PEC 55 que congela os gastos públicos por 20 anos não limita os pagamentos dessa dívida e os encargos dela já se aproxima de 50% do Orçamento Federal. A pergunta que faço é a seguinte: como funcionará uma economia em déficit nos próximos anos? Como são remunerados os credores dessa dívida? Os resultados práticos, além do aumento do desemprego e da precarização do emprego através da terceirização, será também o aumento explosivo da violência generalizada. Concluindo, esse assunto do déficit primário e da dívida pública e seus efeitos no cotidiano da sociedade precisa ser mais explorado aqui, que é o que realmente nos interessa. Vejo muita política e pouca economia. Sei que o Sr. é um articulista bastante ativo nessa Tribuna e aguardo com expectativa novos artigos de V. Sas. sobre esse assunto. Muito Obrigado pela atenção!

  3. Esta dívida é interminável, quando irão negociar verdadeiramente, fazer uma auditoria nesta dívida, não é possível o Brasil ser prejudicado e pagar R$ bilhóes de reais a banqueiros, todos que entram continuam com a mesma política de pagar estes juros extratosféricos, é preciso acabar com esta falta de patriotismo, porque não negociam um parcelamento desta dívida, isto é, após a auditoria, a maioria do povo sofre com a com a incompetência destes governantes, não há um deputado ou senador que peça uma auditoria, que país é este.

  4. Raposa na galinheiro dá nisso aí. Sabe-se que Meirelles sempre atuou para o mercado financeiro e quejandos, daí o seu “sucesso”. O Brasil tem que se libertar da ciranda financeira comandada por Wall Street, pois pagamos muito e nada recebemos em troca, ou melhor, vemos aumentar os desembolsos futuros…

  5. Pura falacia deste servis do sistema financeiro com apoio da midia vendida , sabemos que na realidade o verdadeiro govenante do pais se chama Henrique Meirelles , Temer é apenas um testa de ferro com rubrica mentirosa de presidente . Se fala em operacao lava jato , callicute , e muitas outras , mas porque nao se envestiga o sistema financeiro , verdadeiro assaltantes do pais .

  6. Sr. Pedro do Coutto, o resultado primário do Governo Central não inclui os juros da dívida pública. Já expliquei isso aqui em um de seus artigos.

    O resultado primário é o somatório das receitas e despesas de manutenção da máquina pública sem contar os juros da dívida.

    Pega-se a receita bruta do governo, abate-se as transferências constitucionais e acha-se a receita líquida. Depois abate-se as despesas correntes (de manutenção) da máquina pública, achando-se o resultado primário que é chamado de superávit primário (se positivo) ou déficit primário (se negativo).

    Se for acrescentado ao resultado primário os juros da dívida aí teremos o resultado nominal: superávit nominal (se positivo) ou déficit nominal (se negativo).

    exemplo:

    Resultado Primário do Governo Central – 2014 a 2016 – (em % do PIB):

    DISCRIMINAÇÃO……..2014……..2015……2016
    (+) Receita total………21,5%……21,1%……21,0%
    (-) Transf. a E. e M……3,5%…….3,5%……3,6%
    ————————————————————–
    (=) Receita Líquida…..18,0%…….17,6%….17,4%
    (-) Despesa total………18,3%…….19,5%….19,8%
    ————————————————————–
    (=) Resultado primário..-0,3%……..-1,9%….-2,4%

    Fonte: Tesouro Nacional

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *