Greve não se faz contra o povo

Carlos Chagas

Bem que o Congresso poderia aprovar uma das leis mais simples do planeta, mas de monumental conteúdo: “É proibido fazer greve ou movimento correlato que prejudique o povo. Revogam-se as disposições em contrário.”

Greve se faz contra patrão, seja ele o poder público ou a empresa privada. O  estado ou o empresário devem sentir no bolso e  na imagem os efeitos da paralisação efetuada por seus empregados ou funcionários.

Não só no Brasil, assiste-se  cada vez mais  a greve e seus filhotes realizarem-se  contra a população. Tome-se o setor dos transportes. Quando motoristas e trocadores de ônibus interrompem o trabalho, as empresas dão de ombros, quando não se encontram estimulando o movimento para pressionar o governo a aumentar as tarifas.  Mas quem se prejudica é o cidadão comum,  aquele que não possui carro e fica impedido de comparecer ao trabalho. Quase sempre justamente indignados pelo desrespeito a  cláusulas trabalhistas ou a  promessas descumpridas, trocadores e motoristas atingem na moleira  a massa assalariada à qual pertencem. Poderiam fazer diferente, ou seja, continuar  circulando, mas  com as catracas abertas, isto é, transportando os passageiros de graça, sem o constrangimento de piquetes, depredações de viaturas e choques com a polícia. Pelo jeito, essa iniciativa não lhes passa pela cabeça. Seria fulminante para o sucesso da greve.

Multiplique-se o exemplo acima por centenas de outros, cada qual, é claro, com suas peculiaridades. Ainda agora  aeronautas e aeroviários lançam-se numa “operação padrão”, ante-sala da greve nos transportes aéreos. Pilotos e comissários de bordo,  no ar, bem como recepcionistas, atendentes e outros, em terra, decidiram cumprir à risca os regulamentos, demorando-se nos procedimentos de vôo e de atendimento nos balcões,  fazendo atrasar e cancelar uma série de viagens, além de entupir   os aeroportos.   Como se já não bastasse a desídia das empresas aéreas, agora são os trabalhadores a aumentar as agruras dos passageiros.

Que alternativa teriam os aeronautas e os aeroviários? Continuar funcionando, mas, quem sabe, ocupando os escritórios das empresas e proibindo seus diretores e proprietários de   ter acesso ao movimento e ao  faturamento? Pode ser, ainda que outras opções venham a  emergir da imaginação dos manifestantes. Tudo,  menos levar os passageiros ao desespero…

TRISTEZA

Quem se dedica a acompanhar os trabalhos do Congresso terá notado,  de outubro para cá, um relacionamento singular entre deputados e senadores.  São tratados com reverência exagerada aqueles que não se reelegeram, pelos que conseguiram mais um mandato. Um certo constrangimento atinge os dois grupos, uns abatidos pela iminência de deixarem o convívio dos outros que parecem pedir  desculpas por terem vencido a eleição. Senão de velório, o clima é de tristeza, atingindo até estrelas  de primeira grandeza. Começaram  as despedidas formais, com discursos  pronunciados nas tribunas  pelos  que,  a partir de fevereiro,  darão outro rumo às suas vidas. Em meio a  apartes plenos de elogios até entre adversários ferrenhos. O fenômeno mereceria uma tese de mestrado ou de doutorado.

ALEGRIA

Não tendo podido candidatar-se  a um terceiro mandato, o presidente Lula aproveita  seus últimos dias de poder esbanjando alegria. Fala mais do que falava antes, coisa que  se não surpreende,  entusiasma seus partidários.  O homem dá mostras de que permanecerá no palco,  e não como coadjuvante. Sem pretender ofuscar a estrela por ele mesmo criada, continuará objeto das atenções gerais. Percorrendo o país, reforçando o PT, dedicando-se a analisar soluções para ajudar países pobres  da África e da América do Sul, impulsionando a reforma política – tudo manterá o Lula ocupado pelos próximos quatro anos. Caberá a Dilma Rousseff acostumar-se sem melindrar-se. E aos veículos de comunicação, criar uma nova editoria para acompanhar o já então ex-presidente.

CONSELHO REPETIDO

Por diversas vezes os principais assessores de Dilma Rousseff devem ter tido vontade de lembrar à presidente eleita a máxima que atravessa a  crônica política desde a proclamação da República:  não nomear  quem não  puder demitir. Ignora-se se  algum deles teve coragem de avançar o conselho, até porque ela deve conhecê-lo. Dos nomes confirmados ou lembrados para o ministério até agora nenhum configurou a situação, mas é preciso aguardar a formação completa da equipe.  O presidente Lula queixou-se, dias atrás, que sua maior dificuldade no governo foi de demitir ministros. Sofreu em cada uma das vezes.  Talvez, para Dilma, não possa vir a ser tão difícil  assim. O temperamento dela é mais rígido, mas vale esperar pela primeira vez em que terá de livrar-se de algum.

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