Guampada de boi manso

Carlos Chagas

Apesar de o Lula já ter declarado mil vezes que a vez é da Dilma e que ela deve ser candidata à reeleição, em 2014, registra-se no PT uma corrente favorável ao lançamento do ex-presidente. A explicação é simples: sustentam esse objetivo os companheiros desiludidos com a expectativa de ocupar o ministério e comandar as decisões políticas e administrativas da presidente da República. Imaginaram tornar-se no mínimo condôminos do poder, para não dizer seus condutores. Quebraram a cara, desde o primeiro dia.

Mesmo dispondo de tratamento especial, o partido é apenas mais um, na aliança que no Congresso dá sustentação ao palácio do Planalto. Ainda mais depois que Antônio Palocci foi defenestrado do governo. Imaginam que com o retorno do Lula voltarão os dias felizes quando realmente mandavam.

Desde a queda de José Dirceu e a ascensão de Dilma à Casa Civil que começaram a desconfiar, mas acreditaram que a presença do antecessor poderia dobrar a futura sucessora. Ledo engano, porque hoje, apesar de funcionar como consultor privilegiado da presidente, o Lula sabe manter a distância necessária para não sufocá-la. Agora, certos quadros buscam a fórmula mais radical, que seria o retorno do chefe.

Dilma não avançou uma palavra sequer, de público, a respeito do segundo mandato. Mas age como se já tivesse sido lançada, claro que com o respaldo do ex-presidente. Seus adversários, no PT, apenas agem para ser identificados, entre governadores, dirigentes e parlamentares insatisfeitos. Por isso, até tentam sabotar ministros e auxiliares palacianos, empenhando-se em criar dificuldades para a presidente.

Ignoram estar sendo detectados, mesmo sem revanchismo por parte dela. Se valesse para Dilma buscar no passado exemplos desse tipo de comportamento, bem como de comentários que poderia fazer, seria bom lembrar o que disse Getúlio Vargas quando soube estar o governador Benedito Valadares conspirando com generais para derrubá-lo: “Guampada de boi manso…”

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DOBRAR, NÃO DOBRA

A poucos dias de assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, o ministro Joaquim Barbosa esforça-se para se manter o mesmo, ou seja, não perder as características de ferrenho e inflexível cultor da lei. Rejeita a hipótese de que, ao acumular a presidência da corte com a relatoria no processo do mensalão, poderia tornar-se mais ameno e até leniente para com os réus. Postura, aliás, mantida pelo ainda presidente Ayres Britto, que entre sorrisos e atenções redobradas para com os advogados dos mensaleiros, vem votando de modo duro e inflexível, concordando sempre com o sucessor na dosimetria praticada.

Numa palavra, Joaquim Barbosa não parece disposto a se dobrar, como Ayres Britto não se dobrou.

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TENTATIVAS INÓCUAS

Nem o deputado Julio Delgado nem o senador Jarbas Vasconcelos mostram-se dispostos a ser lançados como candidatos dissidentes às presidência da Câmara e do Senado. Não tem vocação para mártires e sabem muito bem que, com o apoio do palácio do Planalto, Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros podem considerar-se eleitos.

A concessão da presidente Dilma ao PMDB, que preencherá os dois cargos, envolve mais valores do que a simples renovação do comando do Congresso. Mesmo com o PT alijado, significa a manutenção da aliança estabelecida em 2010 com a dobradinha Dilma-Michel Temer.

O governador Eduardo Campos, uma hipótese futura de embaralhar as cartas, nem de longe pretende interferir nas eleições para as duas mesas parlamentares. Se tiver que quebrar cristais, não será agora.

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