Guanaes confunde cultura com investimento publicitário

Pedro do Coutto

Em artigo que saiu no Caderno Mercado da Folha de São Paulo de terça-feira, o publicitário Nizan Guanaes, cuja tendência, me parece, é a transferir seu êxito pessoal no campo da publicidade para todos os assuntos, fez a apologia da inovação no processo humano, no que está certo, mas errou intensamente ao dizer que o criativo é naturalmente destrutivo. Absurdo completo. Todo processo humano, começa pela cultura, que é a razão da vida, é cumulativo, não substitutivo.

Equivoca-se: projetou seu universo pessoal de ação como modelo a ser seguido por todos. A contradição maior em que caiu, em síntese, foi destacar o caráter axiomático da publicidade sem levar em conta o teorema da existência. A publicidade é axiomática por isso não depende de comprovação prática. A comunicação em geral, inclusive política, é um teorema. Ou seja exatamente o oposto. Da mesma forma que a mágica é o oposto da lógica.

A imprensa surgiu no mundo com a galáxia de Gutemberg, por volta de 1450, mas não acabou com o livro no mundo. Ao contrário. Unificou o Velho e o Novo Testamento, produzindo a edição completa da Bíblia. Não destruiu, e sim democratizou o livro. A impressão em série não apenas assegurou ritmo veloz ao processo cultural, como consolidou o princípio da libertação torrencial da cultura.

A fotografia não acabou, muito menos destruiu a pintura. A Mona Lisa, no Louvre, Paris, continua sendo o quadro mais admirado e visitado do planeta. Foi pintado por Leonardo Da Vinci há pouco mais de 500 anos. Resiste ao tempo, a exemplo da arte que não sensibiliza e motiva Guanaes. O cinema não destruiu o teatro. O rádio não substituiu os jornais e a imprensa.

A televisão não eliminou o cinema. Pelo contrário: tornou os filmes assistidos não por milhões, mas por bilhões de pessoas que não caberiam nas salas de exibição. Agora, cada tela da TV é uma sala particular na residência de cada um e de todos. Nizan Guanaes afirmou que o facebook é a cara do hoje, pelo número de acessos que possui e habilita.

Ora, facebook substituir a cultura e o pensamento? Isso só num jingle de televisão, ou anúncio bem colocado em páginas de jornais. Ai do ser humano e do futuro, se a existência, cujo processo múltiplo e complexo, fosse depender da república do facebook e da insustentável leveza do ser.

O tema cultura, vale lembrar, meses atrás na página que aos domingos ocupa na Folha de São Paulo, foi magnificamente abordado por Ferreira Gullar. Ele provou, de modo irrefutável, que o nosso presente depende sempre de nossa memória. Caso contrário, como poderíamos relativizar nossas opiniões, impressões, conceitos, suposições? Porque – digo eu – cultura é apenas a passagem do ser humano pelo mundo. Seu eco, seu rastro, sua sombra. Suas impressões digitais, como gosta de acrescentar o acadêmico Marcos Vilaça, presidente da ABL.

A inovação é indispensável, como aliás frisou Guanaes no artigo. Mas ela eternamente partirá de quê? Da dúvida. Pois, sem dúvida, não há pensamento e sem pensamento não pode haver progresso. O movimento cultural se auto-realimenta. E para o ser humano, inovar não pode ser sinônimo de arrasar, destruir. Se assim fosse, tantas são as descobertas através dos séculos, que elas já teriam destruído quase tudo. A começar pela ideia de Deus e do que vem depois de nós.

Se a inovação se impusesse, a vida não seria como ela é. Qualquer inovação seria mais importante daquilo que a precedeu. E não é assim. Guanaes falhou ao negar a força eterna do passado e do pensamento.

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