Guerra do Rio, uma batalha no tempo

Pedro do Coutto

O Secretário de Segurança, José Beltrame, que assumiu o comando de fato na guerra do Rio de Janeiro contra o tráfico de drogas e o crime organizado, afirmou que a estratégia é ir ocupando espaços que pertenciam aos bandidos, reduzindo assim suas áreas de atuação, para capturá-los numa outra etapa. O ataque ao reduto Vila Cruzeiro alcançou êxito, a partir do suporte fornecido pela Marinha através de carros de combate que destroçaram as barricadas plantadas na estrada do incentivo ao vício, matriz do terror que angustia a cidade. Mas foi uma etapa da guerra que se iniciou  mais visivelmente. Não a guerra toda. Esta será em esforço no tempo, sobretudo porque foi através de mais de duas décadas que a bandidagem do tráfico se estruturou e cristalizou nos morros cariocas.

Não errará quem afirmar que das 952 favelas existentes na cidade, reunindo pelo menos 2 milhões de habitantes, não existe uma sequer que não se encontre sob domínio do sinistro comércio ou sob o domínio de alguma milícia. Há de existir situações em que os dois vértices se encontram e tocam. A excelente jornalista Dora Kramer escreveu na edição de ontem de O Estado de São Paulo que nos seis últimos dias de novembro travou-se na capital o mais profundo confronto entre a ordem e a desordem, entre o universo legal e o ilegal.

Elogiou a presença das Forças Armadas nos combates, especialmente no cerco e invasão da Vila Cruzeiro. Tem razão, está certa. Porém as raízes que deram margem ao episódio não foram extirpadas. Tampouco serão em prazo curto. Os morros foram crescendo, consequência, é claro de um processo cada vez mais veloz de favelização. De repente, a partir do governo Brizola, início de 83, os bandidos foram se reunindo, ao mesmo tempo dividindo-se em facções, organizando-se, armando-se. Mas possuir armas, apenas não resolvia. Contratando mão de obra especializada, iniciaram treinamentos técnicos para que os criminosos pudessem usá-las. Foi se estabelecendo uma teia de fios de ferro, tão agressiva quanto resistente aos ataques da Polícia militar e também da Polícia Civil.

O governo Sergio Cabral, já com Mariano Beltrame à frente da Secretaria de Segurança, enfrentou o primeiro teste em 2007 na mesma Vila Cruzeiro de hoje e do Complexo do Alemão. A tentativa de ocupação estendeu-se por mais de três meses. Em vão. O panorama permaneceu. A direção da política então passou a mudar. Em vez de uma forte ação policial militar, entraram as Unidades de Polícia Pacificadora. Denominação conservadora, por sinal, já que o tema nada tem a ver com pacificação. Pacificação significa pelo menos um ponto em comum entre duas correntes. Mas em torno de quê? Qual o motivo da convergência? Seja como for, produziu resultados positivos, transmitindo uma sensação de paz. O marketing entrou em cena. Como o povo encontrava-se sob pressão e opressão, a tentativa foi acolhida como uma solução. O engano foi esse. Confundiu-se o temporário com o início de um quadro permanente.

Não poderia resistir às investidas de grupos, tanto a serviço de sua cobiça pessoal, ansiedade fanática, alucinógena, quanto daqueles que lucram com a venda de armas, portanto com o incentivo à comercialização da morte. Se isso acontece no cenário internacional (as guerras estão aí para provar), que dirá no front interno do crime e da marginalidade? A luta no Rio continua, tem que prosseguir. Mariano Beltrame, na linha de frente, não tem mais linha de recuo e apaziguamento. Qualquer sinal nesse sentido realimentaria de forma extraordinária a força do crime e as ações dos criminosos.

Para não dizer sorte, o destino do governo Sergio Cabral foi lançado.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *