Gullar errou: Dilma é um ser humano, Lula outro

Pedro do Coutto

O jornalista e poeta Ferreira Gullar escreveu um artigo domingo passado, no seu espaço semanal na Folha de São Paulo, que não se ajusta à sua vastíssima cultura, tampouco a seu grande talento. Leitor de seus textos, fui surpreendido com a afirmação que, no seu governo, Dilma Rousseff nada fará sem consultar Lula. Gullar confessa ter votado em Serra, talvez neste plano se encontre a razão da afirmativa. Absurda, por sinal. O autor de “A Luta Corporal” e do “Poema Sujo”, obras que o destacaram no plano da arte ao lado de sua participação no movimento neoconcreto de 1956, não podia ignorar a eterna verdade que não existe dois seres iguais na face da Terra. Cada um tem sua visão, suas razões, suas emoções, seus critérios e estilos diferentes. A proximidade entre as pessoas não significa igualdade. O universo seria mais dramático do que já é se fosse assim. Cada um de nós tem suas simpatias e antipatias.

Se isso ocorre na vida cotidiana de nós, que dirá quando os personagens são presidentes da República? Têm a caneta, na realidade o maior instrumento possível do poder. Na peça Ricardo III, Shakespeare escreveu uma frase que ficou na história como símbolo de luta e desfecho: meu reino por um cavalo. O rei se defendia a pé, de inimigos montados. Quatrocentos e cinqüenta anos depois, pode-se atualizar a exclamação impressionista, traduzindo-a para meu reino por uma caneta. A partir de primeiro de janeiro, a caneta encontrar-se-á entre os dedos de Rousseff.

Dilma não vai consultar Lula de forma permanente, Lula sabe e isso tampouco lhe interessa. Aliás muito menos interessa à presidente que assume. Se cada um é uma pessoa, cada um tem a sua equipe. Se esta ficasse a mesma, estaria politicamente descaracterizada a passagem do poder.

Lula – suponho – não deverá sequer ficar no país. Nenhuma nação pode ter dois presidentes, uma na frente do palco, outro atrás dos bastidores. Provavelmente Dilma nomeará Lula, daqui a alguns meses, embaixador do Brasil junto à ONU. Certamente ele desejará tal missão. Esgotada, por enquanto, pelo menos durante quatro anos, sua atuação no cenário nacional, é até natural que as desloque para o teatro internacional. A distância entre Nova Iorque e Brasília o livrará de pedidos e tensões e deixará Dilma mais à vontade para governar.

O poder não se divide, me disse um dia , em matéria para o Correio da Manhã o presidente Juscelino, a propósito de uma questão relativa à sucessão baiana de 1958. Havia ocorrido uma cisão no PSD e outra no PTB, com o grupo de economista Rômulo Almeida opondo-se ao comando do então vice João Goulart. Rômulo queria ser candidato ao governo estadual sucedendo a Antonio Balbino. Não obtendo a legenda, dispôs-se a concorrer a vice de Juraci Magalhães. “Não faça isso”, disse JK. “Você não vai conseguir”. Rômulo, pelo telefone, acentuou que Juraci ficaria com a parte política e ele com a econômica. Juscelino cortou rápido assinalando: “o poder não se divide”.

Almeida perdeu a eleição de vice (naquele tempo era separada). Juraci saiu vencedor. O fazendeiro Orlando Moscoso venceu e se tornou vice-governador. O poder não se divide. Nunca esqueci a frase. Ela me acompanha até hoje quando escrevo sobre política. Poderia dar vários exemplos: Lucas Garcez em relação a Ademar de Barros; Miguel Couto Filho em relação a Ernani do Amaral Peixoto. Prefiro uma lição mais modena. Ernesto Geisel indicou Golberi do Couto e Silva para chefe da Csa Civil de João Figueiredo. Permaneceu apenas quinze meses no posto.

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