Há 45 anos, a ditadura militar baixava o AI-5

Dênis de Moraes

(Blog Ousar Lutar! Ousar Vencer!)

Na fantasmagórica sexta-feira 13 de dezembro de 1968, o cartunista Henfil anteviu a desgraça que assolaria o país horas depois. Em charge publicada no Jornal dos Sports com o aval do editor-chefe, Maurício Azedo, um torcedor desabafa diante da atmosfera irrespirável: “Chega de intermediários! Delegado Padilha para chefe da Seleção!”

Deraldo Padilha, delegado de polícia na extinta Guanabara, era acusado de utilizar os métodos mais truculentos para extrair confissões de presos e perseguir moradores de favelas, homossexuais e prostitutas.

Com a decretação do Ato Institucional número 5, a ideologia da segurança nacional assumiu, por completo, as rédeas da vida nacional. Ao Estado reservava o monopólio da coerção e o controle supremo das atividades sociais, políticas e econômicas. Em dez anos de vigência do AI-5, foram proibidos cerca de 600 filmes, 500 livros, 450 peças, mil letras de músicas, milhares de matérias jornalísticas, dezenas de programas de rádio e televisão, capítulos e sinopses inteiras de telenovelas.

Com a suspensão das garantias constitucionais, milhares de políticos, estudantes, artistas, intelectuais e líderes sindicais foram presos. Fechado o Congresso, foi imposta a censura prévia em veículos de comunicação. Só para dar um exemplo da prepotência: de cada dez cartuns que Henfil desenhava para o Jornal do Brasil, sete ou oito caíam na malha fina dos censores da Polícia Federal. Após o AI-5, a ditadura militar cassou os mandatos de 110 deputados federais, 161 deputados esta­duais, 163 vereadores e 28 prefeitos, além de aposentar compulsoriamente três grandes ministros do Supremo Tribunal Federal, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, professores universitários e cientistas.

JORNAIS

A ditadura aniquilaria o Correio da Manhã, que parou de circular em 1974, após prolongada crise financeira. Vinte e quatro horas após a decretação do AI-5, o jornal O Paiz foi empastelado por grupos paramilitares. O prédio em Copacabana onde morava um de seus editores, o jornalista Joel Silveira, foi cercado por soldados do Exército armados de metralhadoras. Um capitão deu voz de prisão a Joel, que, gripado e com 40 graus de febre, teve a fineza de oferecer um cafezinho ao oficial antes de partirem para o I Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, onde dividiria a cela com o jornalista Carlos Heitor Cony, do Correio da Manhã.

O último número da Revista Civilização Brasileira, baluarte na resistência cultural ao arbítrio, circulou em 22 de dezembro de 1968. Editoras acumularam graves prejuízos com a apreensão de tiragens inteiras de livros considerados “subversivos”. Artistas e intelectuais exilaram-se ou tiveram que redobrar a cautela diante das ondas de prisões, processos e perseguições.

Na noite do AI-5, o poeta Ferreira Gullar aguardava em seu modesto apartamento na avenida Henrique Dumont, em Ipanema, a chegada do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, Vianinha, como ele membro do Comitê Cultural do clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Gullar não teve tempo de escapar. Soou a campainha. Ele dirigiu-se à porta, tenso.

— O senhor é Ferreira Gullar? — perguntou um dos três homens.

— Sim.

— Pois está preso — disse o capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge, depois banqueiro do jogo-do-bicho no Rio e prócer da Liga Independente das Escolas de Samba.

Apavorada, a mulher de Gullar, Thereza Aragão, arriscou perguntar:

— Cadê a ordem de prisão?

— Está ali — disse um dos dois sargentos do Exército que acompanhavam Guimarães, apontando para a TV onde o ministro da Justiça, Gama e Silva, prosseguia na leitura do decreto que oficializava o AI-5.

SEM LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A ofensiva fascistizante desmantelou as formas críticas de expressão, submetendo-as à vigilância policial. Não se tratava mais de conter a produção intelectual em determinados limites, e sim de abortá-la, destruí-la como encarnação do mal. Como bem assinalou José Paulo Netto, saía de cena, à força, tudo o que de mais vivo, criativo e polêmico se alcançara na cultura brasileira na década de 1960 (inclusive na fase pós-1964).

Inaugurava-se o chamado vazio cultural, durante o qual a ditadura procurou ocupar os espaços dinamitados pela repressão patrocinando atividades acríticas e eventos alienantes. O regime avocou para si a tarefa de “preservar a memória nacional”, através de inofensivas obras de recuperação de parte do patrimônio histórico. Não somente liquidou com a hegemonia cultural de esquerda no período anterior, como azeitou a máquina de propaganda oficial para celebrar o “Brasil grande”, fazendo apologia do “milagre econômico” e do consumismo. Era tão sólido o “milagre” que não chegou a durar quatro anos, fulminado pela retração econômica global após a crise do petróleo.

Talvez a maior ironia da era de terror do AI-5 tenha acontecido em janeiro de 1973, quando o general-presidente Emílio Garrastazu Médici se valeu da legislação de exceção para demitir do serviço público o delegado Deraldo Padilha. O Exército nunca o perdoara por um atrito com o general Mozart Moacir, justamente em 1968.

(artigo enviado por Mário Assis)

10 thoughts on “Há 45 anos, a ditadura militar baixava o AI-5

  1. Muito bom artigo. A ditadura emburreceu o Brasil porque perseguiu os preparados e se aliou aos burros ganaciosos. Os ditadores davam cargos, empréstimos, facilidades de todo tipo para quem os apoiassem, que não apoiava o final era a morte, a tortura, o degredo, a pobreza. A sociedade brasileira de hoje foi moldada por aqueles miseráveis destruídores da pátria.

  2. E QUE VOLTE ESSE TAL DE AI-5 E QUE SEJA URGENTE, POIS DA MANEIRA QUE TÁ NÃO DAR MAIS
    PRÁ AGUENTAR!

    NAQUELA ÉPOCA PODÍAMOS FAZER QUASE TUDO, MENOS FALAR MAL DO PRESIIDENTE, HOJE NÃO PODEMOS MAIS FAZER NADA, MAIS PODEMOS FALAR MAL DO PRESIDENTE. EXEMPLO:

    – PODÍAMOS NAMORAR DENTRO DO CARRO ATÉ A MEIA NOITE SEM PERIGO DE SERMOS ASSALTADOS OU MORTOS POR BANDIDOS – HOJE NÃO PODEMOS MAIS;

    – PODÍAMOS TER O INPS COMO O ÚNICO PLANO DE SAÚDE SEM MORRERMOS A MÍNGUA NOS
    CORREDORES DOS HOSPITAIS – HOJE NÃO TEMOS MAIS;
    – PODÍAMOS COMPRAR ARMAS E MUNIÇÕES À VONTADE, POIS O GOVERNO SABIA QUEM ERA
    CIDADÃO DE BEM OU BANDIDO E/OU TERRORISTA, HOJE NÃO SABEMOS E NÃO PODEMOS MAIS;

    – PODÍAMOS PAQUERAR A FUNCIONÁRIA, A MENINA DAS CONTAS OU A RECEPCIONISTA SEM
    CORRERMOS O RISCO DE SERMOS PROCESSADOS POR ASSÉDIO SEXUAL, HOJE NÃO PODEMOS
    MAIS;
    – PODÍAMOS TOMAR A NOSSA REDENTORA CERVEJA, ANTES DE IRMOS PARA CASA DIRIGINDO O NOSSO CARRO E APÓS 10 HORAS DE DURO EXPEDIENTE PARA RELAXAR, SEM O RISCO DE SERMOS
    JOGADOS À VALA DE DELINQUÊNCIA, SENDO PRESO POR ESTARMOS ALCOOLIZADO, HOJE NÃO
    PODEMOS MAIS.
    – PODÍAMOS PODAR A GOABEIRA DO QUINTAL DA CASA, EMPESTADA DE TATURANA, SEM CORRER-
    MOS O RISCO DE SERMOS PROCESSADOS POR CRIME AMBIENTAR. HOJE NÃO PODEMOS MAIS.
    – PODÍAMOS IR A QUALQUER BAR OU BOATE, EM QUALQUER BAIRRO DA CIDADE, DE CARRO, DE
    ÔNIBUS, DE BISCICLETA OU ATÉ MESMO A PÉ, SEM NENHUM MEDO DE SERMOS ASSALTADOS, SE-
    QUESTRADOS OU ASSASSINADOS. HOJE NÃO TEMOS MAIS ESSA LIBERDADE. E OUTRAS COISAS MAIS.

  3. A ditadura já acabou com os atos 5 e outros.
    Agora estamos em plena ditadura da esquerdinha com atos 6, 7 8 por baixo do pano por esse governo que está aí há mais de 11 anos.
    O livo de Tuminha comprova essa situação. Dossiês Caymans, operação condor petista que entregou atletas cubanos ao ditador Fidel. Tudo com Tarso genro por tras, etc,etc,etc
    E a luta insana que o governo do PT tem empenhado para censurar a imprensa?
    Acorda Brasil, a ditadura militar já acabou há 50 anos.

  4. A ditadura, organizou previamente o futuro do país, certificando-se que após a ,ditadura, não
    mais existissem lideres nacionalista. Deixaram para o país personagens como: Sarney, Color,
    FHC, Lula, Dilma e os futuros candidatos.

  5. O senhor é Ferreira Gullar? — perguntou um dos três homens.
    — Sim. Pois está preso — disse o capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge, depois banqueiro do jogo-do-bicho no Rio e prócer da Liga Independente das Escolas de Samba.

    O parágrafo acima, recortado da matéria, é importante porque mostra que o crime organizado começou com a ditadura. A ditadura brasileira é o pai e a mãe do Brasil bandido de hoje. Os filhotes da ditadura lembram do passado com saudade. Eram apadrinhados, o melhor era para eles. Agora, aqueles filhotes não têm mais os privilegios que tinham, sentem ódio por isso. Aquela classe média defensora da ditadura,hoje, disputa emprego com cidadãos das comunidades. Isso é demais para eles querem a ditadura de volta para se dar bem, como no passado. A ditadura do Brasil é um caso de polícia. A comissão da verdade está aí para revelar quem foram aqueles torturadores mentirosos, os verdadeiros culpados pela desmoralização social brasileira.

  6. O mesmo Ferreira Gullar, como todos nós fomos contra à ditadura militar, hoje resiste a essa neo-ditadura petista que estamos vivendo – (o livro de Tuminha já está aí para comprovar as práticas desse governo, no qual ele conhece por dentro) – e do pensamento único que grassa por aí pelos esquerdinhas da vida, que acham que, quem não for igual a eles, é a favor da ditadura militar. Ditadura que já se foi há tempos e que, infelizmente, deixou essa herança maldita para esses oportunistas vermelhos usarem como argumento para estabelecer a deles.

  7. Comentário corrigido:

    O mesmo Ferreira Gullar, como todos nós que fomos contra à ditadura militar, hoje resiste a essa neo-ditadura petista que estamos vivendo – (o livro de Tuminha já está aí para comprovar as práticas desse governo, no qual ele, como autor, conhece por dentro) – e do pensamento único que grassa por aí, pelos esquerdinhas da vida, que acham que, quem não for igual a eles, é a favor da ditadura militar. Ditadura militar que já se foi há tempos e que, infelizmente, deixou essa herança maldita para esses oportunistas vermelhos usarem como argumento para estabelecer a deles.

  8. Naquela época, esperávamos que Julinho da Adelaide lançasse suas canções para decifrarmos o que tinha a dizer. Muitos de nós adorávamos (silepse de pessoa) aquela fina ironia.
    Entretanto, um dia veio a ditadura da maioria e Julinho hoje é execrado. Ainda bem que pensou no que viria e lançou “Geni e o Zepelim”. Lennon diria: “Um rei sempre acaba morto por um de seus súditos” (tão profeta quanto).

  9. Como o Brasil não tem memória,será que já esqueceram que os militares ficaram vinte anos no poder das grandes companhias deste país,se lambuzaram todos com o poder ,destruíram a educação,tecnologia,saúde, acabaram com o principal que é a liberdade.Esqueceram, que qualquer grande empresa deste país, de que ramo fosse teria que ter de fachada um coronel ou um general.Eles conseguiram aniquilar eles próprios ,pois não conseguiram fazer nunca mais uma cabeça pensante,nem no Exército,marinha ou Aeronáutica.Hoje infelizmente por castigo nem refeições dignas nos quarteis os mesmos tem.Essa ditadura só serviu para alguns superiores, os subalternos continuam por ai,chorando por melhores salários. O que me entristece é alguns terem coragem de dizer que tem saudade dessa revolução fajuta.

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