Há 50 anos: pantomima ou tragédia? (I)

Carlos Chagas                                                    

Há precisamente 50 anos, no início de agosto, começaram a girar as rodas da insensatez. Claro que o motor estava ligado faz tempo, talvez antes mesmo da posse do então presidente Jânio Quadros. Pelo menos por duas vezes ele havia encenado a farsa da renúncia e obtivera sucesso: quando governador de São Paulo, em choque com  a Assembléia Legislativa, redigira carta  abrindo mão de seu mandato, que não enviara mas tinha  mostrado a  diversos auxiliares. Deu certo, os deputados recuaram. Depois, já candidato presidencial, renunciou mesmo, levando a UDN a retirar o  seu  vice, já lançado, Leandro Maciel, substituído por Milton Campos.

Eram ensaios-gerais para o grande golpe engendrado sabe-se lá desde quando. Renunciando à presidência da República e retornando nos braços do povo, obteria o resultado final, de voltar com plenos poderes, com o Congresso posto em frangalhos, senão fechado.                                                         

Afinal, a manobra havia dado certo com dois de seus maiores ídolos na política internacional, Gamal Abdel  Nasser, do Egito, e Fidel Castro, de  Cuba. O primeiro, depois de perder outra guerra para Israel, retirara-se para as proximidades do Cairo, onde o povo foi buscá-lo para continuar liderando o país. O outro, primeiro-ministro, bateu de frente com o presidente da República escolhido por ele mesmo e, para tornar-se ditador, pulou fora. A  multidão foi à sua casa,  botando o presidente para correr.                                                         

Havia um detalhe que Jânio ignorou ou desconhecia. Em ambos os casos, tudo tinha  sido preparado milimetricamente, com os coronéis egipcios sabendo de ante-mão o que fazer  e até mobilizando uma frota de  ônibus para levar os populares ao apelo pela  permanência de Nasser. Assim como fizeram  os barbudos dispostos em volta de Fidel e dominando todos os quartéis de Havana.   As duas manifestações não tinham sido propriamente expontâneas.                                                       

O singular é que o presidente eleito com a maior votação registrada no país, seis  milhões de votos, não quis dividir a preparação do golpe com  ninguém: nem militares, nem políticos, muito menos líderes sindicais ou  empresários. Nada ficaria devendo nem se tornaria prisioneiro de categoria alguma.                                                        

Uma exceção ele se permitiu: na primeira semana de agosto, almoçando com a mulher e a mãe, no Alvorada, disse que no final do mês iria renunciar. Um garçon esperto ouviu mas nem ligou, assim como as duas senhoras, estas por já conhecerem  as peculiaridades psicológicas  do marido e filho.                                                        

Faltava botar as engrenagens para funcionar. O vice-presidente João Goulart estava  agastado com a formação de comissões de inquérito para investigar denuncias de corrupção nos feudos do PTB, os institutos de previdência social. Assim, participou a Jânio que viajaria para China Comunista, em caráter particular, atendendo a convite do governo de Pequim. Era o que faltava. Imediatamente o presidente abriu-se em sorrisos e impôs que a viagem teria de ser oficial. Jango partiria como enviado do governo brasileiro, com farta comitiva e ajuda de custo.                                                        

Aproximava-se o climax. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, encontrava-se em franca  oposição à política externa de Jânio, voltada para o Terceiro Mundo e para o Bloco Socialista. Passava por dificuldades administrativas e pessoais, com seu jornal, a Tribuna da Imprensa, perto da falência, e sua popularidade em baixa, ofuscada pelo presidente da República.  Só que o episodio da mala viraria tudo de pernas para o ar.                                                         

Acontece que convidado pelo presidente para vir a Brasília, conversar sobre suas diferenças  e obter algum tipo de ajuda para o seu jornal, o governador desembarcou no começo da noite do dia 19, recebido no aeroporto pelo chefe da Casa Militar, general Pedro Geraldo, e levado em carro oficial ao Alvorada. Lá, o mordomo João Ermínio o acompanhou  aos aposentos especiais e até desfez a pequena mala, botando o pijama debaixo do travesseiro,  a escova de dentes e o aparelho de barba no banheiro, ao tempo em que  informava o visitante de que,   infelizmente,  ele teria de jantar sózinho, pois o presidente já jantara, ao contrário do combinado.

Mesmo assim, Jânio sentar-se-ia  à mesa, como fez. Coisas de gente excentrica. Depois de breve refeição e interessado em conversar a sério com o anfitrião, com tantos temas em pauta, surpreende-se o governador com o convite para descerem à sala de cinema, quando assistiriam a um filme de faroeste. Conversariam depois.                                                        

O inexplicável é que enquanto  mocinhos, bandidos e índios trocavam tiros, e os dois, nenhuma palavra, toca o telefone. Jânio atende e logo depois propõe: “era o Horta (ministro da Justiça), que quer trocar idéias com você. Um carro está esperando para levá-lo ao apartamento dele, quando voltar, conversaremos”.                                                       

Meio espantado, Lacerda ainda diz ter vindo a Brasília para conversar com ele, Jânio, não com o Horta, mas por educação atendeu às instruções. Foi. Na sala do apartamento  jantavam Horta, Santiago Dantas e o jornalista Carlos Castelo Branco. O ministro  pede licença e leva Lacerda para o quarto de dormir, onde em torno de uma garrafa de uísque, demora-se em considerações sobre a impossibilidade de o país  ser governado com aquela Constituição. Pede até que Lacerda lhe mande cópias de artigos escritos anos antes, quando pregava o estado de exceção.                                                         

Disse o governador, em suas memórias, haver ficado surpreso e indignado, mas não terá  sido bem assim.  Golpista empedernido, até gostou, como Horta comentaria anos mais tarde. (continua amanhã)

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