Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode alcançar a nossa vã filosofia. A floresta petrificada, mas não intimidada ou assustada. (Fábula quase real de Helio Fernandes)

Era uma vez (as histórias de fadas não começam assim?) uma floresta gigantesca, escura como breu, habitada por um povo bom e esperançado, mas dominada por um grupo colossal de ladrões, por curiosa coincidência, na maioria estrangeiros.

Os ladrões roubavam tudo na floresta, inquietavam seus moradores, assaltavam as mulheres, implantavam o pânico e o terror. A situação levou muito tempo assim, aparentemente sem solução. Tudo o que a floresta possuía, tudo o que ela produzia, era roubado e carregado pelo grupo que a dizimava.

Enquanto isso, os habitantes da floresta empobreciam a olhos vistos, ficavam cada vez mais miseráveis, mas não tinham coragem de reagir, pois não possuíam armas, tudo o que existia na floresta gigantesca estava em poder dos ladrões.

Mas um dia, tudo amanheceu diferente. Os ladrões foram expulsos, as mulheres desfilaram eufóricas, a floresta se engalanou, os passarinhos cantaram mais alegres, tudo mudou. Os ladrões não reagiram, a esperança renasceu em todos, as mulheres vieram às ruas com os filhos, os homens receberam promessas fantásticas, tudo se transformou um sonho tão grande quanto a própria floresta, tão bom quanto a bondade daquele povo, tão gigantesco quanto o coração generoso e viril de um povo bem-aventurado.

E a nova administração começou a cuidar da floresta. Os novos homens se apresentaram. A princípio muito tímidos, respeitadores, bem intencionados, mas confundindo muito legislar com administrar, estatizar com nacionalizar, integrar com entregar. E deram de legislar que foi uma barbaridade, enquanto a administração parava, o governo ia se apossando de tudo, mas estranhamente todas as árvores e todos os frutos colhidos nessa floresta iam beneficiar privilegiados senhores estrangeiros.

O tempo foi passando. E a floresta se inquietando. E os empregos foram desaparecendo. E os homens foram se empilhando nas portas das poucas fábricas. E as crianças, como antes, choravam por leite. E as filas de tudo (nunca vistas) foram surgindo. E o dinheiro foi sumindo. Até o ponto em que um humorista sério chegou a dizer que cada vez sobrava mais mês no fim do seu salário.

Depois, as riquezas da floresta foram sendo roubadas da mesma maneira de antes e com o mesmo descaramento. É verdade que agora o dono da floresta não roubava, como os outros. O de agora era risonho e incorruptível. Mas seus empregados, pelo menos alguns deles, tinham a mesma sede de dinheiro dos anteriores.

Havia apenas uma diferença. Antigamente, os donos da floresta queriam industrializar a pobreza, estabelecer a desesperança definitiva, pois isso é que servia aos seus interesses. Quando o povo estivesse entregue à mais terrível e total das pobrezas, seria fácil roubar suas riquezas, levá-las do Centro da floresta para o Leste.

Agora as riquezas estavam sendo levadas da mesma maneira, mais iam do Centro para o Ocidente. A verdade é que, de uma forma ou de outra, a floresta empobrecia. E o que lhes interessava não era só se livrar de um grupo para cair nas mãos de outro. O que eles queriam era trabalhar, era crescer, era prosperar. Era produzir. Se não recebessem auxílio de fora, melhor, cavariam as riquezas com as próprias mãos, Deixariam de comer duas vezes ao dia, comeriam apenas uma, poupariam alguma coisa para que aquela floresta gigantesca, que lhes pertencia por conquista e por herança, continuasse a lhes pertencer pelo trabalho e pela devoção à terra.

Queriam que seus filhos fossem ricos. Exigiam seu direito de serem livres. Queriam que seus filhos tivessem pão e liberdade, pão e educação, pão e discernimento. E uma certeza tão grande no seu destino e no seu futuro, que nada pudesse abalá-los ou demovê-los.

Não tinham predileções pelo Leste ou pelo Oeste, não tinham ódio a ninguém. Estavam mais interessados em trabalhar do que em geografia. Doía-lhes ver a floresta produzir para enriquecer os outros, quando podia e devia produzir para enriquecer os próprios filhos.

E começou novamente a gritaria. A floresta ficou petrificada. Estarrecida. Alucinada. Mas não intimidada. E a gritaria crescendo. E ninguém identificando os seus gritos verdadeiros, não admitindo que pudesse haver por trás deles, por trás de uma natural e compreensível mistificação, o grito angustiado e angustiante dos que amavam sinceramente a sua floresta e que só queriam vê-la como a maior floresta do mundo, habitada pelo povo mais rico do mundo, com as crianças mais saudáveis e alegres do mundo, com um povo trabalhador e satisfeito, com suas riquezas exploradas pelos seus próprios habitantes, sem que continuasse aquela humilhante procissão de sempre com 150 milhões de habitantes explorados por aventureiros de todas as latitudes.

Muitos não compreenderam isso. Outros se equivocaram. A maioria se corrompeu. Armou-se a confusão. Amigos se chocaram contra amigos. E o inimigo pôde mais facilmente agir para ainda mais facilmente carregar as riquezas da floresta.

E então, na noite triste de uma madrugada, que deveria ser cinzenta mas era apenas pardacenta e enevoada, cometeram o equívoco dos equívocos e jogaram a floresta na confusão, no silêncio sinistro e na escuridão total. Ninguém mais se entendeu. Os que queriam salvar as riquezas da floresta, que criminosamente eram levadas para Leste e que não quiseram concordar também com o fato dessas riquezas serem levadas agora para o Ocidente, foram silenciados e colocados no mesmo pé de igualdade com alguns traidores.

Protestar contra o roubo passou a ser crime. Denunciar criminosos, uma ignomínia. Revelar negociatas, uma coisa estarrecedora. Pensaram em tudo, menos no povo que habita essa floresta. Menos nas suas necessidades, no seu destino, nas suas aspirações. Confundiram a ânsia de libertação do povo que habitava essa floresta e passaram a classificar todos como subversivos, mesmo que a única subversão que eles conhecessem fosse a subversão da pobreza, que sujeita todos ao mais cruel dos nivelamentos: o nivelamento pela miséria coletiva.

Essa fábula deveria terminar aqui. Mas não termina, Pois a floresta novamente está engalanada, uma nova primavera está sendo saudada. Primavera? De tanto esperar, de tanto acreditar, de tanto sofrer, o povo dessa imensa floresta saúda qualquer modificação como uma nova esperança, uma primavera de verdade, mesmo que no fundo dos seus corações acredite ou tenha mesmo certeza de que nada vai mudar. Se não mudou até agora, por que iria mudar? – gritam alguns dos mais desesperados moradores dessa floresta.

De qualquer maneira, a floresta espera. Mais angustiada, mas espera. Mais cética, mas espera. Mais pobre, mas espera. Mais desesperada, mais desesperançada, mais desencorajada, mas espera. A floresta não pode desaparecer de uma vez por todas, seu destino tem que ser grandioso e feliz. Não é possível que a omissão de muitos, o medo de quase todos, a subserviência de tantos, tornem a floresta praticamente inabitável.

O povo dessa floresta é tão bom, tão correto, tão trabalhador, que está até sendo subestimado. A floresta é grande, o povo disperso, mas essas duas forças chamadas povo e opinião pública costumam desmanchar muitas combinações. O povo não é nenhum computador que reage exatamente como se espera. Ou melhor, povo e computador eletrônico têm um dado em comum: ambos precisam ser alimentados para reagir segundo a expectativa. E privilégios, vantagens e favores não têm nada a ver com a alimentação do povo, que está faminto e à beira do desespero.

Para os habitantes dessa floresta é novamente primavera. Será uma outra primavera de sofrimentos, de miséria, de subalimentação, enquanto uns poucos se banqueteiam com o produto do trabalho da imensa multidão que habita essa floresta?

Se fosse apenas uma fábula, ela poderia terminar aqui. Mas como é uma fábula quase real, a imaginação tem que ceder a vez à realidade. E é essa realidade que começa, ou melhor, que recomeça, que os habitantes da floresta procuram antever desesperadamente, afastando nobremente a lembrança de um sofrimento que parece se eternizar. Será mesmo primavera na floresta em flores, ou a primavera se transformará novamente em inverno, e as flores servirão apenas para amortalhar os sonhos de conquista de um povo que nasceu livre, destinado a ser forte e independente, mas  vegeta na maior pobreza?

***

PS – Este artigo-reflexão foi escrito em julho de 1978, num avião. Eu estava na Copa do Mundo da Argentina. Telefonaram do jornal: “Acabou a censura”. Sexta-feira. No sábado o Brasil jogaria contra a Áustria para ver se passava para a segunda fase.

PS2 – Resolvi ver o jogo, (Brasil 1 a 0) viajar no domingo. Antes dei entrevista AO VIVO para a Rádio Jornal do Brasil, embarquei, sentei, comecei a escrever.

PS3 – Agora, “apenas” 32 anos  depois, tudo desenganadoramente pior. (Temos que confessar). Não seguimos o Padre Lebret, tivemos medo de correr riscos. Não partimos, a floresta é ainda petrificada. Só que ao contrário de antes, intimidada, assustada, acovardada.

PS4 – E mais do que isso tudo, desesperançada. Como não estar, se outubro é primavera, a floresta se cobre de flores, mas não de alegria e determinação? E sim de desânimo, tristeza e a certeza de que não somos e não seremos felizes.

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