Há monstros nos serviços secretos de inteligência

Pedro do Coutto

Ótima a matéria de Cristina Fibe, correspondente da Folha de São Paulo em Nova Iorque, sobre a série de reportagens do Washington Post a respeito dos monstros e sombras que habitam os porões dos serviços secretos de inteligência. O Post concentra-se mais, é claro, nos Estados Unidos, mas estende sua pesquisa em torno do que emerge da espionagem russa e inglesa.

Em todos os casos, as indagações transformam-se em mergulhos no abismo da percepção humana. Nos EUA, trabalham 854 mil pessoas nos rumos de acesso a arquivos de alta confidencialidade. Basta alguém falhar e todo um sistema pode cair por terra. E falhará. Porque – ninguém explicou concretamente até hoje, nem Freud – porque não existe garantia de um segredo resistir a pouco mais de um mês. Alguém falará. Passar uma informação é um impulso que só encontra paralelo no sexo. Aliás do sexo, a história comprova, saem sempre revelações preciosas. É da espécie humana. Homens e mulheres não são robôs. Têm emoções. Uma delas a de passar um conhecimento à frente. Ou ao lado.

Na América do Norte, narra Cristina Fibe, existem 1271 organizações estatais a serviço da inteligência e, como se isso não fosse suficiente, 1931 empresas privadas igualmente especializadas atuam no setor. Todas trabalham para o governo.

O orçamento para atividades de inteligência, para este ano, eleva-se a 75 bilhões de dólares. Quase três vezes mais do que se gastava antes do 11 de setembro de 2001, o maior atentado da história. De todos os tempos. Uma tragédia praticada por assassinos alucinados. Na minha opinião, ainda na foi – talvez não seja nunca – contada toda a verdade sobre as explosões no World Trade Center, edifício mais alto do que o Empire States, que, em companhia de Elena, minha mulher, e minhas filhas Tatiana e Vanessa, visitei na década de 90. Mas esta é outra questão.

O fato é que há, e haverá sempre, monstros e sombras, além de enigmas nos subterrâneos dos serviços de inteligência, informação secreta e espionagem. Como os diamantes são eternos, e os desencontros também, existem muitos agentes duplos e até triplos infiltrados nos vários lados da noite. Philby, por exemplo, era um agente inglês, na época da guerra fria, a serviço tanto dos EUA quanto da antiga União Soviética. Um exemplo que se transformou em livro e num filme de sucesso. Fascinante narrativa, fascinante o mistério e o risco a que sempre estão expostos os pesquisadores da penumbra. Dos espiões em tempo de guerra, dos agentes da espionagem industrial e científica. Pensemos, por exemplo, no que aconteceria se o serviço secreto alemão, na segunda guerra, tivesse descoberto o segredo da bomba atômica – Projeto Manhattan – chefiado, diante da recusa de Einstein, pelo ítalo americano Enrico Fermer e integrado por cientistas como Oppenheimer? Uma catástrofe.

Os serviços de inteligência estão sempre a um passo de uma grande descoberta. Mas seus integrantes, falíveis como todos os seres humanos, às vezes caem em armadilhas. Indispensável distinguir uma informação de outra. Só por sensibilidade. E o perigo se estende aos governos aparece quando o informante nada tem a informar, mas teme perder o emprego. Aí inventa. Aconteceu muito no Brasil com o SNI, época da ditadura militar que começou em 65 e acabou em 85. A informação falsa, ou romanceada, é um risco as mais em todo esse labirinto de sombras que o Washington Post e a Folha de S. Paulo começam a percorrer e desvendar. Imperdível.

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