Há um conflito enorme entre as falas de Mendonça e seus atos quando esteve no governo

André Mendonça persegue imprensa

Charge do Duke (domtotal.com)

Míriam Leitão
O Globo

Estou com dificuldade de reconhecer no novo ministro do Supremo a mesma pessoa que foi ministro da Justiça e Advogado Geral da União no governo Bolsonaro. O que André Mendonça prometeu na sabatina é diferente do que fez quando ocupava estes cargos. Há uma desconexão entre o que apresenta hoje e o que fez no passado.

Por exemplo, a defesa forte da democracia e a rejeição a qualquer sistema ditatorial contradizem com o apoio a um presidente, a quem ele definiu como “profeta”, e que tem sido defensor do governo militar.

ESTADO LAICO? – Ele defendeu o estado laico, mas foi indicado ao cargo por ser “terrivelmente evangélico”. Segundo o presidente Bolsonaro, ele teria se comprometido a fazer orações antes das sessões no Supremo. Agora Mendonça disse que não cabe fazer esse tipo de mistura. “Na vida, a Bíblia. No Supremo, a Constituição’, disse.

Mendonça usou o argumento de que a igreja Presbiteriana, à qual ele pertence, nasceu da reforma protestante, que teve a separação do estado e igreja como um dos seus princípios. Isso é verdade. Mas ele tem feito parte das lideranças evangélicas que têm na prática revogado esse princípio. Inclusive seus lobistas foram os pastores evangélicos.

Todas as religiões merecem respeito, e no Supremo há católicos, judeus ou pessoas sem qualquer religião, mas o problema começa quando o julgamento é induzido por conceitos religiosos e não constitucionais.

LEI DITATORIAL – Mendonça nega que tenha perseguido jornalistas, mas abriu processo com base na Lei de Segurança Nacional contra vários, inclusive Ruy Castro. Mendonça alega que a LSN estava em vigor na época e que o presidente foi ofendido em sua honra.

O problema é que esta lei é velha, do tempo da ditadura, e foi ignorada pelos outros AGUs que o antecederam quando os ex-presidentes foram criticados.

André Mendonça usou a seguinte estratagema diante de assuntos polêmicos: dizia que não poderia falar porque, se aprovado, pode vir a julgar e não quer ser declarado impedido.

ESTRATAGEMA – Ao ser perguntado pela senadora Eliziane Gama – a primeira mulher a relatar um candidato a ministro do Supremo – sobre a questão do armamento, disse que não poderia dar declarações porque pode vir a julgar no STF.

Respondeu o mesmo quando questionado sobre o marco temporal das terras indígenas.

As palavras contrariam seus atos, mas com as palavras ele tem sido bem habilidoso e, por isso, foi facilmente aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e depois no plenário, com seis votos de folga.

7 thoughts on “Há um conflito enorme entre as falas de Mendonça e seus atos quando esteve no governo

  1. Meu conceito de honestidade intelectual:
    Uma charge onde Fidel Castro fala para um revolucionário, dá um tiro na cabeça daquele jornalista ali.
    Nos países comunistas os jornalistas não estão com essa bola toda, os ditadores se encarregam e enviá-los “aos costumes”.

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