Haddad criou uma odisseia no espaço para os alunos

Pedro do Coutto

O ministro da Educação, Fernando Haddad, que conseguiu sucessivamente criar odisseias no espaço cibernético para 123 mil alunos que concorrem a bolsas de estudo através  do Exame Nacional de Ensino Médio e do Sistema de Seleção Unificada, em vez de apenas anunciar a demissão de Joaquim Soares Neto da presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, Inep, deveria começar por pedir ele próprio sua demissão.

Afinal, o problema não foi só o Inep que falhou no ano passado e novamente em 2011. E sim do MEC que se revelou inepto para resolver questões de extrema simplicidade. A reportagem de Demétrio Weber e Lauro Neto, edição de O Globo de 18, aliás excelente, revelou toda dimensão do desastre. Inclusive é acompanhada por uma foto aberta em três colunas focalizando Haddad ao lado de Soares Neto, assim como se expusesse publicamente um culpado além dele, titular da pasta.

Essa não. Da mesma forma que o poder não se transfere, a culpa tampouco. Se tivesse que afastar Soares Neto do Inep, Nelson Haddad deveria tê-lo feito na crise do final do ano passado. Agora foi tarde demais. Os prejuízos impostos aos estudantes – cento e vinte e três mil – já foram enormes em matéria de tempo perdido e desgaste nervoso. Além do mais, Demétrio Weber e Lauro Neto revelaram, houve violação de sigilo, acesso indevido, por parte de estudantes, a dados pessoais de outros, um abismo em matéria de desorganização. O estudante Caio Henrique Figueiredo, por exemplo, inscreveu-se com opção para dois cursos da UFRJ. Muito bem. Seu nome foi remetido à disputa de vagas na Universidade de Ouro Preto, Minas Gerais, e São Carlos, São Paulo.

No filme de Stanley Kubrick, o piloto, para consertar um defeito na nave espacial, tem de enfrentar o computador Hall, que lutava para bloquear seu acesso à rede de controle. Isso em 1969. Agora, em 2011, os alunos para realizarem sua viagem no espaço cibernético em busca de oportunidades de ensino, uma obrigação do ME, têm que enfrentar o próprio Ministério da Educação. O problema será de difícil solução, já que 600 mil estudantes se inscreveram na busca de 123 mil vagas e os prejudicados pela descoordenação coordenam-se agora para uma nova aventura espacial. Esta não mais nas telas das universidades mas nas teias da Justiça.

A questão é das mais complicadas, uma vez que as provas do abismo não estarão disponibilizadas  para consulta e assim para a respectiva comprovação. Mas algo terá que ser feito, ou melhor, refeito, uma vez que os estudantes classificados (para as bolsas) não podem sofrer o prejuízo enorme de perdê-las em face de uma desorganização para a qual, inclusive, em nada contribuíram. Afinal de contas, não se pode cometer o extremo absurdo de transformar as vítimas em culpados.

O ministro Fernando Haddad, que a presidente Dilma Roussef relutou em manter no posto, com mais esse episódio negativo ficou com sua posição ainda mais abalada e dificilmente poderá superar o desgaste e firmar-se definitivamente no MEC. Não revelou a firmeza indispensável ao desempenho do posto e procurou passar toda a culpa a Joaquim Soares neto que pode ter errado, mas não errou sozinho. Ninguém sozinho, a não ser o próprio titular da pasta, é capaz de cometer erros tão grandes em série. Foi o que aconteceu, nem tanto por ação, mas principalmente por omissão.

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