Helio Costa erra ao desafiar Aécio em Minas

Pedro do Coutto

Na campanha eleitoral que se desenrola sem dúvida duas figuras sobressaem em matéria de popularidade e prestígio político: o presidente Lula no plano nacional, Aécio Neves na esfera de Minas Gerais, segundo colégio eleitoral do país em termos de votos. Por esta razão, José Serra, entrevistado por William Bonner e Fátima Bernardes no JN da Globo, noite de quarta-feira, evitou qualquer agressão a Lula, preocupando-se em mostrar que é mais qualificado para continuar e até ampliar os êxitos do governo, corrigindo falhas que assinalou.

Enquanto isso, na entrevista a Vinicius Mota, Júlio Veríssimo, Valdo Cruz e Paulo Peixoto, publicada quinta-feira na Folha de São Paulo, Hélio Costa fez exatamente o contrário em relação ao ex-governador mineiro. Atacou Aécio Neves, chamando-o ao debate com a afirmação que a ele faltou coragem para ser candidato a presidente da República, deixando portanto o espaço que foi ocupado por Serra.

Aécio rebateu em cima na mesma edição da FSP. Na frente das pesquisas, tanto na do Datafolha, quanto na do IBOPE, Hélio jogou para polarizar o confronto convocando Neves para o centro da arena. Foi um erro. Aécio tem 70% das intenções de voto para senador, seguido por Itamar Franco, que está com 41 pontos.

O que Hélio Costa, que tem vantagem sobre Antônio Anastasia de 39 a 21%, vai causar? Em vez de manter o clima ameno da campanha, no qual está levando a melhor, vai fazer com que Aécio redobre seu apoio a Anastasia. Atirou portanto no próprio vulto. Costa disse que Neves deveria ter se transferido do PSDB para o PMDB, pois assim teria o apoio do presidente da República. Aécio respondeu dizendo que não pratica o oportunismo político. Daqui para frente a luta em Minas vai se intensificar.

Aliás, diga-se de passagem, o embate político em MG pode ser dividido em duas etapas: antes e depois das entrevistas de Antonio Anastasia e Hélio Costa à Folha de São Paulo. Os reflexos serão maiores do que possa se observar à primeira vista. Acontece  muito isso nos embates partidários. Anastasia, como escrevi, abriu uma dissidência no PSDB ao defender o voto “Dilmasia”, Dilma para presidente, ele para governador. Hélio Costa acordou um tigre pretendendo enfrentá-lo diretamente. Causou exatamente o efeito contrário do que lhe interessaria. Motivou mais Aécio no empenho para eleger o atual governador, que chegou a esta posição porque foi vice eleito automaticamente com ele em 2006.

No próximo dia 17, começa a propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Aécio ganhou mais motivação para tentar manter seu vice ao Palácio da Liberdade, tornando-o governador efetivo. Para tal tarefa, certamente vai procurar estender o leque de alianças convocando os dissidentes do PT que desejavam disputar o governo estadual com Fernando Pimentel, mas não puderam por ação direta de Lula. Pimentel está em terceiro nas pesquisas para o Senado com 23% das intenções de voto.

Aécio não tem motivo para se empenhar por Serra, já que a derrota do tucano o deixará sozinho na posição de maior figura do PSDB, tornando-se uma sólida alternativa para 2014. Mas pelo mesmo motivo, possui motivos de sobra para apoiar Anastasia. Elegendo-o governador, terá assegurada uma forte base partidária para a sucessão presidencial de daqui a quatro anos. Na política, como na vida, os episódios nunca se encerram em si mesmos. Apresentam sempre desdobramentos, reflexos, conseqüências. A diferença é que na política o palco é público. Na vida particular, as cenas sucedem-se entre quatro paredes, como na famosa peça de Sartre. Hélio Costa equivocou-se.

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