Helio Fernandes e a busca da justiça. Temo que o Brasil só perceba que perdeu um de seus últimos gigantes quando for tarde demais.

Fernando Pawlow

O artigo de Diego Iraheta sobre Abdias do Nascimento  no site Brasil 247 faz pensar sobre a tradição brasileira de desprezar nossos grandes para depois cobri-los de reverências e mesuras no cemitério, ou nem isto. A “cobertura” da morte do líder negro, como nota o tributo de Iraheta, o confirma.

Vejam Helio Fernandes, o decano dos jornalistas brasileiros, certamente o único jornalista vivo que cobriu a Constituinte de 1946 , veterano de tantas batalhas. Sua biografia, fosse ele um jornalista norte americano, já teria virado filme. Aqui, muito estudante de jornalismo ganha seu diploma (e sua reserva de mercado) sem jamais ter ouvido o seu nome, ou lido uma só linha de sua autoria. Não sabem e não se envergonham da ignorância sobre o jornalista, que, repito, fosse americano, colecionaria Pulitzers e seria personagem de cinebiografia.

Seu jornal, Tribuna da Imprensa, fundado por Carlos Lacerda,é sinônimo de jornalismo de combate. Da sua fundação por Lacerda em 49 até sua aquisição por Helio Fernandes em 62 (passando por breve período intermediário em que o jornal fora propriedade de Nascimento Brito) não houve governo no Brasil que tenha escapado de sua vigilância, expressa em artigos e denúncias que constrangeram governantes de todos os níveis em períodos diversos da História do Brasil.

Lacerda sofreu pressões econômicas contra o jornal desde o segundo Governo Vargas, e Helio Fernandes do Governo João Goulart até os dias de hoje. Lembremos da tentativa de se condenar Helio Fernandes a quinze anos de prisão no Governo Jango por publicar uma circular secreta do então Ministro do Exército (circular esta que não continha qualquer segredo militar) que chegou ao Supremo onde ele conseguiu absolvição. Foi sua primeira prisão, ainda em regime “democrático”.

As inúmeras prisões a partir de 64, os três confinamentos (Campo Grande, Pirassununga e Fernando de Noronha), os dez anos de censura prévia (a duração inteira do AI-5, de 68  a 78) que tornaram o jornal incompreensível de tão cortado (há no livro de Maklouf Carvalho “Cobras Criadas”, sobre David Nasser e a revista Cruzeiro, resposta de Helio Fernandes a David Nasser explicando porque um artigo de Nasser enviado a Fernandes não fora publicado, onde a mutilação do diário é retratada de forma chocante) e a perseguição a anunciantes do jornal o tornaram esquelético em numero de páginas e anúncios (o jornal nunca trabalhou com o sistema de assinaturas) . Foram esforços da ditadura devotados à extinção do jornal, mas o combatente e sua “Tribuna “não sucumbiram.

O atentado a bomba que danificou sua sede na Rua do Lavradio, na Lapa carioca, em 81, foi golpe que fulminaria espírito menos resistente, mas ao que parece animou ainda mais a disposição de manter o diário e sua linha editorial, crítica e beligerante.

Mas o jornal veio se exaurindo economicamente, e em 2008, deixou de circular, restando ao seu Diretor uma versão eletrônica, que hoje é um blog.

O site “Consultor Jurídico” (leitura referencial no segmento) publicou recentemente matéria sobre a luta de Helio Fernandes por indenização pelos prejuízos que a perseguição governamental lhe causou, processo já julgado no Supremo, que, por não sei quais minúcias jurídicas (quem se interessar pelo tema leia a referida matéria no “Consultor”), permanece sem julgamento do recurso e consequentemente sem a solução esperada por funcionários do jornal que esperam pagamento de atrasados, e por Helio Fernandes, que sonha ainda reeditar sua ‘Tribuna”.

A verdade é que o jornalista parecia esperar muito do governo petista, afinal, sempre fora atento ao PT em época que na Imprensa, poucos apoiavam o partido e sua decepção é flagrante, basta ler seus artigos e suas apreciações sobre o governo mais popular da História deste País.

Não teria sido ingenuidade do jornalista supor que este governo temesse menos suas risadas gráficas (seus “Ha!Ha!Ha!”) diante das justificativas mal ajeitadas de governantes cujas faces demandam estoques inteiros de óleo de peroba, seu hábito de usar o qualificativo “corruptissíssimo” no lugar de eufemismos e seu desassombro frente às ameaças dos governos anteriores?

Quando o jornal deixou de circular, iniciei meu blog com o post “Velório da Tribuna da Imprensa” onde fui bastante ácido quanto ao meu ídolo de adolescência e arrependido e agradecido por não ter sido ele lido por ninguém exceto eu próprio, cheguei mesmo a reescrevê-lo, mas o mantive no blog, sem retirar minhas observações, mas sendo mais justo e afetivo a um personagem que sempre me inspirou.

Não que eu sempre concorde com suas opiniões (muito pelo contrário), ou seja desatento ao que me parece contraditório, ou mal explicado, em seus artigos, mas sou grato a quem tanto fez para que a Imprensa fosse mais que “secos e molhados”, no dizer de Millor Fernandes (irmão do Helio, que lançou a divisa “Imprensa é oposição ou armazém de secos e molhados”).

Temo que o Brasil perceba que perdeu um de seus últimos gigantes quando for, como de hábito, tarde e inicie, como também de hábito, o festival de hipocrisisas que são as homenagens póstumas a quem sempre se desprezou em vida.

(Artigo originalmente publicado no site Brasil 247)

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