“Hibisco roxo”, um romance que exibe todo o potencial da nigeriana Chimamanda Adichie

Júlia de Aquino
Instagram literário @juentreestantes

“Quis pensar em alguma coisa, qualquer coisa, para assim não precisar mais sentir”.

A primeira vez que li algo da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie foi quando ganhei o pequeno livro “Sejamos todos feministas” (pequeno em tamanho, gigante em conteúdo). Esse ensaio virou livro depois de sua palestra viralizar e se tornar um sucesso no TED (centro de conferências sob o Tecnologia, Entretenimento e Design). Algum tempo depois, li “O perigo de uma história única”, da mesma coleção de ensaios, publicados pela Companhia das Letras.

Nesse ano resolvi me aventurar em seus romances, e comecei por “Hibisco roxo”. Foi uma leitura extremamente rica e marcante, e com toda certeza se tornou um dos favoritos do ano!

ENREDO – A adolescente Kambili narra sua história e de sua família, “comandada” por seu pai Eugene, industrial rico e extremamente religioso. Aos poucos, ele passa a destruir o ambiente doméstico motivado pelo fervor religioso. Quando Kambili e o irmão Jaja passam um tempo na casa da irmã de seu pai, Tia Ifeoma, tudo muda.

CONTEXTO HISTÓRICO – Apesar de a história se passar nos dias atuais, é marcada pela herança da colonização inglesa na Nigéria. O país tornou-se independente em 1960, mas desde então sofre diversos golpes militares.

Nesse contexto, Eugene, o pai de Kambili, é o reflexo dessa intervenção europeia: um homem negro que acredita que tudo que vem dos brancos é melhor (incluindo a religião).

RADICALISMO – Apesar de ser nigeriano de nascença, Eugene estudou em colégio católico durante a colonização e acabou adotando o Catolicismo europeu.

O fanatismo religioso do patriarca torna-se um problema para todos. Sempre autoritário, os filhos não têm liberdade para serem eles mesmos, nem para conviver com sua família nigeriana. Seu avô paterno é negligenciado pelo filho e proibido de ver os netos por seguir os costumes religiosos da Nigéria.

Durante toda a narrativa, Kambili nos mostra o quanto esse traço do pai a tornou contida e privada de senso crítico. Ela, seu irmão e sua mãe estão sempre tentando agradar Eugene e vivem com medo – medo de opinar, de falar algo “errado”, de pensar, de existir.

GATILHOS – A obra pode conter alguns gatilhos (temas sensíveis a algumas pessoas). Não recomendo a leitura caso alguém se sinta mal ou desconfortável com os temas a seguir: violência doméstica, física e psicológica.

NARRATIVA – Os acontecimentos e a forma como a autora os expõe, pela perspectiva de Kambili, são tão marcantes que durante todo o livro sentimos raiva, tristeza, alegria… Sem falar no final – totalmente inesperado e chocante.

Capítulos curtos, escrita impecável e personagens cativantes (cada um à sua maneira): a combinação perfeita para uma obra primorosa.

“Hibisco roxo” consagra Chimamanda como uma das principais autoras contemporâneas. “Americanah”, seu outro romance, foi aclamado pela crítica logo após o lançamento em 2013, e já conquistou grande número de leitores pelo mundo.

Livro – “Hibisco roxo”
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras

Páginas: 328

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ALGUNS TRECHOS

  • “Precisávamos ser civilizados em público, Papa nos dizia; precisávamos falar inglês”.
  • “Deus seja louvado”- era isso que Jaja e eu dizíamos, o que Papa esperava que disséssemos quando coisas boas aconteciam”.
  • “Papa mudou de sotaque, adotando uma pronúncia britânica. Ele se mostrou ansioso por agradar, como sempre era com os religiosos, principalmente religiosos brancos”.
  • ”Naquela noite, sonhei que estava rindo, mas a risada não era minha, embora eu nem soubesse qual era o som da minha risada. Era uma risada alta, profunda e entusiasmada, como a de Tia Ifeoma”.
  • “Eu nunca me perguntara em que universidade estudaria nem em que me formaria. Quando chegasse a hora, Papa decidiria”.
  • “Ela parecia tão feliz e em paz, e eu me perguntei como alguém perto de mim podia se sentir assim, quando havia fogo líquido me queimando por dentro”

7 thoughts on ““Hibisco roxo”, um romance que exibe todo o potencial da nigeriana Chimamanda Adichie

  1. Instigante!!! Vontade de fazer essa leitura e apreensiva, medo de abrir as feridas da alma, acredita? filha de militar!… Senti a repressão na alma. Incrível a resenha que você fez. Agradeço!Parabéns

  2. Jornalista Julia de Aquino – a Otima leitura só enriquece – a liberdade e uma grande vitória e desde 1954 temos no Brasil o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro ( SJMRJ ) – para todos os Jornalistas e Jornalistas da Literatura ( A ) – podem ficar Sócio – Obs. Digo sempre este e o Sindicato dos Jornalistas do Brasil – 2020 – Parabéns.

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