Histórias de ACM, o Nabucodonosor da Bahia

Sebastião Nery

Heitor Dias , ex-vereador, ex-deputado, ex-prefeito de Salvador, ex-senador da Arena, ex-tudo, era professor de Português, foi nomeado para diretor do Ginásio Eusinio Lavigne, bisavô da Paula do Caetano, em Ilhéus.

Pegou o navio, que jogava muito. O navio jogava, Heitor enjoava. Sentado no convés, agarrado às cordas, não queria conversa com ninguém. Até que apareceu um chato:

– Esse navio acaba virando, prefiro carro.

Heitor, como um mastro retorcido, não dizia nada. O chato se apresentou:

– Sou Joaquim da Silva Nabuco.

– Parente de Joaquim da Silva Xavier, Tiradentes?

– Devo ser. A família é muito antiga. Sou sobrinho-neto do Joaquim Nabuco e primo do advogado José Nabuco, do Rio.

– E o Nabucodonosor?

– Se tem Nabuco no nome é meu parente. Quem é esse Nabucodonosor?

– Um sujeito muito perigoso. Toda a Bahia morre de medo dele.

– Pode deixar que não tenho medo dele e vou pegá-lo.

O senador Antônio Carlos virou o Nabucodonosor da Bahia. Todo mundo tem medo dele. E acabaram pegando-o.

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BANDIDAGEM OFICIAL

José Augusto Berbert de Castro, jornalista ilustre de “A Tarde”, em Salvador, era médico da prefeitura. O jornal fazia oposição ao prefeito Heitor Dias da UDN, que sabia que o autor das críticas à Prefeitura era o Berbert.

Uma tarde, Berbert entra no gabinete do prefeito:

– Alguma novidade, dr. Heitor?

– Tenho uma notícia importante. Foi demitido das funções que ocupava na prefeitura da cidade o médico José Augusto Berbert de Castro.

– Por que isso, dr. Heitor?

– Por uma questão de democracia. A democracia assegura o direito de crítica, que é sagrado. Mas com seu dinheiro. Com o meu não. Fale mal de mim, mas fale por sua conta. Eu pagando, não.

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ELE SABE TUDO

Alberto Torres Filho, o saudoso deputado e diretor do jornal “O Fluminense”, de Niterói, ligou para a redação do jornal às três da tarde. Não havia ninguém. O telefone tocou, tocou, ninguém atendia, até que chegou um contínuo e atendeu. Alberto Torres já estava uma fera:

– Onde está o Oseas? (Oseas Carvalho, diretor da redação, aliás excelente).

– No almoço.

– E o resto da redação?

– Todo mundo no almoço

– Isto é um abuso! Tinha que ter ao menos alguém aí no plantão. Nem contínuo para atender o telefone tem!

– Quem é que está falando?

– É o Alberto Torres, o diretor. Vou acabar demitindo todo mundo.

– Quem está falando aí?

– Ah, o senhor não sabe não?

– Não.

– Graças a Deus!

E desligou. O azar do senador Antônio Carlos, quando houe o escândalo do grampo da Bahia em 2002, é que ele não era o Alberto Torres, diretor de “O Fluminense”. Não pode dizer que não sabia quem estava falando, quem estava sendo falado, quem estava grampeando, quem estava sendo grampeado. Ele sabia tudo.

 

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