Histrias de Jequi, Lomanto e Getulio

Sebastio Nery

Plido, os olhos tristes e a alma cansada, Getulio Vargas desceu em Belo Horizonte, na tarde de 12 de agosto de 1954, a convite do solidrio governador Juscelino Kubitschek, para inaugurar a siderrgica Mannesman. O Rio pegava fogo com o inqurito da Aeronutica (a Republica do Galeo) contra os que tentaram matar Lacerda.

Liderados pelos comunistas e udenistas, ns estudantes, com lenos amarrados na boca, impedimos que Vargas atravessasse a cidade pela Avenida Afonso Pena, sendo o cortejo presidencial obrigado a seguir pela Avenida Paran e tomar a Avenida Amazonas at a Cidade Industrial.

No palanque, ao lado do governador e dos colegas jornalistas, vi bem suas mos trmulas mas a voz forte. Vargas deu seu recado aos inimigos:

– Advirto aos eternos fomentadores da provocao e da desordem que saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbao da paz.

Da inaugurao, Getulio foi direto para o palcio das Mangabeiras. No conseguiu dormir, segundo confessou depois a Juscelino. Depois do caf da manh, antes de voltar para o Rio, de p, sorrindo discretamente, com seu indefectvel charuto, ao lado de JK, Getulio nos cumprimentou, um a um, e disse algumas palavras aos poucos jornalistas ali presentes.

Eu era o mais novo, fiquei na ponta. Achei sua mo gordinha e fria:

– muito jovem. De que Estado voc ?

– Da Bahia, presidente. De Jaguaquara.

– Onde fica?

– Entre Salvador e Ilhus, perto de Jequi.

Ele parou, pensou um pouco :

– Jequi, Jequi. Conheci o jovem prefeito de l. Conversamos, me deixou uma boa impresso. um rapaz de futuro.

– o Lomanto, presidente.

– Pois , um rapaz de futuro.

Despediu-se com seu discreto e distante sorriso e a mo gordinha e fria.

***
NEWTON PINTO E LAFAIETE

Lafaiete Coutinho, paraibano, grande, simptico, mdico, udenista baiano, deputado estadual e duas vezes federal pela UDN da Bahia (de 47 a 59), secretario de Segurana do governo Balbino e secretario da Agricultura do governo Juracy, estava em uma solenidade no Frum de Salvador quando o tambem mdico Newton Pinto, ex-prefeito de Jequi e deputado estadual, sbio, doutor em misterios, viu a palma de sua mo:

– Lafaiete, voc um homem de coragem? Posso dizer uma coisa?

– Pode, Newton. O que voc quiser. L vem voc com sua quiromancia (Aurlio :Adivinhao pela leitura das palmas das mos).

-Ento arrume sua vida,porque voc s tem poucas semanas de vida.

Lafaiete deu uma gargalhada.

***

Era 1959, o presidente Juscelino Kubitschek e o governador da Bahia, Juracy Magalhes, estavam empenhados em arranjar um candidato que unisse a UDN, o PTB e at mesmo o PSD, para impedir que a UDN lanasse Jnio para presidente. Juscelino e Juracy achavam que podia ser Juracy,mas aceitavam Osvaldo Aranha,do PTB, amigo dos dois e de Jango.

Juracy mandou Lafaiete ao Rio Grande do Sul perguntar a Joo Goulart, vice-presidente de Juscelino e lder absoluto do PTB, se aceitava Osvaldo Aranha como candidato de unio nacional, com apoio de JK.

Na vspera da viagem, jornalista politico de A Tarde, ao lado da secretaria da Agricutlura, ali na praa Castro Alves, entrei no gabinete de Lafaiete, que me contou a conversa com Newton Pinto e me interrogou :

– Voc, que passou oito anos no seminrio e estudou essas coisas todas, acredita em quiromancia, o destino traado nas linhas das mos?

– Nem acredito nem desacredito. Mas no me meto.

Ele deu uma gargalhada:

– Ento estou a caminho da morte. Vou a amanh a Porto Alegre e, de l, pegar um aviozinho qualquer para chegar fazenda do Jango, em So Borja. No gosto de avio pequeno. Mas no tem outro jeito.Vou em misso poltica do Juracy, no posso dizer nada, na volta te conto.

***

Lafaiete foi, conversou, voltou em um sbado, e do aeroporto de Salvador seguiu direto para o palcio da Aclamao, comeu uma feijoada com Juracy, e lhe contou a conversa toda, inclusive a resposta de Jango :

– Diga ao governador Juracy que gosto muito do doutor Osvaldo Aranha, amigo fiel do ex-presidente Vargas at o ultimo instante e meu amigo tambm. Mas a poltica do Rio Grande um terreiro, que s d para um galo s. Se ele se elege, me aposenta, acabou minha liderana.

Lafaiete pegou o carro oficial e foi para casa, na Graa.

Quando tocou a campainha, caiu morto na varanda.

Newton Pinto sabe da vida e da morte.

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