Hoje, 6 de agosto, é dia de homenagear o maior herói brasileiro: o major Plácido de Castro

José Plácido de Castro – Wikipédia, a enciclopédia livre

Major Plácido de Castro, um grande herói esquecido pelos brasileiros

Carlos Newton

É decepcionante constatar que o Brasil não cuida de sua memória. Se você perguntar a algum historiador brasileiro sobre o dia 6 de agosto, possivelmente ele não lembrará do que se trata.Se for estudioso da História das Américas, poderá lembrar que foi em 6 de agosto que Simón Bolívar entrou em Caracas, após a vitória de Taguanes, e recebeu o título honorífico de Libertador, e 12 anos depois, também num 6 de agosto, Bolívar declarou a independência do país que levou seu nome, a Bolívia.

Mas dificilmente o historiador se lembrará do que deveria significar o 6 de agosto para os brasileiros, por ser a data em que se iniciou a revolução que culminou na anexação do Acre ao território nacional, livrando a Amazônia da possibilidade de ser colonizada pelo Império britânico, que na época (1902) dominava a maior parte do mundo e estava tentando usurpar a Amazônia com apoio dos Estados Unidos, que começava a ser firmar como grande potência.

CORRIDA DA BORRACHA – Naquele início de século XX, a borracha já se tornara uma das mais estratégicas matérias-primas, e toda a produção mundial provinha de um só lugar, a Amazônia, onde a nativa hevea brasiliensis vicejava com maior abundância justamente no território boliviano do Acre, uma extensa região que desde 1870 vinha sendo colonizada por brasileiros, que emigravam para viver da borracha. Lá havia seringueiros e aventureiros de todo o país, mas a imensa maioria vinha do Nordeste, sobretudo do Ceará.

Um desses aventureiros chamava-se José Plácido de Castro, era gaúcho de São Gabriel, filho do capitão Prudente da Fonseca Castro, veterano das campanhas do Uruguai e do Paraguai, e de Dona Zeferina de Oliveira Castro.

Plácido começou a trabalhar aos 12 anos – quando perdeu o pai – para sustentar a mãe e os seis irmãos. Aos 16 anos, ingressou na vida militar, chegando a 2° sargento, entrou na Escola Militar do Rio Grande do Sul e depois lutou na Revolução Federalista ao lado dos “maragatos”, chegando ao posto de Major.

SEM ANISTIA – Com a derrota para os “pica-paus”, que defendiam o governo Floriano Peixoto, Plácido decidiu abandonar a carreira militar e recusou a anistia oferecida aos envolvidos na Revolução.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, foi inspetor de alunos do Colégio Militar, depois empregou-se como fiscal nas docas do porto de Santos, em São Paulo e, voltando ao Rio, obteve o título de agrimensor. Inquieto e à procura de desafios, viajou para o Acre em 1899, para tentar a sorte como agrimensor, e logo arranjou trabalho por lá.

Na época, já havia a disputa de terras com a Bolívia, os colonos brasileiros tinham até declarado duas vezes a independência do Acre, mas o governo brasileiro mandava tropas para devolver o território. Até que surgiu a notícia de que a Bolívia havia arrendado o Acre aos Estados Unidos, através do Bolivian Syndicate, uma associação anglo-americana sediada em Nova York e presidida pelo filho do então presidente dos EUA, William McKinley.

COLONIA DOS EUA – O acordo autorizava o Bolivian Syndicate a usar força militar como garantia de seus direitos na região, onde as leis seriam impostam por juízes norte-americanos, a língua oficial seria o inglês e os Estados Unidos se comprometiam a fornecer todo o armamento que necessitassem. Além disso, tinham a opção preferencial de compra do território arrendado, caso viesse a ser colocado à venda, e a Bolívia também se comprometia, no caso de uma guerra, a entregar a região aos Estados Unidos.

Plácido de Castro estava demarcando o seringal Victoria, em 1902, quando ficou sabendo do acordo pelos jornais e viu nisto uma ameaça à integridade do Brasil. Tinha 27 anos, era o único militar de carreira que morava naquela região e decidiu liderar uma resistência. Convocou os comerciantes, seringalistas e emigrantes brasileiros, formou um pequeno grupo de guerrilheiros e aproveitou o dia 6 de agosto, feriado nacional na Bolívia, para iniciar a revolução.

UMA REVOLUCIÓN – Quando Plácido chegou com cerca de 60 guerrilheiros ao pequeno quartel do Exército boliviano na vila de Rio Branco, às margens do Rio Acre, o oficial boliviano julgou que os brasileiros vinham comemorar o feriado. “Es temprano para la fiesta” (É cedo para a festa), disse ele, e Castro respondeu: “Non es fiesta, es revolución”. E a guerra começou, para desespero do governo brasileiro, que não se interessava pelo Acre.

A Bolívia logo enviou mais um contingente de 400 homens, comandados pelo coronel Rosendo Rojas. Mas Plácido de Castro, precursor da guerrilha na selva, se revelou um grande estrategista e conseguiu enfrentar e derrotar o Exército e a Marinha da Bolívia em seguidos enfrentamentos.

Os combates da Revolução Acreana duraram vários meses e a revolução só acabou em janeiro de 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis, pelo qual o Brasil comprou o território do Acre à Bolívia, anexando essas terras ao nosso país.

SONHO AMERICANO – Com o fim do conflito, o Brasil seguiu dominando o comércio mundial da borracha, e a revolução liderada por Plácido de Castro sepultou o sonho anglo-americano de dominar o Acre e a Amazônia. Ao vencer o Exército e a Marinha da Bolívia, aqueles valorosos guerrilheiros brasileiros na verdade estavam derrotando também a maior potência militar do mundo, a Inglaterra, e seu principal aliado, os Estados Unidos.

Esta é uma história linda, que infelizmente não se aprende nos colégios brasileiros. O major Plácido de Castro merecia ser lembrado e homenageado como um dos maiores heróis da História do Brasil, ao lado dos almirantes Tamandaré e Barroso, do duque de Caxias e do marechal Rondon, que é precursor da força armada do futuro, aquela que, ao enfrentar um adversário mais fraco, apenas o domina, ao invés de aniquilá-lo. Sua ordem aos comandados (“Matar, jamais; morrer, se for preciso…”) há de constar na História da Humanidade.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Há alguns anos, o prefeito de Rio Branco quis mudar o nome da Rua Seis de Agosto, que fica bem no centro da capital. Felizmente, foi impedido de fazê-lo. Mas esta iniciativa do prefeito significa que até no Acre a lembrança de Plácido de Castro está se diluindo. Mas quem se interessa? (C.N.)

15 thoughts on “Hoje, 6 de agosto, é dia de homenagear o maior herói brasileiro: o major Plácido de Castro

  1. E o capitão Pedro Teixeira? Compare a extensão das áreas conquistadas pelos dois! Ambos são dignos de reconhecimento. Então gostaria de saber quando CN vai homenagear P. Teixeira!

    • Prezado Paulo III

      O capitão Pedro Teixeira foi um grande herói, mas tinha uma diferença em relação a Plácido de Castro, porque era português e defendia com bem treinadas tropas do reino a colônia portuguesa, que éramos. O major Plácido de Castro, não. Liderava guerrilheiros com poucas armas e munição, sem nenhum treinamento. E lutava pelo Brasil, não por Portugal. Pedro Teixeira, sem dúvida, é um grande herói português.

      Abs.

      CN

  2. a pergunta porque o povo não sabe sobre a nossa História começa na escola. Professores de História pessimamente preparados, alienados pelo discurso dos mestres, daí tanta desinformação. No Sul também aconteceu outra guerra, agora civil, travada contra o magnata americano Percival Farquhar, dono da estrada de ferro São Paulo/Rio Grande. A coisa foi tão braba que sem a participação do Exército brasileiro os caboclos e os posseiros teriam levado a melhor porque as policias paranaense e catarinense não deram conta do recado. Este é outro acontecimento da nossa História ignorado pelos péssimos professores de História que temos.

  3. Nossos professores tem que ter duas ou mais matrículas ou escolas para poder conseguir um salario razoável para viver e com isso, perdem o tempo precioso que seria para pesquisas e aprimoramento.
    Todas; digo todas as profissões necessitam de aprimoramento fora dos bancos escolares.

  4. Carlos Newton, como um apaixonado pela Amazônia, li e gostei muito de teu artigo. Fez-me pensar.

    Relembrei do combate do Porto Acre, ocorrido entre 15 e 24 de janeiro de 1903 – considerada a batalha mais importante, crucial mesmo, da Revolução Acreana, a que marcou a efetiva vitória dos brasileiros do Acre, grupo de guerrilheiros seringueiros comandados por Plácido de Castro e outros seringalistas, sobre o exército boliviano.

    Há registros de que foi uma sangrenta batalha que resultou na morte de aproximadamente 500 pessoas, cerca de 5% da população do Vale do Acre na época.

    O quartel do comando boliviano era protegido por estratégica linha de e alambrados e o acesso fluvial pelo rio Acre era obstado por grossa corrente de ferro e canhões. Nesse teatro operacional ocorreu, a meu ver, o ato mais heroico e dignificante de toa a guerra.

    Plácido de Castro tinha capturado uma embarcação boliviana e o dado a ela um novo nome, ou seja, “Independência”. Encheu a nave de borracha e descia o Rio Acre para vender e, com o dinheiro, sustentar a tropa e comprar armas e munições.

    A corrente de ferro colocada pelos bolivianos impedia a passagem da embarcação. Os guerrilheiros acreanos, portando limas, entraram no rio e passaram a limar a corrente, trabalho que durou três dias e noites até que a corrente arrebentou e a embarcação seguiu seu destino.

    Um dos seringueiros, de pele negra, cujo nome, infelizmente não me recordo, foi o mais importante destruidor do obstáculo, pois entrava no rio à noite para cumprir sua abnegada missão. Um verdadeiro e destemido herói, considerando não apenas os tiros desferidos pelos bolivianos como a presença de animais carnívoros na água (jacarés, sucuris, piranhas, etc).

    No dia 24 de janeiro, depois de carca de 6 meses de batalhas e centenas de mortos, os militares bolivianos concluíram que era impossível vencer os valentes guerrilheiros de Plácido de Castro, se renderam e entregaram definitivamente o Acre para os brasileiros.

    Desculpe o longo comentário, mas não consegui controlar a minha paixão pela Amazônia e pelo Brasil.

    Parabéns pelo artigo.

    • Exatamente, amigo Celso. Os brasileiros mergulhavam e da margem oposta, os bolivianos atiravam de rifles. Aí eles passaram a mergulhar à noite. Detalhe: nessa época do ano chove muto e o rio fica caudaloso, dificultando que as pessoas possam nadar nele.

      Abs.

      CN.

  5. Amigo e condutor CN
    Quase encerrando expediente, cansado “prá danar”, abri a TI e circulei por alguns artigos. Já ia parar e me deparei com este.
    É muito bom recordar uma história que já deveria ter sido transformada em filme!
    Nos próximos dias vou verificar nos livros de história, actualmente usados naqueles prédios que dizem ser “local da educação”.
    As últimas tres gerações, sabem só o que lhes passaram nas escolas, ou seja, quase nada.
    Saída? Além do aeroporto, o portão do cemitério, temos de procurar muito para encontrar outra!
    Agradeço a oportunidade reviver (sim, reler a história é reviver) mais uma parte da nossa história, esquecida e sem valor algum para a maioria dos brasileiros.
    Abraço fraterno.
    Fallavena

  6. Muito bom termos brasileiros no sentido real da palavra. Plãcido de Castro foi um deles, dos grandes, e vocês também o são por trazer à luz a nossa história.
    Como fazer para divulgar mais. ??
    Cultura é isso , não é o que os artistas pensam , se é que alguns pensam.
    Obrigada

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