Hoje é o primeiro dia de trabalho da presidente Dilma. Espero que ontem, antes de dormir (a primeira vez no Alvorada), tenha dado uma lida ou relida no discurso. Não é bonitinho e ordinário, apenas rotineiro.

Helio Fernandes

Todos os discursos presidenciais (até mesmo do carrasco da KGB, presidente da Rússia, agora primeiro-ministro, se preparando para voltar à presidência) são assim. Promessas, saudado, inflado e exaltado, não resiste ao impacto da realidade.

Dona Dilma ganhou editoriais laudatórios que ninguém leu, mesmo na primeira página. Manchetes de todos os jornalões, AGRADECIDOS pelo fato dela ter garantido a Liberdade de Imprensa, que reforçou, chamando de LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Nesta época da internet, localizar tudo nos jornalões impressos, é perda de tempo.

Quem supõe ou garante que “os proprietários” dessa Liberdade de Expressão, estavam preocupados? Foi durante a ditadura que enriqueceram desabridamente, se tornando assustadoramente poderosos, como grupos cresceram subservientemente, acumulando canais de rádio e televisão, formando cadeias (desculpem) invencíveis e insuperáveis.

Do discurso lido ou interrompido por aplausos de coadjuvantes que só foram convidados para isso, não sobrou coisa alguma. Nenhuma frase que fique martelando na lembrança, nem mesmo a esperança de concretização de alguma afirmação, a certeza de que Dona Dilma é a ressurreição do amanhã, a consolidação de tudo o que sonhamos de melhor.

Nenhum discurso é o retrato da realidade, vista, antevista, prevista. Principalmente porque Dona Dilma fez um discurso vazio de ideias, abastecido por promessas que não sabe como cumprir. Colocou no início, no meio e no fim de tudo, o que gostariam que realizasse imediatamente, vá lá, nos primeiros quatro anos de governo.

Se é que esses quatro anos se completarão ou se somarão, pois o ex-presidente, sem a menor credibilidade política, não perdeu tempo em afirmar: “Agora é um direito de todo presidente ficar 8 anos no Poder”. Mas logo foi desmentido por ele mesmo e pelo porta-voz mantido como espião dentro do Planalto: “Se houver dificuldade, Lula pode voltar”. Não disse quando, plantou a heresia da dúvida.

Todas as afirmações da já presidente, ganharam logo a palavra ROTINEIRA, como está no título destas notas. Que não são oposicionistas e sim de alerta, de reserva, de complacência circunstancial, desejando que se transformem em realizações florescentes. Ou eternas, pelo menos enquanto durem, mesmo que sejam apenas em quatro anos.

Prometeu acabar com a pobreza. Qual o presidente que na posse e mesmo em teoria, não garante o fato? O planeta tem 7 bilhões de habitantes, 2 bilhões na mais completa linha da miséria, sem ter o que comer, vestir, morar, se transformar, estudar, se tratar na doença?

São 30 por cento no mundo todo, qual a parte que nos cabe nesse latifúndio, contra o qual bradou poética e altivamente o grande João Cabral de Mello Neto? E quando e de que maneira destruirá essa pobreza, que tem muito mais chances de eliminá-la do que ser eliminada?

Todo discurso de posse é preenchido por afirmações que, não tenho dúvidas, são sinceras. Mas a realidade é muito mais assustadora do que qualquer coisa, como obter recursos para tanto que não foi feito, e que ela nem sabe por onde começar?

Não temos nem o “arremedo” de infraestrutura. Portos, aeroportos, rodovias, ferrovias estão por construir ou por se concretizar. Assume órfã, é a “mãe do PAC”, a mais atrasada de todas as realizações. Os 87 por cento da popularidade de Lula vieram do Bolsa-Família e de outros programas, suposta ou pseudamente sociais. Vieram?

Não sou contra, lógico, diante da realidade nacional. Mas como ser a favor, sabendo que nada disso é criador de riquezas, de futuro, de consolidação dos que recebem miseravelmente, quando deveriam receber l-a-b-o-r-i-o-s-a-m-e-n-t-e?

Não deu uma palavra sobre a DÍVIDA INTERNA, sabendo que precisaríamos de 200 BILHÕES só para pagar os juros, perdão, AMORTIZAR o que não devemos mas temos que depositar. Nos últimos 11 meses desse 2010 que foi embora, dos 200 BILHÕES, só conseguimos 175 BILHÕES, enganando o cidadão-contribuinte-eleitor.

Como dezembro ainda não está contabilizado no que chamam vergonhosamente de “DÉFICIT PRIMÁRIO”, (o único país do mundo que se orgulha disso), é possível que cheguemos aos necessários 200 BILHÕES. Se não chegarmos, não faz mal, os CREDORES são generosos, o que faltar será jogado afanosamente no total.

E sem falar que vem aumento de juros por aí, e a cada percentagem desse aumento, corresponde a mais necessidade para amortizar. Sobre a DÍVIDA EXTERNA, apenas 20 segundos, “felizmente ela foi liquidada pelo presidente Lula”. Entre hostilizar o presidente Lula, e ratificar a “MENAS” verdade sobre a qual tanto mercadejou, ficou com a segunda hipótese. Eram 20 segundos, ninguém notaria.

Esperemos que a partir de hoje, no primeiro dia de absoluta no Planalto, Dona Dilma comece a trabalhar para implantar as duas mais importantes reformas que o país está exigindo há longos e longos anos, e das quais dependem todas as outras. E que se transformarão na mudança do Brasil.

1 – Reforma política-partidária-e-logicamente-eleitoral. Sem isso, continuaremos com a farsa da representatividade que não representa coisa alguma. Mas as cúpulas partidárias não permitirão mudança alguma. Se a representatividade for alterada, como “eleger” outro Temer para vice e satisfazer os lobistas?

Esse ministério mesquinho e com a validade vencida por causa da ausência de povo, é produto da falta de partidos, de militância, de voto conquistado e não comprado.

2 – Reforma tributária, que servirá ao país e não a alguns que se eternizam no poder, mesmo fingindo de alternância.

A presidente promete uma classe média importante, independente e autônoma. Mas que classe média é essa, que consolidam e dizem que representa ganho de 1 mil e 300 mensais? O que vale isso? Na China tão polemizada, criticada e negada, a classe média se abastece com carros de luxo, mora em mansões magníficas, consome o que há de mais caro e desejado?

 ***

PS – Esse discurso é para ler e guardar, não sei por quanto tempo. Será pelo menos por quatro anos. Surpreendentemente ninguém sabe. Lula chorou, não pelo povo, mas pela antecipada saudade de um Poder que gostaria de ter eternizado.

PS2 – Por quanto tempo Dilma resistirá aos 87 por cento de Lula? Ultrapassar? Praticamente impossível. Não tenho boa memória, quando é que gritavam, recitavam e retumbavam? “Bota o retrato do velho outra vez?”.

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