Homenagem ao mestre de todos nós

Carlos Chagas

Editada pelo Senac, será lançada a segunda edição do livro “Carlos Castelo Branco, o jornalista do Brasil”. O livro é resultado de longas entrevistas por mim realizadas com  o Castelinho, na década de oitenta, filmadas pelo cineasta Pedro Jorge. Foram meses seguidos  em que nos encontrávamos aos  sábados,  à tarde, para repassar os principais acontecimentos da política nacional, desde que o mestre de todos nós desembarcou em Belo Horizonte, vindo  de Teresina, para iniciar sua carreira jornalística. Eram os tempos bicudos do Estado Novo, em 1939.

A trajetória de Castelo e suas observações e participações na vida política nacional estenderam-se pelas décadas seguintes, quando ele se tornou o principal jornalista político do  país. Do fim da censura, quando ele teve o prazer de mandar o censor comprar o jornal do dia seguinte na banca da esquina, se quisesse lê-lo,  a queda de Getúlio  Vargas, meses depois, até o governo Dutra.  As revelações se sucedem, inclusive a confirmação da  pressão feita pelo  então ministro da Guerra sobre o ditador, para a realização de eleições de verdade.   Em seguida, a volta de Vargas ao poder, presidente constitucional,  e o diagnóstico  sobre por que a tragédia terminou com um tiro no  peito. O período de Café Filho, de quem o entrevistado era amigo pessoal  e a afirmação de que o então presidente foi mesmo acometido de um enfarte. A crise da posse de Juscelino e a singular interpretação das iniciativas do general Henrique Lott em defesa da Constituição. Castelo entrevistou longamente o condestável, pela revista “O Cruzeiro”.

Os tempos aúreos do “Diário Carioca”, onde foi editor e colunista político, sob o comando de Pompeu de Souza, e sua ida para a “Tribuna da Imprensa” e, depois, para o “Jornal do Brasil”. O governo de JK, com quem Castelo se encontrava frequentemente, e a eleição de Jânio Quadros. O convite para tornar-se o primeiro Secretário de Imprensa da presidência da República e suas duas exigências:  jamais chegar  ao palácio do Planalto antes das nove horas da manhã e a prerrogativa de entrar fumando no gabinete presidencial.

A renúncia, sobre a qual escreveu um livro cujos  originais ficaram guardados no cofre-forte do Banco Nacional até sua morte, hoje documento essencial para se entender como e por que Jânio Quadros  tentou dar o golpe para tornar-se ditador. O malogro e a volta do jornalista à profissão. A explicação de por que João Goulart acabou deposto:  não entendeu o equilíbrio de forças responsáveis por sua ascensão ao poder.

Os anos do regime militar e o seu primeiro diálogo com o homônimo presidente da República: “Um jornal do Uruguai publicou que o principal jornalista político do Brasil era filho do presidente da República.” “Perdão,  mas o que eu li foi que o principal jornalista político  do Brasil era filho do  ditador de plantão…”

Os governos dos generais-presidentes e os detalhes da prisão do Castelinho,  junto com Sobral Pinto e Mário Covas. As conversas  com o coronel comandante do quartel, que pregava uma “democracia à brasileira” e a resposta do velho Sobral, para quem a democracia prescindia de adjetivos e só existia o  perú à brasileira, que estavam comendo…

Em suma, não fossem as deficiências do entrevistador,  o livro seria uma   perfeita radiografia de mais de cinquenta anos dos bastidores da política nacional.

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