Ibope: voto facultativo não mudaria nada

Pedro do Coutto

Pesquisa do Ibope realizada em outubro, dias antes da vitória de Dilma Roussef no segundo turno, revelou que, se o voto fosse facultativo, o comparecimento seria praticamente o mesmo do que ocorre com o voto obrigatório. O levantamento foi muito bem comentado por José Roberto Toledo que, interpretando os números concluiu que, atualmente, os eleitores votam menos no impulso do que pela percepção em que pólo se encontram seus interesses. Interesses legítimos em que grande maioria, o que não exclui interesses despertados por candidatos  que possuem condições para tornar suas promessas em perspectivas reais. E próximas, sobretudo.

Para o Ibope, 72% tomariam o caminho das urnas fosse qual fosse a lei em vigor. Quatro por cento têm dúvida e 24% não votariam. A comparação é expressiva, sobretudo levando-se em conta a espontaneidade das respostas, uma vez que a questão do ir e não ir, versão do ser ou não ser votante, não estava sequer em cogitação. Se estivesse, penso eu, a parcela de 24% seria acentuadamente reduzida, uma vez que a propaganda política passaria também a ser direcionada nesse sentido. A publicidade é fundamental. Se é capaz de vender eletrodomésticos, móveis, cervejas, roupas, produtos de beleza, obviamente seria capaz de conduzir o eleitorado vacilante a exercer seu direito, projetando-o no campo do dever.

Não apenas do dever para com a legislação. Mas também do dever para consigo mesmo e sua família. Pois não há ninguém que não pense em si próprio e sua família no momento de decidir algo. Sobretudo o voto que, em escala nacional, se repete só de 4 em 4 anos. Quantas oportunidades de votar existem ao longo da vida? O eleitor tem a consciência de que não são inúmeras. Porém suficientes para afirmar sua vontade e lançar sua esperança nas ruas e nas urnas.

A prova de que o eleitorado deseja participar, embora no início das campanhas muitos digam que não, está no índice mínimo de abstenção. Ela é mais aparente que real, já escrevi sobre isso, recentemente. Toda vez que uma eleição se distanciar mais do último cadastramento, a taxa tende a subir. Por quê? Simplesmente porque muitas famílias não se preocupam em dar baixa nos títulos de parentes mortos.

O mais recente cadastramento ocorreu nas eleições de 86. Lá se vão 24 anos. A taxa brasileira de mortalidade é de 0,6%a/a, segundo o IBGE. Há também os casos de doenças incapacitantes, que impedem a locomoção dos atingidos. Há as hospitalizações em toda a rede nacional. Enfim, são condições que levam a uma abstenção forçada, pela doença, e aquela causada pelos falecimentos. O povo brasileiro vota em massa. Mais do que o norte-americano, cujo voto não é obrigatório. Mesmo assim, 62% votaram nas eleições de 2008 quando Barack Obama tornou-se o primeiro negro a chegar à Casa Branca.

Não votar é, ao mesmo tempo, abrir mão de um direito e não cumprir um dever de cidadania. É transferir aos outros a decisão de si mesmo. Dar um cheque em branco aos que escolherem os candidatos. Uma atitude a meu ver negativa. Pois ajuda a manter  na política exatamente aqueles a quem os insatisfeitos desejam ver substituídos. Porque os eleitores dos deputados que compram sufrágios, estes não deixam de votar.

A abstenção no Brasil foi maior até 1965. O voto era obrigatório para todos, mas as mulheres votavam pouco. No meu livro O Voto E O Povo constatei isso. Nessa ocasião, o desembargador Oscar Tenório, então presidente do TER-RJ, levou ao TSE um projeto de resolução que passou a exigir o voto como condição para uma série de faculdades civis. Inclusive a de viajar. Coincidiu com o avanço do ingresso do ingresso da mulher no mercado de trabalho. O eleitorado feminino, que era um terço do masculino, passou a igualá-lo. A abstenção desapareceu do mapa político do país.

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