Igualzinho ao Amapá e ao Maranhão

Sebastião Nery

Cleriston chegou às oito em ponto ao restaurante do hotel da Bahia, onde eu o esperava. Jantamos e conversamos até meia noite. Uma conversa fácil, agradável, carinhosa, cheia de infância e de lembranças.

Ele estudava no internato do colégio batista Taylor Egidio, de minha pequena e querida cidade de Jaguaquara, enquanto eu chegava de Salvador, nas férias, de batina. Era de Ipiaú, lá para as bandas de Conquista, ali perto, as famílias ligadas por casamentos. E era Andrade, o mesmo Andrade de meu pai.

Fizemos um levantamento completo sobre a situação política baiana, nas vésperas das eleições de 1982, ele o candidato favorito do PDS, apoiado pelo poderoso governador nomeado Antônio Carlos Magalhães, contra o candidato do PMDB, Roberto Santos, governador da Arena de 74 a 78.

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CLERISTON

Cleriston tinha absoluta certeza da eleição. E nenhum receio das brigas no PDS. Já falava com pose, gestos, palavras e sotaque de governador:

– Nery, a liderança do Antônio Carlos é tão forte no partido que superará tudo. O Jutahy (filho de Juracy) quer um pedaço do poder. Darei. O Luis Viana quer voltar para o Senado. Voltará. O Lomanto quer ficar em evidência. Ficará. Tem mais quatro anos de Senado. O Prisco Viana ainda é muito verde para o governo. Minha eleição é uma coisa do destino, Nery.

Como ele era evangélico, brinquei:

– Tudo bem, Cleriston. Você já acertou tudo com todo mundo. Mas já perguntou ao Senhor do Bonfim?

Ele deu uma gargalhada. Não tinha perguntado. Dias depois, Cleriston Andrade morria de helicóptero na Serra do Marsal, no interior da Bahia, entre Itapetinga e Conquista, fazendo campanha 45 dias antes das eleições. E o governador foi João Durval, devoto de Senhor do Bonfim, que o substituiu.

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JOÃO LISBOA

Sarney não gosta de andar de helicóptero. Ainda bem, para não dizer que o estou azarando. Mas é inacreditável como uma pessoa tão doce, gentil, simpática, lida e instruída, quando chega nas eleições se torna o cão do terceiro livro.

Quando escreve, é um anjo. Quando faz política, satanás. Em artigo na Folha, Sarney já relembrou o clássico maranhense João Francisco Lisboa (1812-1863), o jornalista sarcástico do Jornal de Timon: “Eleições na Antiguidade”.

1. “Desde as eleições feitas por palmas, em Atenas, até a nossa urna eletrônica, foi um caminhar longo e cheio de imaginação. O grande problema sempre foi como evitar a compra de votos. Não tinha TV, pesquisa, nem o vigoroso Brasil de hoje. Era um Brasil do século 19. Hoje, eleições pacíficas, limpas (sic) e uma democracia incontestável, vinda do cacete à urna eletrônica”, escreveu Sarney.

2. Na Igreja, na eleição dos papas, a rotina não era outra. Sarney então cita Francisco Lisboa, que relembrou carta do Padre Antônio Vieira, contando que “na sucessão do papa Clemente 10º, a eleição levou 28 dias, com dinheiro para lá e para cá, e 22 cardeais comprados”.

Igualzinho ao Amapá e ao Maranhão, hoje.

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