Imprensa, TV e Internet fazem EUA desabar no Afeganisto

Pedro do Coutto

A exemplo do que ocorreu com a guerra do Vietn, em 75, os jornais, as emissoras de televiso e, agora, a internet, juntos, podero contribuir para um recuo das foras americanas e da OTAN no Afeganisto, tantos e to realistas so os documentos secretos que no final da semana o australiano Jules Assange tornou pblicos ao mundo.

A dimenso da iniciativa e o risco jornalstico de enveredar por um caminho militar ligado segurana de estados e de pessoas foram to grandes que, antes de fazer explodir a comunicao eletrnica, o diretor da ONG Wikileaks antecipou o contedo do site ao New York Times, ao ingls The Guardian e revista alem Der Spiegel.

A CNN, no inicio da dcada de 70, precipitou a retirada dos Estados Unidos do Sudeste Asitico a partir do momento em que colocou no ar militares americanos detonando a cabea de prisioneiros ou ento lanando-os, sem paraquedas, de avies e helicpteros.

Lembro bem que a atriz Jane Fonda valeu-se da reportagem controlada pelo ento seu marido, Ted Turner, para liderar uma imensa passeata em Washington, em torno da Casa Branca, pelo fim imediato da guerra que fora iniciada em 62 pelo presidente Kennedy, atravessou o mandato de Lyndon Johnson, o primeiro de Richard Nixon, tambm o segundo, e s acabou em 75 na administrao Gerald Ford que assumiu depois do escndalo de Watergate.

A sociedade norteamericana ficou perplexa com o que a imprensa e televiso destacavam. A frase a liberdade node graa, usada por Truman na guerra da Coria, perdeu o sentido com o segundo fracasso na sia. Mas eis que, na sequncia do tempo, vieram a absurda invaso do Iraque, desencadeada por George Walker Bush, e at o momento mantida pelo presidente Barack Obama, apesar de compromisso de termin-la a curto prazo assumido na campanha eleitoral.

Provavelmente o complexo industrial militar denunciado em livro pelo general Eisenhower, que presidiu os EUA do incio de 53 ao comeo de 61, pois foi eleito em 52 e reeleito em 56 – entrou em ao e somou o Afeganisto ao Iraque, adicionando Bagdad a Cabul. No Iraque, uma srie de torturas praticadas, morte de milhares de iraquianos, luta de guerrilha e sobotagens, mais de 3 mil americanos mortos. No Afeganisto, a lista de mortos aumenta a cada dia e, de acordo dom o site de Julien Assage, fatos nebulosos vinculando setores das foras invasoras com o Taleban de Bin Laden.

Os diamantes so eternos, escreveu Ian Fleming, criador de James Bond. A cada dia mais se comprova a teoria na prtica. A indstria de armas est por atrs, pela frente, pelos lados dos conflitos. Um mercado que proporciona lucros base da vida e da integridade de centenas de milhares de pessoas. Ritual macabro esse que parte do princpio da defesa da liberdade e termina com o aprisionamento e a ocultao dele prprio.

As excelentes matrias de Gustavo Chacra, Andra Murta e Fernando Ainchenberg, publicadas respectivamente nas edies de 27 de julho de O Estado de So Paulo, Folha de So Paulo e de O Globo, focalizaram nitidamente o panorama extremamente crtico que a divulgao dos quase 100 mil documentos secretos causou.

Por interveno do New York Times, dezenas de nomes de pessoas no vieram tona, pelo menos por enquanto, para no colocar em risco suas vidas. O impacto mundial est sendo de tal ordem acentuam os jornalistas que em seu conjunto essa pgina singular da histria de hoje pode vir a terminar a guerra do Afeganisto amanh.

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