Inflação do presidente

Sebastião Nery

Pabla Alessandra, húngara paranaense, jornalista da TVE, linda como seu lindo nome, entrou na véspera do Natal de 1979 em uma casa de discos do Rio, ao lado do cine Roxy, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre Xavier da Silveira e Simão Bolívar:

– Me dá o long-play do Julio Iglesias. Quanto é?

– 260 cruzeiros.

Nesse instante, chega o presidente João Batista Figueiredo com um grupo de amigos:

– Me dá o último disco do Roberto Carlos. Quanto é?

– Ora, Presidente. Não vamos cobrar um disco do senhor.

Figueiredo insistiu, pegou o disco, agradeceu, saiu. Entrou numa importadora ao lado, escolheu um perfume francês. O dono também não quis receber. O presidente insistiu, não houve jeito, levou de graça.

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DISCOS

Pabla vendo. O presidente entrou no carro, Pabla voltou à casa de disco:

– Cobra aí os 260 cruzeiros do disco do Julio Iglesias.

– São 265.

– Como 265? Estive aqui há cinco minutos, eram 260 cruzeiros.

– Ah, minha filha, você não viu? O presidente esteve aqui, tive que dar de presente um disco do Roberto Carlos, porque eu não ia cobrar dele.

– E eu com isso?

– E você acha que sou eu que vou pagar? Vou cobrar mais 5 cruzeiros de cada disco que vender hoje, até completar o preço do presente. Volte amanhã que você talvez já compre de novo por 260 cruzeiros.

Pabla pagou os 5 cruzeiros da inflação do presidente.

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ALIMENTOS

Inflação de governo é assim. Nos últimos anos, o Banco Central, o sindicatão dos banqueiros, vivia ameaçando com novos aumentos dos juros. O pretexto é a subida dos preços dos alimentos. Como eles vivem dos juros pagos pelos títulos do governo, quanto mais os juros sobem, mais todos eles ganham.

Uma pergunta inocente:

– Segundo o “Conselho de Ética” do governo, o presidente e os diretores do Banco Central, o ministro da Fazenda e seus técnicos, que decidem a política econômica e financeira e o valor dos juros, estão ou não impedidos de especular com os juros dos títulos do governo?

E deviam também responder a esta pergunta ainda mais inocente:

– Já que a principal razão dos preços altos são os juros altos, se a agricultura pagasse juros menores, os preços não seriam menores?

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CARTÕES

O País não conseguia entender porque o governo tinha tanto medo de revelar os gastos da Presidência da República com os tais cartões corporativos. Muito simples. Em junho de 2008, em sua coluna em O Globo, Ricardo Noblat revelava o mistério:

– “Só no ano passado (2007, na Era Lula), os gastos da Presidência com os cartões corporativos somaram R$ 78 milhões. Do total, R$ 58 milhões foram sacados em dinheiro vivo”. (Por quem? Para quem? Por que? Para que? Fica a suspeita de que parte desse dinheiro teria ido parar em bolsos indevidos).

De lá para cá, mudou alguma coisa?

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