Inflação não é bicho de sete cabeças

Tadeu Cordova Borges

Como ciência, a Economia é controversa e polêmica. Dentre seus elementos, fenômenos, acidentes, circunstâncias, a inflação é a que menos se aproxima da unanimidade. Nem mesmo em sua definição há comunhão de conceito. Já se disse que inflação é o excesso de moeda em circulação. Contesto, indagando quem calcula ou como se aquilata a quantidade ideal de moeda em circulação. O fiado concedido na quitanda da esquina é considerado nesse cálculo?

Numa reunião de economistas, questionei quantas formas de inflação existiam. Dois professores universitários responderam simultaneamente: um afirmou que eram quatro, enquanto o outro disse que eram cinco e enumerou: conjuntural, estrutural, inercial, de demanda e de custos. O primeiro contestou que conjuntural e estrutural seriam a mesma coisa. Foi então que informei haver mais um tipo de inflação: a importada.

Durante os preparativos do Plano Cruzado, com Dilson Funaro no comando da economia, houve uma acelerada na inflação decorrente do aumento do preço do milho, porque houve alta na Bolsa de Chicago. Na ocasião cogitou-se expurgar o preço do milho do cálculo da inflação, conforme registro no livro “Aventura e agonia: O Plano Cruzado” de Carlos Alberto Sardenberg, que à época comandava a comunicação de João Sayad, ministro do Planejamento.

Os cereais (principalmente o milho) influenciam os preços porque são insumos das rações que funcionam como principal matéria-prima da produção de aves, leite, ovos e suínos e toda a variada gama de produtos que deles derivam. Por isso, uma das primeiras providências dos governos deveria ser estabilizar o preço do milho e demais grãos. Com esta medida, mais de 50% dos problemas inflacionários estariam debelados, independentemente da taxa de juros, da política monetária ou das condições fiscais.

SEM TABELAMENTO

A estabilização se faria sem tabelamento, utilizando ferramentas de que o governo federal dispõe, a Conab principalmente, e o sistema adotado seria o que foi aplicado na política do trigo, tanto nacional como importado, e que durou quase três décadas, desde Juscelino até Sarney. O governo adquire a produção e fornece a quem se interessar, em cotas semanais.

Esta experiência e outras que colhi no exercício da pesquisa que desenvolvo, reforçam o entendimento de que Brasília está coalhada de autoridades e funcionários públicos que não estão trabalhando em prol do país, possivelmente subornados.

Antes que comentaristas afirmem que nossa política agrícola é igual a dos Estados Unidos, devo registrar que este país merece os parabéns pela estratégia montada. Eles conseguem exportar inflação, sem produzi-la para consumo próprio.

Existe uma pequena diferença entre o modelo americano e o brasileiro, mas que gera resultados gigantescos. Lá não existe a figura do atravessador ou intermediário, enquanto que aqui predomina essa perversa figura, que é quem efetivamente lucra com a produção agrícola. Como lá nos Estados Unidos não existe a figura do atravessador, as oscilações na Bolsa de Chicago, em razão de intempéries são insignificantes não gerando inflação. Já no Brasil tivemos caso em que os grãos oscilaram 60% em trinta dias. É aquela história: um espirro na Bolsa de Chicago provoca uma epidemia mundo afora.

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