Ingleses e mineiros

Sebastião Nery

O Luiz Fernando Veríssimo contou que “não adiantaram os cuidados tomados para que não saísse nada de malcriado ou subversivo na última edição do jornal “News of the World”, fechado pelo Murdoch em meio ao escândalo dos grampos e da fofocagem, com a demissão de mais de duzentos jornalistas. O medo era que alguém na redação ou na oficina conseguisse inserir na edição histórica alguma crítica ou gozação a Murdoch ou à ex-editora do “News”, Rebekah Brooks”.

“A censura prévia foi feita e o jornal saiu – mas esqueceram de checar as palavras cruzadas, onde os dois foram sutilmente espinafrados (no espaço para um sinônimo de “Bruxa”, imagino, a palavra certa era “Rebekah”), tornando o último número ainda mais histórico”.

Isso aí os ingleses não inventaram. Bem antes, na década de 30, os mineiros, com suas manhas e espertezas, já faziam.

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BENEDITO VALADARES

 Na ditadura de Getulio, o interventor de Minas (chamavam-se “governadores”), Benedito Valadares, convidou o de São Paulo, Fernando Costa, a visitar Belo Horizonte para curar as feridas da Revolução Constitucionalista de 1932, que muito separou paulistas e mineiros.

Fernando Costa era um paulista ilustre, engenheiro agrônomo pela Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz de Piracicaba, deputado, secretario da Agricultura de São Paulo, ministro da Agricultura de 1937 a 41 e interventor de 1941 a 45.

A Imprensa Oficial de Minas tinha um jornal de prestigio, o “Minas Gerais”, com seu histórico “Suplemento Literário”, onde se exilavam e escreviam intelectuais mineiros adversários de Benedito mas não de Minas.

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FERNANDO COSTA

No dia em que Fernando Costa chegou a Belo Horizonte, o secretario do jornal, Milton Amado, escritor e gênio, vingou-se na manchete :

– “Hoje em Minas o governador Fernando Tosta” (sic).

O Palácio da Liberdade percebeu o golpe, mas não disse nada. Apenas determinou ao jornal que corrigisse no dia seguinte. Corrigiram :

– “Nota da redação. Por erro nosso, na primeira pagina de ontem foi dito que havia chegado a Minas o governador de São Paulo “Fernando Tosta”. Errado. Onde está escrito “T” o certo é “B”.    

Benedito queria fuzilar o jornal inteiro. Demitiu todo mundo.

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JOSÉ COSTA

Outro Costa, um santo, comunista e empresário, dono do “Diario do Comercio” de Minas, viveu situação inteiramente diversa mas parecida. O Rio tinha “Volta Redonda”, Minas não tinha siderúrgica nenhuma. A alemã  “Mannesman” ainda estava em construção, afinal inaugurada em 12 de abril de 1954 por Juscelino e Getulio Vargas, 12 dias antes do suicídio.

Mas Juscelino, com seu faro e visão, queria uma siderúrgica mineira, dos e para os mineiros. Anunciou que o Estado iria comandar a construção da “Siderúrgica de Minas Gerais” (“Simg”). Na Assembléia, o deputado do PTB e amigo de JK, Saulo Diniz (depois, do Tribunal de Contas do Distrito Federal, cassado pelo golpe de 1964), fez o projeto.

No “Diario do Comercio”, eu mal começava como revisor e um jovem e inexperiente repórter. Não escrevia editoriais. Naquela noite, o diretor José Costa  me chamou e mandou escrever um editorial forte para a primeira pagina, apoiando o projeto.  

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DIARIO DO COMERCIO

Fiquei orgulhoso com a missão e sugeri que o jornal propusesse um nome novo, bem sonoro, “USIMINAS” (“Usina Siderúrgica de Minas”), porque “SIMG” soava mal. Ele topou, caprichei, escrevi o editorial – “USIMINAS” -, que ele leu, aprovou, elogiou. Fui para a pensão todo vaidoso, esperando ler no dia seguinte. Mas aconteceu o desastre.

Zé Costa, magro, elegante, simpático, discreto, era incapaz de brigar com um passarinho. Pois naquela noite ele se desentendeu com o chefe da oficina, chamou-o à sua sala, fez as contas, pagou tudo que lhe devia e disse que, fechado o jornal daquela noite, podia ir embora porque estava demitido. E ele, Zé Costa, foi logo para casa.

De manhã cedo, o escândalo. O chefe da oficina, antes de ir embora, havia trocado as cinco primeiras linhas de meu sofrido e orgulhoso editorial de primeira pagina, todo em corpo grande e negrito.  Saíram assim :

– “Costafiladaputa!, Costafiladaputa!, Costafiladaputa!”..

A cidade inteira riu. E o Zé Costa sem poder fazer nada.

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CORREIO DA MANHÃ

Nos anos difíceis do “Correio da Manhã” da brava Niomar Moniz Sodré, atacado pela ditadura militar, também enxertaram no editorial :

– “Niomar, paga nosso salário”! “Niomar, paga nosso salário”!

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