Insossos, amorfos e inodoros debates

Carlos Chagas

No passado  foi  sinal de prestígio para as redes de televisão promover debates entre os candidatos  presidenciais. Positivamente, hoje não é mais. Pudessem ser realizadas e divulgadas pesquisas amplas, em  todo o território nacional, a respeito dos índices de audiência desses debates, e os partidos se surpreenderiam pelo baixo nível de atenção do  cidadão  comum diante da   repetição  das mensagens de cada candidato. Verificariam o esgotamento do formato já ultrapassado de  um perguntar para o  outro, com tempo restrito para réplicas  e tréplicas onde apenas chavões e pegadinhas  vão ao ar.

A turma do faturamento das emissoras através da publicidade não anda nada satisfeita. Até   os barões-proprietários começam a duvidar da eficácia de sua presença na portaria e nos corredores  das emissoras,  recebendo os participantes, como forma de mais tarde serem recebidos por um deles, o vencedor, quando chegar ao palácio do  Planalto.

É preciso repensar essa monótona tentativa de angariar votos, por parte de uns, e de programar influência, pelos outros. Um único debate realizado em pool ainda passaria, pela curiosidade do  eleitor. Cinco, seis e mais encontros dos mesmos, falando as mesmas coisas, só faz despertar sono no telespectador. Mais evidências do desinteresse popular  tivemos ontem, no debate da Record, e teremos quinta-feira, na Globo, como aconteceu antes na Bandeirantes, na Rede-TV, na Rede Vida e outras. Bem agiu  o SBT em  não pleitear o seu debate,  limitando-se a abrir espaço para entrevistas isoladas de cada candidato.

Repetir no futuro   as mesmas insossas,  amorfas e inodoras apresentações equivalerá a desestimular eleitores e candidatos.

SINCERIDADE  FAZ MAL, DE MAIS OU DE MENOS

Ao disputar a presidência da República em  1960, o marechal Henrique Lott caracterizou-se pela sinceridade de  suas mensagens e pronunciamentos. Não fazia concessões a temas e situações. Vinha defendendo a estatização completa do ensino primário e médio, com o fim das escolas privadas. Chegando em Santa Catarina, foi procurado ainda no aeroporto de Florianópolis por uma comissão do PSD, maior partido nacional, que o apoiava. Com muito jeito, Celso Ramos, cacique local, chamou-o de lado e apelou para que não abordasse o assunto, no comício daquela noite. Não pedia que mudasse de proposta, mas, simplesmente, que a  omitisse, porque no estado o  ensino privado ultrapassava 80% das escolas.

O marechal  não disse nada, pareceu concordar. No palanque, depois de  pronunciar-se sobre montes de projetos nacionalistas, preparava-se para encerrar sua fala e não havia tocado na questão do ensino. Todos pareciam satisfeitos quando, puxando Celso Ramos para o seu lado, disse ao microfone suas últimas palavras: “quero demonstrar como sou sincero. Meu amigo Celso pediu-me para silenciar quanto às escolas, mas não tenham dúvidas, se eleito, vou estatizar  todas elas!”   Perdeu de lavada a eleição em Santa Catarina.

Essa historinha se conta em função da teoria dos contrários. Um pouquinho de sinceridade faria bem aos atuais candidatos,  mestres em omitir temas capazes de tirar-lhes votos. Dilma não fala no lucro dos bancos, Serra silencia diante das privatizações do governo Fernando Henrique, Marina evita abordar o asfaltamento da rodovia  Manaus-PortoVelho e Plínio esquece de  lembrar que o comunismo saiu pelo ralo…

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