Instalar UPAs é fácil, fazê-las funcionar é a questão

Pedro do Coutto

Reportagem de Eliana Oliveira e Henrique Gomes Batista, O Globo de domingo, focaliza o problema essencial entre o projeto de instalar Unidades de Pronto Atendimento e fazê-las funcionar. A presidente eleita Dilma Rousseff comprometeu-se na campanha a implantar 500 UPAS no país, aproveitando o modelo colocado em prática pelo governo Sergio Cabral no Rio de janeiro, mas para isso, terá que contratar 40 mil médicos, além dos demais profissionais de saúde necessários.

Surpresa? Nem tanto. Basta considerar que cada UPA deve funcionar 24 horas por dia, já que não existe hora marcada para as pessoas necessitarem de socorro, tampouco horário de escala para que acidentes aconteçam. Falando apenas em relação aos médicos, verificamos que para o funcionamento ininterrupto, de acordo com a lei que rege a profissão, que limita a jornada de trabalho em seis horas diárias, além de assegurar as folgas semanais, haveria necessidade de quatro turnos. Quatro equipes, portanto, revezando-se sem parar.

Este aspecto me foi dito, também domingo, durante o programa Haroldo de Andrade Junior, mesa de debates na Rádio Tupi, pelo engenheiro Merhi Daychom, especialista em construções de prédios públicos funcionais. “Instalar UPA é fácil – disse –, fazê-las funcionar é que é difícil”. Com isso, estabeleceu a conexão indispensável entre a obra e a presença humana para colocá-la em ação, sobretudo de forma verdadeira e eficiente. Para não funcionar, não vale nada o investimento para colocá-la de pé, acentuou.

Há necessidade de médicos, enfermeiros, radiologistas, copeiros, serventes, além de encarregados pela limpeza, a qual tem que seguir regras hospitalares. Uma coisa é inaugurar, para efeito de marketing, outra é torná-la concretamente exeqüível. Mas a questão da estrutura mecânica é ainda mais complexa. Além de todo material humano, cada UPA tem que ser equipada e contar com estoque de medicamentos e aparelhamentos técnicos. Raios X é um deles, além de tesouras, pinças, esterilizantes, macas, leitos para repouso, medidores de pressão etc. Tudo isso tem que ser adquirido em condições imediatas de uso.

Se a presidente Dilma projeta implantar 500 UPAS, terá que multiplicar cada esforço unitário por 500, digo eu. Para Merhi, todo esse empenho, incluindo os investimentos necessários, forneceria melhores resultados se fosse dirigido à recuperação e  modernização da rede hospitalar e ambulatorial já existente. Inclusive porque – assinala – as UPAS nada mais são do que containeres adaptados e ligados às redes de energia, água e esgoto, ou na falta deste, a fossas sépticas.

De outro lado, as UPAS não são de propriedade do poder público, embora construídas em espaços do estado. Funcionam sob a forma de locação, e o aluguel custa caro. Trata-se de uma patente da empresa internacional NHJ, que libera seu direito de uso, hoje, para o Rio de Janeiro, e que poderá cedê-lo, amanhã, para o governo federal em todo o país. Quinhentas UPAS custam muito caro, muito mais do que reequipar-se hospitais e ambulatórios. Incrível. Por isso, em matéria de gastos públicos toda atenção é pouca. Todo cuidado, mais ainda.

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