Internet soma mas não substitui a Britânica e a obra de Houaiss

Pedro do Coutto

Em artigo publicado na Folha de São Paulo de sábado 17, o jornalista Hélio Schwartsman, um intelectual, lamentou a decisão da Enciclopédia Britânica de suspender novas edições escritas no papel, incluindo fotografias, substituindo-as pelo acesso à Wikipidia, via Internet. Tem razão. Mais do que um lamento pode-se apontar um erro na atitude. Grave.

 A Internet acrescenta rapidez a consultas feitas à Britânica e ao conjunto da obra monumental legada por Antonio Houaiss. Deixou marcada sua passagem pela cultura dirigindo a Delta Larousse, a Morador, o maior dicionário brasileiro que leva seu nome, além da Koogan-Houaiss. No caso do dicionário leve-se em consideração que se trata, isso sim, de uma verdadeira enciclopédia da palavra. São 320 mil verbetes.

Poder-se-á dizer que todas as edições a que me refiro encontram-se digitalizadas. Mas não é esta a questão essencial, para lembrar Shakespeare. O ponto nevrálgico do tema que coloco parte da dimensão do campo virtual quando se trata de captar informações culturais. Uma coisa não elimina a outra.

A Internet, sem dúvida, adiciona. E muito ao conhecimento humano, facilitando e tornando mais rápida a pesquisa. Porém esta parte de um alvo definido. Uma palavra, um personagem, um autor ou autora, um fato. Qualquer dificuldade acessa-se o Google e chega-se lá. Na Britãnica e na obra de Houaiss é diferente. Procura-se tudo isso pela ordem alfabética, nem poderia ser de outro modo. Mas ninguém consegue atingir de cara a página pretendida. Vai-se por aproximação. Nessa aproximação, encontra-se sempre uma série de outras informações. Que surgem ao percorrermos a trajetória visual e nos chamam atenção. Somos então conduzidos a outras etapas e planos do conhecimento quando passamos pelos degraus da linguagem escrita.

O mesmo não acontece na Internet, portanto na Wikipédia, a que se referiu Schwartzman. Qualquer leitor poderá confirmar o que sustento: basta compulsar uma enciclopédia viajando pelos terrenos da cultura universal.A exemplo do que ocorreu com o processo histórico da informação e comunicação.

A imprensa, Galáxia de Gutemberg, somou uma etapa decisiva do livro e à literatura. O rádio acrescentou à imprensa. O cinema acrescentou a ambos. A televisão acrescentou à imprensa escrita, ao rádio e ao cinema. A Internet acrescenta uma bela e importante conquista a tudo que existia antes dela. Porém, ninguém deve esquecer que a Internet parte da linguagem escrita digitalizada e da reprodução de imagens através de idêntico processo.

A Internet não surgiu ou existe por acaso. Seres humanos, aos milhões, diariamente usam as teclas de computadores para jogar nas telas do mundo informações escritas ou fotografadas.Antonio Houaiss, de quem fui amigo, me disse, antecipando-se ao futuro, que as enciclopédias enfrentariam eternamente o problema da atualização e modernização. São datadas, assim como os jornais.

Um exemplo simples: quando focalizam a obra de um escritor informam o ano de nascimento. Mas, claro, não podem prever sua morte. Quando esta ocorre, o que fazer?Sempre se buscou uma solução. A mais viável editar-se um volume anual atualizando. Mas e o custo? E o espaço nas bibliotecas?

Agora, treze anos depois do falecimento de Houaiss, ele morreu em março de 99, o impasse pode finalmente, se não resolvido totalmente, pelo menos equacionado, através da Internet. Desde que os grandes jornais anunciem o lançamento da modernização na Wikipédia. Basta clicar. Mais uma vez, no tempo, uma alvorada sucede o crepúsculo.

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